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Oscar 2026: Hamnet e o trauma da vida

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E se Hamlet não tivesse nascido da genialidade, mas do luto? Hamnet troca o mito pelo corpo, o cânone pelo trauma e pergunta, sem muita delicadeza, se a arte é mesmo sublimação ou só uma forma sofisticada de sangrar em público.

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Sobre Hamnet e Shakespeare

William Shakespeare é uma das, se não a, figura mais importante da dramaturgia ocidental. Falar sobre ele é sempre pisar em solo sagrado, cercado por séculos de reverência, citações obrigatórias e uma aura de gênio incontestável. Hamnet é ousado justamente porque não está interessado nesse altar. O filme desloca o foco, rebaixa o mito e decide olhar para onde quase ninguém olha: a perda, o silêncio e, principalmente, Agnes, a esposa historicamente empurrada para a lateral da narrativa.

Ao dar protagonismo a Agnes, o longa não apenas revisita a origem de Hamlet, mas questiona a própria ideia de autoria, genialidade e legado. Aqui, o trauma vem antes da obra. A vida vem antes do clássico. E nem sempre isso é confortável.

Dirigido pela premiada Chloé Zhao, vencedora do Oscar por Nomadland, e escrito pela própria Zhao em colaboração com Maggie O’Farrell, autora do romance homônimo, Hamnet chega aos cinemas como uma das apostas mais sólidas da temporada de prêmios de 2026.

Bem posicionado na corrida do Oscar, o filme já acumulou prêmios e indicações importantes no BAFTA, Critics Choice Awards e Globo de Ouro, vencendo como Melhor Filme nos dois últimos. Não é o líder absoluto de indicações, mas é aquele concorrente persistente que vai passando na frente, recolhendo troféus e deixando os favoritos desconfortáveis.

Mas, felizmente, cinema não se sustenta só em estatuetas. Vamos ao que interessa.

Romance!?
Romance!?

Questão Histórica

Um dos pontos mais interessantes, e menos romantizados, que Hamnet recupera é a confusão histórica em torno do próprio nome. Hamnet e Hamlet tinham a mesma sonoridade no inglês elisabetano, o que por séculos alimentou debates, apagamentos e uma espécie de desconforto acadêmico em admitir que o maior personagem da dramaturgia ocidental pode ter nascido de uma perda íntima e literal. A correlação entre o filho morto e a peça nunca foi exatamente um segredo, mas sempre foi tratada como um detalhe incômodo, quase inconveniente demais para o mito.

O filme parte justamente desse conhecimento histórico já estabelecido; a existência do filho, sua morte precoce e a proximidade fonética entre os nomes; para fabular em cima do que os registros não dão conta. E, principalmente, para deslocar o olhar. Porque se a história sempre esteve obcecada em proteger Shakespeare, ela foi igualmente cruel com Agnes, sua esposa.

Historicamente retratada como uma figura difícil, ressentida ou até mesmo uma megera abandonada no interior enquanto o marido brilhava em Londres, Agnes sempre existiu à margem do cânone. O livro de Maggie O’Farrell e, agora, o filme de Chloé Zhao fazem algo raro: não tentam limpá-la ou suavizá-la, mas devolvem a ela complexidade, agência e protagonismo. Pela primeira vez, a história não pergunta o que Shakespeare perdeu. Pergunta o que ela perdeu e o que foi obrigada a carregar sozinha.

William sendo um banana, enquanto a esposa resolve tudo
William sendo um banana, enquanto a esposa resolve tudo

Enredo de Hamnet

O filme constrói sua narrativa com calma quase teimosa. Acompanhamos o encontro entre Agnes e William ainda jovens, a reputação dela como uma mulher associada à cura, à natureza e, inevitavelmente, ao rótulo de “bruxa”. A relação entre os dois não nasce fácil: há resistência social, diferenças de origem, desconfiança. O casamento é menos um conto romântico e mais um pacto de sobrevivência.

