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Análise dos vencedores do Oscar 2026: Melhor roteiro e melhor roteiro adaptado?

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O Oscar 2026 elegeu dois vencedores de roteiro que mal poderiam ser mais diferentes. Sinners, de Ryan Coogler, é original e corajoso. One Battle After Another, de Paul Thomas Anderson, brilhante na adaptação, mas generoso demais consigo mesmo. Juntos, eles dizem tudo sobre o cinema americano.

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Sobre o Oscar e o cinema americano

No último domingo, 15 de março de 2026, o Dolby Theatre recebeu pela segunda vez consecutiva Conan O'Brien como apresentador da cerimônia mais longa, mais cara e mais assistida do entretenimento mundial que não envolva uma bola. A 98ª edição do Oscar reuniu pouco menos de 17,9 milhões de espectadores na ABC e no Hulu, queda de 9% em relação ao ano anterior, o que significa, claro, que o mundo está acabando. Ou que as pessoas descobriram que dá para assistir os melhores discursos no TikTok às 23h sem precisar encarar três horas de passarela.

No que diz respeito aos filmes, a noite foi de Warner Bros. contra Warner Bros. Sinners, de Ryan Coogler, entrou com um recorde histórico de 16 indicações e saiu com 4 estatuetas, incluindo Melhor Ator para Michael B. Jordan e Melhor Roteiro Original para o próprio Coogler. One Battle After Another, de Paul Thomas Anderson, levou Melhor Filme, Melhor Diretor, Melhor Roteiro Adaptado e mais três, consolidando PTA como o grande vencedor da noite após 14 indicações sem nenhuma vitória ao longo de décadas.

É sobre esses dois roteiros que vamos falar. Porque, quando se analisa o que está escrito na página, antes das câmeras, do IMAX e do elenco de peso, o que se encontra é um retrato bastante honesto de onde está o cinema americano hoje.

Conan O'Brien prometeu ser apresentador vitalício. O YouTube vai cobrar uma taxa por isso
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Sinners: quando Hollywood ainda sabe o que está fazendo?

Um roteiro sem papel pequeno

Sinners se passa em 1932, no Delta do Mississippi, durante o Jim Crow. Os gêmeos Smoke e Stack (Michael B. Jordan em papel duplo) voltam à cidade natal após anos trabalhando para Al Capone em Chicago. Querem abrir um juke joint. Querem recomeçar. O que eles conseguem é uma noite de blues, dança e vampiros com agenda colonialista.

O que chama atenção no roteiro de Coogler antes de qualquer outra coisa é a ausência de personagens decorativos. Não existe coadjuvante que está ali apenas para empurrar o protagonista. Delta Slim tem história. Annie tem história. O próprio Remmick, o vampiro irlandês interpretado por Jack O'Connell, tem motivação suficiente para que seus argumentos soem, por um segundo perturbador, quase razoáveis. Cada personagem secundário respira por conta própria porque o roteiro os trata como pessoas, não como funções narrativas.

Esse cuidado distribucional tem consequência direta no ritmo. Porque quando qualquer personagem entra em cena, o público já investiu nele. O perigo não é abstrato. A perda não é decorativa.

Michael B. Jordan em dose dupla, porque um já não era suficiente para o roteiro aguentar
Michael B. Jordan em dose dupla, porque um já não era suficiente para o roteiro aguentar

A música como ferramenta narrativa

Coogler disse, em entrevistas, que queria fazer um filme que reagisse contra o conceito de gênero. E é exatamente o que o roteiro faz, sem pedir licença, na cena mais comentada de Sinners: quando Sammie começa a tocar blues e a música literalmente rasga o tempo.

O que acontece ali é estruturalmente ousado. A narrativa para. A lógica linear do thriller é suspensa. E, durante minutos, o roteiro entrega uma sequência que é, simultaneamente, uma performance, uma metáfora, um argumento histórico e um ato espiritual. O blues pulsa pelo chão. Pessoas de gerações diferentes surgem no mesmo espaço. A música age como portal entre mortos e vivos, entre passado e futuro, entre aquilo que foi roubado e aquilo que resiste.

Isso não é adorno. É o coração temático do filme colocado em forma cinematográfica. O roteiro não explica a metáfora, ele a performa. E ao fazer isso, Coogler demonstra algo que muitos roteiros de blockbuster têm medo de fazer: confiar que o público aguenta uma cena que não avança o plot. Que às vezes a história respira. Que delírio e experimentação cabem dentro do clássico.

Sammie tocando blues enquanto o roteiro derruba as paredes do tempo
Sammie tocando blues enquanto o roteiro derruba as paredes do tempo

O bem e o mal sem manual

Sinners não é um filme de heróis. Smoke e Stack voltaram do front e depois trabalharam para gângsters. Fizeram coisas que o roteiro não absolve. O próprio título é uma confissão.

O que o roteiro faz com inteligência é estabelecer a dicotomia bem e mal como ponto de partida para, em seguida, subvertê-la. Os vampiros prometem igualdade: na mordida, ninguém é mais oprimido do que ninguém. É uma oferta com lógica interna. E o fato de que Remmick usa uma canção irlandesa como arma de sedução, colocando a música colonizadora em oposição ao blues, revela uma camada do roteiro que vai muito além do horror de gênero.

A metáfora não é sutil porque não precisa ser. Vampiros que sugam e transformam aquilo que era significativo para uma comunidade, que absorvem a cultura enquanto esvaziam seu sentido original, não exigem decodificação acadêmica. Eles funcionam como horror visceral e como argumento político simultaneamente, e o roteiro tem competência para sustentar os dois.

