O início de Sirat
Sirat começa bem. Melhor do que bem. O universo construído por Oliver Laxe nos primeiros minutos é denso, vivo e cheio de textura, o tipo de cinema que te agarra pela gola antes que você perceba que está sendo agarrado. A fotografia em Super 16mm tem uma granulação que parece sujeira real, calor real, perigo real. O desenho de som é absurdo no melhor sentido: você ouve o deserto como se estivesse dentro dele.
Mas nem tudo é um mar de rosas; longe disso, o filme constrói com maestria um grande início, mas opta por “explodir” demais as coisas.
Trailer Oficial
Enredo de Sirat
O filme acompanha um pai e seu filho numa busca desesperada pela filha e irmã desaparecida há cinco meses no Marrocos. A procura os leva a uma festa eletrônica no deserto onde, dizem, ela pode estar. Lá, eles cruzam com uma trupe improvável: corpos queer, pessoas com deficiência, cabelos coloridos, expressões exageradas, toda uma constelação de dissidência reunida numa celebração no meio do nada.
O encontro poderia ter sido tenso. Acaba sendo uma aliança. Quando o exército marroquino chega para encerrar a festa alegando proteger o povo europeu, os dois grupos fogem juntos da fila de revista e descobrem que compartilham o mesmo destino: existe uma outra festa, mais funda no deserto, e a filha desaparecida pode estar lá.

O que se forma daí não é exatamente uma família de sangue, mas é uma família. Pai, filho, festeiros dissidentes, todos atravessando juntos um deserto que o rádio já anunciou como palco da Terceira Guerra Mundial. As diferenças ficam de lado. O que une é simples e urgente: chegar lá. Sobreviver. Encontrar quem se perdeu.
E é aqui, nessa construção, que Sirat mostra do que é capaz. A aproximação entre os grupos acontece de forma orgânica, sem forçar lição de moral, sem discurso. O filme deixa o afeto surgir naturalmente do perigo compartilhado, e por um bom tempo isso funciona com uma delicadeza que surpreende.
A partir daqui, o artigo entra em território de spoilers. Se você ainda não viu Sirat e quer chegar sem saber o que acontece, salve esse texto para depois.

Quando soltamos o freio de mão
O filme reforça algumas vezes, com falas e cartelas, que o deserto é o lugar mais perigoso onde se poderia estar. Os primeiros desafios já demonstram que os festeiros estão preparados para a aventura, o pai e o filho, não tanto. A criança em questão parece ter pulado a aula sobre "como sobreviver num deserto em colapso geopolítico" e o filme cobra isso com uma brutalidade que pega o espectador completamente desprevenido.
A morte do filho é o divisor de águas do filme, e deveria ser. É o tipo de perda que reorienta tudo, que faz a câmera, os personagens e o próprio espectador precisarem respirar diferente. Em tese, é aqui que Sirat poderia aprofundar o que estava construindo: o que resta da ideia de atravessar qualquer deserto pela família quando a família começa a desaparecer?
É uma pergunta boa. É uma pergunta que o filme decide não responder. Em vez disso, Sirat resolve que o luto é menos interessante do que um campo minado. E aí começa o problema.

Caos não é argumento
Existe uma defesa legítima para o que Laxe faz no terceiro ato. Parte do público que saiu satisfeito do cinema fala em radicalidade, em desprendimento narrativo, num cinema que recusa a lógica de causa e efeito porque a guerra também recusa. O argumento existe e não é idiota.
Mas existe uma diferença entre caos intencional, aquele que tem propósito e desestabiliza para dizer algo, e caos que é abandono com roupagem de ousadia. Quando os personagens aparecem num campo minado sem nenhuma preparação narrativa, quando a maior parte deles morre num acúmulo de desgraças que parece gerado aleatoriamente, e quando um trem surge do nada para salvar quem sobrou, o filme não está sendo radical. Está sendo omisso.
O trem merece menção especial. Nunca foi mencionado. Nunca foi preparado. Aparece como solução para um problema que o próprio roteiro criou, e isso tem nome: deus ex machina. É o recurso de quem ficou sem saída e decidiu torcer para o público não perceber.
O resultado é que o terceiro ato transforma o filme numa espécie de "salve-se quem puder" narrativo, o que é uma mensagem curiosamente cruel para uma história que passou dois atos inteiros construindo o valor do coletivo, da travessia compartilhada, do afeto que surge no meio do perigo.

Vale a pena assistir Sirat?
A sensação que resta é de um filme incompleto. Não no sentido de que faltaram cenas, mas no sentido de que faltou coragem para terminar o que começou. Sirat tem os elementos de uma obra poderosa: direção com personalidade, técnica impecável, uma proposta emocional e política que funciona enquanto o roteiro a sustenta. O problema é que, em algum ponto do terceiro ato, o roteiro largou o volante.
Fica o desenho de som. Fica a fotografia. Fica a sensação de ter visto algo que poderia ter sido muito bom, e que escolheu ser apenas… barulhento.
E aqui peço licença ao júri de Cannes, porque claramente faltou uma nota de rodapé para acompanhar essa palma de ouro.
Nota: 2 de 5
E você, conseguiu atravessar o terceiro ato sem querer pedir reembolso emocional?
Achou o campo minado genial ou também ficou esperando uma explicação que nunca veio? Conte nos comentários!
Até a próxima!











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