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Oscar 2026: Marty Supreme, um gênio imaturo

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Gênio ou só imaturo com talento? Marty Supreme transforma um prodígio do tênis de mesa em estudo de ego, destruição e falsas promessas de amadurecimento, mas talvez tropece no mesmo infantilismo que tenta criticar.

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Sobre Marty Supreme

Dirigido por Josh Safdie, com evidente ambição de temporada de prêmios e sustentado por uma performance central de Timothée Chalamet, desenhada e vendida com um marketing agressivo para chamar atenção da crítica, Marty Supreme chega à corrida do Oscar sacando bolas que talvez não seja capaz de manter em jogo.

Centrado na vida de um jogador de tênis de mesa, brilhantemente interpretado pelo protagonista da franquia Duna e do sucesso “Call Me by Your Name”, o filme chegou ao cinema com sucesso na crítica e recepção mista entre o público.

Mas, apesar da embalagem elegante, o centro da narrativa é menos nobre do que parece. Marty não é um herói esportivo clássico nem um vencedor incontestável. Ele é apresentado como um talento extraordinário do tênis de mesa, sim, mas também como alguém incapaz de sustentar qualquer estabilidade fora do jogo. E é justamente nesse contraste que o filme encontra seu verdadeiro conflito.

Porque, desde cedo, fica claro que o maior adversário de Marty não está do outro lado da mesa. Está dentro dele.

Obs.: Essa review contém spoilers. Aqui eles são importantes para o desenvolvimento de uma análise completa

Trailer Oficial

O verdadeiro Marty Mauser
O verdadeiro Marty Mauser

Análise de Marty Supreme com Spoilers

Talento não paga contas

Existe algo quase cruel na forma como o filme retrata a posição social de seu protagonista. Ser o melhor jogador de tênis de mesa do mundo não significa exatamente ter uma carreira estável, reconhecimento financeiro ou qualquer tipo de segurança. Em determinado momento inicial, Marty chega a cometer um roubo à mão armada para conseguir dinheiro suficiente para viajar até sua primeira grande competição.

A realidade é tão fiel que é possível ver o desprezo que há sobre o esporte em cada personagem. Sem contar que fazer trabalhos temporários e agenciar pequenos delitos parece render mais grana do que ser um grande profissional no esporte. Talvez o verdadeiro erro de Marty não seja a violência, mas ter escolhido o tênis de mesa como profissão.

Mas o assalto inicial não serve apenas como comentário social. Ele estabelece algo mais importante: o rastro de destruição que acompanha o personagem desde o começo.

Timothée Chalamet fazendo papel de coitado DE NOVO
Timothée Chalamet fazendo papel de coitado DE NOVO

O toque de Midas

Marty não sabe perder, mas também não sabe cuidar. Ao longo do filme, sua impulsividade deixa marcas em todos que se aproximam: amigos afastados, relações familiares tensionadas, afetos rompidos, uma gravidez atravessada por instabilidade. Tudo parece existir apenas na medida em que alimenta seu ego ou sua obsessão competitiva.

O talento, que deveria ser potência de construção, vira instrumento de devastação. Marty atravessa a narrativa como alguém convencido de que genialidade justifica qualquer dano colateral. E o mundo ao redor vai se quebrando silenciosamente para sustentar essa ilusão. É quase um toque de Midas reverso. Tudo que ele toca vira destruição, ao invés de ouro.

Algo muito interessante que o filme entrega nesse sentido é que todos os personagens tendem a ser diferentes, ocupando lugares diferentes na vida de Marty, são brilhantemente interpretados por um elenco de apoio de peso e se conectam com a dor constante que é ser passado para trás pelo esportista trambiqueiro.

O problema é que, quando o filme finalmente culmina em uma punição real ao personagem, a maneira como tudo acontece soa mais como tragédia esportiva do que como consequência inevitável de uma trilha de destruição. Isso praticamente tira o peso dos erros de um homem que se recusa a crescer.

Marty fugindo das responsabilidades
Marty fugindo das responsabilidades

Crescer ou apenas simbolizar crescimento?

Mesmo cercado de destruição, Marty continua sendo protegido pela narrativa. A direção investe pesado em transformar violência em intensidade, ego em magnetismo e caos em charme. O espectador é constantemente convidado a compreender antes de julgar. E, sim, isso é feito com excelência, mas o que isso deixa como mensagem para o público?

O incômodo nasce daí. Quanto mais o filme tenta garantir nossa cumplicidade, mais evidente se torna a ausência de consequências verdadeiras. O perigo não está só no personagem, mas no quanto a obra parece relutante em responsabilizá-lo.

Tudo desanda quando, ainda no começo do filme, é introduzido um dispositivo que soa quase infantil, de uma gravidez que dá um caminho de “crescimento” para o rapaz. Aqui é praticamente a tradução da ideia que, para um homem crescer, ele precisa se tonar pai. Essa saída não só exime o personagem de boa parte de sua responsabilidade, mas irrita ao dar a chance deste homem problemático e egocêntrico que não aprende nada com nenhum erro, sair como um herói ao fazer o mínimo: assumir um filho que é dele.

Crescer exigiria confronto real com os próprios danos causados, não apenas a chegada de uma nova função social. Ao optar pelo atalho simbólico, o filme enfraquece justamente o arco que o próprio roteiro dá protagonismo.

Odessa A'zion gravida de uma metafora
Odessa A'zion gravida de uma metafora

Questões políticas e de ponto de vista

É nesse contexto que o confronto final contra o campeão japonês ganha peso simbólico. Mais do que um adversário técnico, ele funciona como espelho moral: disciplina contra impulso, controle contra desordem, maturidade contra ego.

O clímax em território japonês adiciona outra camada difícil de ignorar. Colocar um protagonista americano como centro emocional de uma disputa no Japão inevitavelmente convoca o peso histórico das bombas atômicas, um passado que o filme prefere não encarar diretamente.

Ao buscar uma catarse esportiva universal, a narrativa simplifica tensões políticas profundas. Nesse ponto, a imaturidade deixa de ser apenas psicológica e passa a ser também histórica.

Marty e sua sugar mommy falida
Marty e sua sugar mommy falida

Vale a pena assistir Marty Supreme?

Um filme tão imaturo quanto o protagonista. Talvez o aspecto mais revelador de Marty Supreme seja o quanto ele se parece com Marty. Ambicioso, sedutor, convencido de sua importância, mas emocionalmente incapaz de sustentar as consequências do que propõe.

Quer falar sobre crescimento, mas recua antes do confronto real. Quer discutir responsabilidade, mas se satisfaz com símbolos rápidos. Como seu protagonista, o filme parece acreditar que intensidade é o mesmo que maturidade.

Nota: 2 de 5

No fim, resta a sensação de uma punição sem aprendizado completo. Marty perde a competição, perde o controle e talvez perca a última chance de crescer.

O mais incômodo é perceber que o filme perde junto.

Talvez essa seja a ironia central de Marty Supreme: uma história sobre amadurecimento que nunca deixa de ser adolescente.

E você? Se compadeceu com o personagem?

Até a próxima!