Movies

Review

Oscar 2026: Bugonia e as conspirações da modernidade

, 0Comment Regular Solid icon0Comment iconComment iconComment iconComment icon

Entre sátira, thriller psicológico e ficção científica, Bugonia transforma teorias da conspiração em matéria-prima narrativa. O filme provoca, incomoda e divide opiniões ao brincar perigosamente com paranoia, poder e fé cega. Em meio à corrida do Oscar 2026, o que o filme promete?

Edit Article

Sobre Bugonia

Indicado ao Critics Choice Awards e ao Globo de Ouro dentre outras grande premiações, Bugonia é um dos apontados na corrida do oscar de 2026. Dirigido pelo experiente Yorgos Lanthimos (conhecido pelo popular Poor Things), escrito por Will Trace (roteirista de Succession, The Menu e The Regime), e estrelado por Emma Stone (duas vezes vencedora do Oscar de melhor atriz por La La Land e Poor Things), chegou aos cinemas em novembro de 2025 e segue sendo falado até agora.

Desde a estreia, o filme tem sido bastante controverso e levantando muitos debates do público e da crítica. Não há um consenso sobre muito aqui, mas sabemos que se muito está sendo falado sobre um filme é porque muito temos para conversar.

Sem mais delongas:

Premissa

Bugonia parte de uma premissa tão absurda quanto inquietante: dois jovens mergulhados em teorias da conspiração sequestram a CEO de uma grande corporação por acreditarem que ela é uma alienígena infiltrada na Terra. O que poderia soar como delírio ou sátira rapidamente se transforma em um jogo psicológico sufocante, onde cada gesto da vítima é interpretado como prova de uma ameaça maior.

Mais interessado no funcionamento da paranoia do que em responder se há ou não algo sobrenatural em jogo, o filme acompanha a escalada de poder dentro desse cativeiro improvisado. A lógica dos sequestradores é fechada em si mesma, e quanto mais eles acreditam estar salvando o mundo, mais expõem a fragilidade moral de suas certezas.

Emma Stone
Emma Stone

Conspiração e Loucura

Em Bugonia, a conspiração não surge como exceção, mas como linguagem. Os sequestradores não parecem deslocados do mundo real, eles são produto direto dele. A loucura aqui não é apresentada como algo isolado ou caricatural, mas como uma consequência lógica de um ambiente saturado por desinformação, radicalização online e narrativas que se retroalimentam sem qualquer compromisso com a realidade.

O filme constrói esse delírio de forma claustrofóbica, mostrando como a paranoia cria suas próprias regras, seus próprios códigos morais e, sobretudo, sua própria noção de verdade. Questionar deixa de ser uma possibilidade. Tudo passa a funcionar no modo confirmação. E é nesse ponto que Bugonia deixa de ser apenas estranho ou provocativo e se torna profundamente desconfortável.

Emma Stone e Jesse Plemons
Emma Stone e Jesse Plemons

Temática e Política

Em um momento onde a teoria da conspiração e as fake news andam alinhadas e se tornaram superpotências na internet, é muito importante pensar bastante que discurso se constrói em torno disso. Num universo onde a facilidade da conexão pode te levar para as mais bizarras teorias, somado ao potencial destrutivo de uma fake news, e como isso tem cooptado pessoas inocentes, não tem como não ficar bem alerta com a mensagem final do filme.

Sabemos que o cinema pode ser um lugar de questionamento e tensionamento, mas não podemos deixar de ressaltar que é quase perigoso levantar uma narrativa que protagonize, defenda e dê justificativas para pessoas imersas nesse tipo de delírio. É claro que, aqui, isso é feito como parte de um jogo de humor ácido e sarcástico, mas que não deixa de ser perigoso quanto à mensagem que passa ao público.

Jesse Plemons
Jesse Plemons

Recepção do público e da crítica

Desde sua estreia, Bugonia tem sido recebido de maneira extremamente polarizada. Parte da crítica enxerga o filme como uma sátira afiada sobre o nosso tempo, elogiando a direção segura de Lanthimos, a performance de Emma Stone e a coragem de lidar com temas tão espinhosos sem oferecer respostas fáceis. Para esse grupo, o desconforto faz parte da experiência.

Por outro lado, uma parcela significativa do público e da crítica vê problemas na forma como o filme flerta com narrativas conspiratórias, mesmo que sob uma camada de ironia. Há quem considere que Bugonia caminha numa linha perigosa, onde a crítica pode ser interpretada como validação, especialmente em um contexto social já tão fragilizado por desinformação. O consenso pode não existir, mas o impacto é inegável.

Emma Stone e Yorgos Lanthimos
Emma Stone e Yorgos Lanthimos

Conclusão

Bugonia é um filme que se recusa a ser confortável. Ele provoca, divide, irrita e instiga debates que extrapolam a tela. Seu maior mérito talvez esteja justamente aí: expor o quanto estamos cercados por discursos delirantes que se disfarçam de verdade absoluta, e o quão fácil é transformar medo em poder.

Ao mesmo tempo, é impossível ignorar os riscos dessa abordagem. Em um mundo onde teorias da conspiração já causam danos reais, brincar com esse imaginário exige responsabilidade.

Bugonia pode até não oferecer respostas, mas deixa uma inquietação persistente: quando a loucura deixa de ser exceção e passa a ser método, quem realmente está no controle?

E você? O que achou do filme? Conta para a gente nos comentários!

Até a próxima!