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Review de Quem é o Idiota?- Identidades Falsas, Escolhas e Consequências Reais

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Saiba mais sobre esse drama criminal japonês sobre fraude, lealdade e os limites da própria consciência.

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revisado por Tabata Marques

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Trama de Quem é o Idiota?

Escondido no vasto catálogo da Netflix, esse longa merece atenção. Dirigido por Koto Nagata, Quem é o Idiota? (em inglês, Baka's Identity) é um drama japonês de 2025, com roteiro de Kosuke Mukai, baseado no romance Orokamono no Mibun, de Jun Nishio. O elenco conta com nomes como Takumi Kitamura, Yuta Hayashi e Go Ayano. O filme passou pelo Festival Internacional de Cinema de Busan e pouco depois chegou ao público internacional via Netflix.

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Quem é o Idiota? aposta no drama social com uma narrativa que, mesmo inserida no universo dos crimes digitais, procura mostrar uma realidade bem mais profunda: a dos jovens sem oportunidades num Japão marcado pela desigualdade. Na trama, acompanhamos três pontos de vista, entre eles os de Takuya e Mamoru, dois jovens que sobrevivem enganando outras pessoas nas redes sociais.

Eles se passam por mulheres para atrair homens solitários e comprar suas identidades e documentos, que depois são vendidos no submundo online. À medida que o filme se desenrola, esse jogo vai se entrelaçando com questões de lealdade, identidade individual e as consequências morais e físicas de escolhas.

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A crítica internacional tem destacado esse aspecto: a forma com que Nagata expõe a realidade dura de quem fica à margem do sistema. Resenhas observam que o filme não se trata de um thriller genérico, mas procura, com sensibilidade e às vezes com brutalidade, retratar como identidade e sobrevivência podem ser confundidas (e destruídas) na era digital, especialmente para jovens sem apoio ou rede de proteção.

Quem é o Idiota? opta por acentuar as interações interpessoais e desafia o espectador a questionar, junto com os protagonistas, até que ponto a linha entre vítima e algoz é tênue.

Aparência vs Realidade

O Japão é visto por boa parte do mundo como uma sociedade próspera, organizada e exemplar, com economia poderosa, tecnologia de ponta e uma vida urbana em que tudo parece funcionar com precisão. No entanto, essa imagem esconde fissuras profundas: desigualdade social, mercados de trabalho instáveis e exclusão de grupos inteiros da população. Esse é um dos paradoxos mais marcantes da sociedade japonesa contemporânea.

Desde o final da bolha econômica no início dos anos 1990, o modelo tradicional de emprego japonês começou a ruir e cresceu dramaticamente um mercado de trabalho marcado por contratos temporários, empregos de meio período e posições sem segurança de longo prazo; o que estudiosos chamam de precarious work. Esse fenômeno não é exclusivo do Japão, mas lá ele tomou uma forma intensa: aproximadamente quase metade da força de trabalho passou a ter empregos não regulares, sem as proteções e garantias que antes eram norma.

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Essas transformações têm impacto direto na saúde social e psicológica dos jovens que não conseguem emprego estável ou que permanecem em posições temporárias, e muitas vezes enfrentam dificuldades para sair de casa, formar família ou ter autonomia financeira. Um exemplo documentado é o fenômeno hikikomori, que descreve indivíduos que evitam o convívio social, deixando de frequentar escola, trabalho ou qualquer atividade pública por anos. Estima-se que existam mais de um milhão e meio de pessoas em idade ativa vivendo como hikikomori.

Outro termo que surge desse contexto é freeter, que descreve jovens que trabalham em empregos precários, sem perspectiva de carreira estável ou ascensão.

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O impacto dessas condições é pior quando se olha para padrões culturais. A sociedade japonesa valoriza conformidade, desempenho e contribuição ao grupo. Quando alguém não se encaixa nesses moldes, surge um forte estigma. Isso reforça a sensação de exclusão social, porque “falhar” socialmente é quase como uma falha pessoal, em vez de um problema estrutural. Em casos extremos, essa combinação de isolamento, pressão social e falta de perspectiva econômica tem sido associada a fenômenos como o kodokushi, ou “morte solitária”, em que idosos (e às vezes pessoas mais jovens) vivem e morrem sozinhos, sem que ninguém perceba por longos períodos.

Portanto, a imagem de um Japão rico, embora socialmente fragmentado, não é um clichê fictício, mas uma realidade. A riqueza nacional não se traduz em bem-estar humano e inclusão para todos.

Essa compreensão contextualiza com base profunda Quem é o Idiota?, já que o filme se insere numa realidade social em que jovens sem opções recorrem a estratégias de sobrevivência (inclusive ilegais), não porque escolhem o caminho fácil, mas porque muitas vezes não existe para onde ir.

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Apesar de tudo, afeto

Apesar de nos trazer uma visão crítica da sociedade japonesa contemporânea, a força do filme está em mostrar o ponto de vista dos três personagens e as razões pelas quais se encontram dentro do contexto, especialmente no caso dos dois jovens: Mamoru e Takuya.

Eles não são apenas marginais que recorrem aos golpes como dinheiro fácil; existiram motivos fortes para que descessem a esse nível e, embora se beneficiando desse modo de vida, eles não se orgulham e nem ficam absolutamente felizes. Sentem-se mal pelas vítimas, mas a sobrevivência fala mais alto, algo muito crível.

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Não existe desculpa para se aproveitar de um momento de necessidade alheia, mas entendemos o que levou os jovens a buscar esse caminho e compreendemos que, se houvesse apoio externo, eles jamais teriam optado por isso.

Takuya, a princípio, nos parece mais frio e prático, mas ao longo da história descobrimos o quanto ele se sacrificou para dar uma chance a outra pessoa, a ponto de perder até mesmo sua própria identidade. E ele se sente mal por, apesar da boa intenção, ter levado seu amigo Mamoru para o mesmo caminho, até porque Mamoru é um reflexo de um irmão mais novo para Takuya, e ele quer protegê-lo como faria a um irmão.

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O longa não se utiliza de uma narrativa de explicações explícitas; ele nos dá contexto sem precisar entrar em detalhes e faz isso de modo muito eficaz. Não precisa traduzir tudo para podermos entender as relações e intenções de cada personagem. É sutil em seu modo de nos apresentar suas razões e ligações.

E, dentro dessa sutileza, nos apresenta de modo cru e sincero uma relação de amizade que, mesmo dentro de um contexto tão contraditório, nos faz torcer para que eles fiquem bem.

Takuya não é um herói, mas é alguém que faz o possível para reparar seus erros, e isso nos gera empatia imediata ao conhecê-lo melhor. E, exatamente por esse motivo, nos angustia muito ver seu destino se desenrolando.

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Vale a pena assistir Quem é o Idiota?

Muito! Foi uma grata surpresa, e as duas horas do longa foram tão bem desenvolvidas que mal senti passar.

Mas não espere ação: essa obra segue de modo lento, contemplativo, apesar de algumas cenas bastante angustiantes e agressivas. Não é para fazer o coração pular, e sim para senti-lo apertado.

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Nota: 4,4 de 5.

Agora me conta: você se interessa por filmes como Quem é o Idiota?, que exploram decisões morais e mostram como cada escolha cobra seu preço, ou prefere tramas mais frenéticas, onde a ação fala mais alto que a reflexão?

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