Ryan Coogler venceu o Oscar de Melhor Roteiro Original. Era o prêmio certo para o filme certo. O segundo roteirista negro a vencer na categoria, depois de Jordan Peele. Não é dado. É ganho.

Remmick chegando com proposta de igualdade que ninguém pediu
Remmick chegando com proposta de igualdade que ninguém pediu

One Battle After Another: revolução com estereótipos de brinde

O que funciona

One Battle After Another acompanha Bob Ferguson (Leonardo DiCaprio), ex-revolucionário que vive fora do sistema criando a filha adolescente Willa (Chase Infiniti). O passado retorna quando o Coronel Lockjaw (Sean Penn), um militar corrupto de outrora, reaparece no horizonte no exato momento em que Willa some. O que se segue é uma perseguição de 161 minutos que mistura thriller de ação, comédia de erros e comentários políticos equivocados. Sim, é quase uma cópia de Procurando Nemo.

Os primeiros trinta minutos do filme funcionam quase como um prólogo expandido: um prefácio narrativo que estabelece o tom, o humor e a cosmologia do universo antes que a trama propriamente dita comece. É uma escolha estrutural corajosa e ela funciona porque PTA já ganhou o direito de fazer o público esperar. DiCaprio está convincentemente desgastado. Sean Penn está malevolente com uma nesga de vulnerabilidade que transforma Lockjaw em algo mais do que vilão de cartaz. Benicio del Toro rouba cenas com a naturalidade de quem nem está tentando.

O ritmo, quando o filme finalmente arranca, é preciso. As viradas da trama têm peso. O roteiro sabe construir tensão sem depender apenas da ação física e os diálogos carregam a ironia afiada que é marca registrada de PTA em seu melhor estado.

DiCaprio bezerro revolucionário encarando o próprio passado com cara de quem não leu as notas de rodapé
DiCaprio bezerro revolucionário encarando o próprio passado com cara de quem não leu as notas de rodapé

O problema com a revolução

Aqui mora a tensão.

One Battle After Another é, na tese, um filme sobre resistência, sobre o que sobra de uma geração que acreditou em algo e viu esse algo ser devorado pelo tempo e pela capitulação. É um filme que deveria ter raiva. E, em muitos momentos, tem.

Mas o roteiro tropeça com alguma frequência em estereótipos que parecem menos escolhas deliberadas e mais descuidos. Personagens femininas que existem principalmente para mover a agência dos homens ao redor delas. Representações que beiram a caricatura em momentos onde o texto pedia complexidade. Uma certa facilidade com a qual algumas figuras da revolução são tratadas com ironia a ponto de soar como condescendência. O resultado é que, em alguns momentos, o filme parece rir da causa que anuncia defender.

É um tropeço que não derruba o filme, mas o enfraquece. E dado que o argumento central de One Battle After Another é precisamente sobre o legado que uma geração deixa para a seguinte, esses deslizes importam mais do que importariam em outro contexto.

Sean Penn como Lockjaw: vilão com camadas, o que é sempre mais aterrador que vilão sem nenhuma
Sean Penn como Lockjaw: vilão com camadas, o que é sempre mais aterrador que vilão sem nenhuma

PTA e Pynchon: a façanha da adaptação

Thomas Pynchon tem 88 anos e um arquivo de obras que servem como litígio. Suas narrativas são densas, digressivas, cheias de ninjas, conspirações, fantasmas e personagens com nomes que parecem saídos de sonhos febris. Vineland, de 1990, o livro que serve de base para One Battle After Another, é considerado pela academia o Pynchon mais acessível, o que, na escala Pynchon, é como dizer que, dos furacões, é o que destruiu menos.

PTA carrega esse amor há décadas. Em 2014, adaptou Inherent Vice, outro Pynchon, com uma fidelidade quase devocional ao espírito do texto. One Battle After Another é diferente: é uma adaptação mais livre, que transforma o material em algo mais próximo de um thriller de ação cinematograficamente viável para o grande público.

O que PTA consegue, e que é genuinamente difícil, é preservar a textura política e o humor corrosivo de Pynchon enquanto traduz sua arquitetura narrativa para uma linguagem que o cinema consegue sustentar. Onde o romance divaga e se perde deliberadamente, o roteiro precisa escolher. Cada escolha revela uma compreensão profunda do que importa no material original.

Vineland, 1990, o livro mais acessível de Pynchon, o que é um elogio relativo
Vineland, 1990, o livro mais acessível de Pynchon, o que é um elogio relativo

O que esses dois roteiros dizem sobre Hollywood

A 98ª cerimônia do Oscar premiou dois roteiros que funcionam, cada um à sua maneira, como sintoma cultural.

Sinners representa algo que Hollywood raramente tem coragem de fazer com dinheiro de estúdio: original, enraizado em história negra americana, estruturalmente ousado, com música como argumento e sem protagonista impecável. Um blockbuster que não se comporta como blockbuster. Que confia no público. Que vence o Oscar em uma categoria que costuma premiar pastel de vento(Saboroso, mas sem conteúdo).

One Battle After Another representa outra coisa igualmente real: a capacidade do cinema americano de domar material literariamente inacessível, de transformar Pynchon em película, de contratar o maior estúdio do mundo e sair com algo que ainda tem arestas e opiniões.

Juntos, eles pintam um retrato ambivalente. O roteiro americano, em 2026, talvez ainda tenha coisas a dizer. A questão é quantos Coogler e quantos PTA o sistema consegue sustentar antes de voltar para sequências, universos expandidos e franquias que nunca terminam. Por ora, a resposta é: pelo menos um. O que já é mais do que zero.

E você? Qual dos dois roteiros achou mais merecedor? Sinners deveria ter levado mais estatuetas ou One Battle After Another era o favorito certo?

Até a próxima!