Seguimos com a formação da família, o nascimento dos filhos, a dinâmica doméstica e o afastamento progressivo de William, que passa longos períodos fora em função do trabalho. Agnes permanece. Ela cria, sustenta, observa. O filme insiste nesses gestos cotidianos, nessa convivência aparentemente banal, até que o inevitável acontece: a morte de Hamnet.

Vale reforçar, sem medo: isso não é spoiler. Está na sinopse, está no título, está na história real. O que importa não é o evento em si, mas o impacto que ele provoca. A partir daí, o filme se transforma em um retrato dilacerante de uma família que não sabe mais como existir da mesma forma.

Pai e filho praticando luta de espada (Clássico de pai ausente)
Pai e filho praticando luta de espada (Clássico de pai ausente)

Os problemas

E é justamente aqui que o filme começa a tropeçar no próprio rigor. A morte do filho acontece apenas depois de cerca de uma hora e meia de duração, e até lá o longa investe pesadamente em plantar vínculos, afetos e símbolos. Tantas vezes que a sensação deixa de ser preparação e passa a ser exaustão. O espectador já entendeu quem é aquela família, já se conectou com aquele menino, já percebeu o que está em jogo. O filme, no entanto, continua insistindo.

Depois do evento central, há uma mudança clara de eixo. Durante quase todo o tempo estamos com Agnes. O luto é dela, o corpo é dela, o silêncio é dela. Mas, no trecho final, o filme decide deslocar o foco para William, dando dimensão ao sofrimento dele e reorganizando a narrativa em torno de sua dor.

Essa escolha é problemática porque contraria tudo o que o próprio filme vinha construindo. William nunca foi o personagem central dessa história e não precisava ser. Ao tentar equilibrar os pesos no final, o filme dilui a força do olhar que escolheu no início. A ideia da arte como expurgo do trauma é bonita, simbólica e até potente, mas ela parece colada a um filme que estava falando de outra coisa. Permanência, abandono e um luto que não se transforma automaticamente em obra.

Cena linda, amei. Mas e o filme que eu tava vendo?
Cena linda, amei. Mas e o filme que eu tava vendo?

Os pontos fortes

Dito isso: Hamnet é um filme feito para o cinema. Para a sala escura, para o silêncio coletivo, para o choro contido que escapa no meio da sessão. Não é exagero dizer que há sempre alguém chorando e não porque o filme apela, mas porque ele insiste.

A direção de Zhao é sensorial, delicada e paciente. A câmera observa mais do que interfere. As atuações, especialmente a de Agnes, interpretada por Jessie Buckley, são simplesmente brilhantes. Ela domina cada plano, cada silêncio e cada microgesto. É uma performance que não pede atenção, ela exige.

Não à toa, Buckley venceu o Globo de Ouro de Melhor Atriz. O filme repousa sobre seus ombros, e ela sustenta tudo. O luto, a raiva, o amor e o esvaziamento. Mesmo quando o roteiro vacila ou se alonga demais, é ela quem mantém o espectador dentro da experiência.

Jessie Buckley brilhantemente interpretando Agnes
Jessie Buckley brilhantemente interpretando Agnes

Talvez não seja de entender, seja de sentir

Hamnet não é um filme que se explica bem em argumentos. Ele não fecha todas as ideias, não resolve todas as tensões e definitivamente não oferece conforto. E talvez seja justamente aí que ele acerta.

Nem todo trauma vira arte de forma limpa. Nem toda dor precisa fazer sentido. Às vezes, o máximo que se pode fazer é sentir e sobreviver a isso.

Nota: 3 de 5

Um filme poderoso, sensível e, em alguns momentos, excessivo. Funciona mais como experiência emocional do que como construção narrativa coesa. O que pode ser defeito para alguns, é exatamente o ponto bom para outros.

E você? Se emocionou?

Até a próxima!