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Avatar 3: Fire and Ash - Quando a franquia fala mais alto do que o cinema

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Com o lançamento do terceiro filme da franquia, depois de um revival 13 anos após o primeiro filme, o longa, que foi desenhado junto ao anterior e seu sucessor, surpreende em como o cinema pode ser obstruído pelo desejo incessante de continuidade.

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Sobre Avatar 3

Avatar: Fire and Ash ou Avatar 3, foi escrito e dirigido por James Cameron (Terminator, Titanic, Avatar 1 e 2). O roteiro também tem contribuições de Rick Jaffa (Planet of the Apes) e Amanda Silver (Jurassic World). O elenco segue o mesmo dos filmes anteriores com a inclusão de uma nova personagem e uma das vilãs do filme, Varang, interpretada por Oona Chaplin, neta de Charles Chaplin.

Apesar dos nomes de peso na equipe do filme e de um trailer eletrizante, o filme não vem sendo bem recebido pela crítica, que tem apontado graves questões temáticas, de roteiro e direção das quais o filme deixou muito a desejar em comparação aos seus antecessores.

Mas, como nada é linear na sétima arte, é importante marcar que, independentemente da crítica, o filme arrecadou mais de um bilhão de dólares em bilheteria nos primeiros 20 dias em cartaz, consolidando James Cameron como o único diretor que tem 4 filmes que superam a marca de 1 bilhão de dólares em bilheteria.

Afinal de contas, quem está certo? Crítica ou público?

Vamos por partes:

O Enredo

Avatar: Fire and Ash se passa após os eventos de O Caminho da Água e acompanha Jake Sully, Neytiri e seus aliados diante de uma nova ameaça em Pandora. O filme apresenta o Povo das Cinzas, um clã Na’vi que vive em regiões vulcânicas e é liderado por Varang, uma figura autoritária moldada por um ambiente hostil e pela ruptura com a espiritualidade que tradicionalmente conecta os Na’vi a Eywa. Essa dissidência interna cria um conflito inédito dentro do próprio povo de Pandora.

Paralelamente, o Coronel Miles Quaritch retorna como força antagonista e estabelece uma aliança com Varang, unindo interesses humanos e Na’vi em uma frente comum de dominação e guerra. A trama se desenvolve a partir dessa escalada de tensões, envolvendo disputas territoriais, choques culturais e o aprofundamento das consequências deixadas pelos filmes anteriores.

Avatar: Fire and Ash

Embora o enredo amplie o escopo político e simbólico da franquia, o filme demonstra dificuldade em equilibrar essa ambição com uma narrativa coesa. Ao tentar ser continuidade, expansão e preparação para os próximos capítulos ao mesmo tempo, Fire and Ash revela um problema que atravessa todo o longa e que se reflete diretamente em seu discurso temático.

Neytiri e Jake Sully
Neytiri e Jake Sully

Universo em expansão e mudanças

Desde o primeiro Avatar, Pandora foi apresentada como um mundo vivo, pulsante e simbólico. Cada expansão desse universo nos filmes seguintes vinha acompanhada de um aprofundamento sensorial e cultural. Em Fire and Ash, essa expansão continua visualmente impressionante; novos biomas, novas cores, novas formas de vida; mas já não carrega o mesmo impacto narrativo.

O filme introduz novos clãs e culturas com uma velocidade que impede qualquer vínculo mais profundo com eles. Diferente do que acontecia antes, onde o espectador era convidado a observar, aprender e sentir aquele mundo, agora a lógica parece mais próxima de um catálogo: apresentar para seguir adiante. Pandora cresce, mas o tempo de contemplação diminui.

Essa expansão acelerada revela uma mudança sutil, porém significativa, na proposta da franquia. O universo deixa de ser um espaço dramático central e passa a funcionar como combustível para a continuidade. Tudo é maior, mais ambicioso, mais detalhado. E, paradoxalmente, menos íntimo.

O povo do Ar
O povo do Ar

Desalinhamento temático do filme

É chover no molhado falar que no primeiro filme a construção do que acontece no filme constrói e entrega com excelência a mensagem que o filme deseja. Os Na’vi são uma óbvia metáfora aos povos originários e tudo que acontece no filme é uma crítica ao colonialismo branco, comparando a exploração de Pandora e seus nativos com as tragédias que aconteceram em nosso planeta.

Se Avatar foi um dos filmes mais lineares em seu tema no primeiro e segundo filme, aqui é quase gritante como esse tema é esquecido em detrimento do desejo obsessivo de virar e dar uma nova roupagem para a estrutura aplicada anteriormente.

Varang
Varang

Trazer uma vilã Na’vi é uma sacada que, na largada, parece brilhante, mas que é brutalmente suprimida pela conexão que Varang desenvolve com o Coronel Miles. O fato de que os dois se juntam já é por si só uma solução fraca de roteiro, evitando lidar com um conflito político e simbólico mais complexo entre três forças distintas. Mas o problema vai além: é profundamente frustrante ver uma vilã construída com força, autonomia e visão própria ser esvaziada no momento em que se torna par romântico de um homem.

Essa decisão enfraquece não só a personagem, mas o próprio discurso do filme. Ao invés de tensionar contradições internas dos Na’vi ou explorar dissidências reais dentro de um povo oprimido, o longa escolhe o caminho mais confortável, e mais previsível.

Neytiri
Neytiri

O mercado de propriedades intelectuais

Avatar: Fire and Ash talvez seja o exemplo mais claro de como até mesmo autores historicamente autorais podem se render à engrenagem das propriedades intelectuais. O filme não falha por falta de dinheiro, talento e ambição. Ele falha porque parece existir menos como obra isolada e mais como peça estratégica de um plano maior.

O cinema blockbuster contemporâneo tem transformado filmes em episódios de um fluxo contínuo, onde cada obra precisa servir ao que vem depois. Nesse contexto, o risco criativo diminui, as resoluções se tornam provisórias e o impacto emocional é constantemente adiado. Avatar 3 sente esse peso em cada escolha narrativa que parece calculada para preservar futuros lucros, e não para potencializar o presente.

James Cameron sempre foi um diretor que acreditou no poder da experiência cinematográfica. Aqui, no entanto, essa experiência é atravessada por uma lógica industrial que prioriza a longevidade de marca em detrimento da contundência artística.

Jake Sully
Jake Sully

Conclusão - Vale a Pena ver Avatar 3?

Avatar: Fire and Ash não é um filme pequeno, nem irrelevante. Ele impressiona tecnicamente, expande seu universo e segue sendo um fenômeno de público. Mas é justamente aí que reside sua contradição mais incômoda: quanto maior a franquia se torna, menor parece ser o espaço para o cinema respirar.

O filme funciona, mas raramente pulsa. Ele entrega espetáculo, mas hesita em se posicionar. No fim, a pergunta não é se a crítica ou o público estão certos, mas se ainda há espaço para que uma franquia desse tamanho se permita errar, arriscar e dizer algo com urgência.

Se você já é fã da franquia e quer ver mais desses personagens, definitivamente vale a pena ir ao cinema. Agora, se você busca um filme surpreendente e inventivo, o filme de James Cameron não é para você.

Nota: 2 de 5

Talvez Fire and Ash seja menos sobre fogo e cinzas e mais sobre o momento em que uma saga percebe que cresceu demais para caber dentro de um único filme.

Até a próxima!