7 Diretoras Mulheres que Você Precisa Conhecer
Existe uma narrativa muito conveniente de que as mulheres chegaram tarde ao cinema. Que elas vieram depois, que precisaram lutar para entrar, que a história sempre foi masculina por natureza.
É uma mentira confortável. Agnes Varda estava filmando na mesma época que Godard. Lizzie Borden fazia ficção científica política nos anos 80 com quarenta mil dólares enquanto Hollywood gastava fortunas em blockbusters sem nada a dizer. O apagamento não é uma consequência natural da história. É uma escolha. Esta lista não é sobre representação. É sobre qualidade, sobre o que você provavelmente não viu, e sobre o que você perdeu.
Nenhum spoiler relevante neste artigo, mas prepare-se para sair daqui com uma fila de filmes que vai custar noites de sono.
Agnès Varda: A que inventou antes de todo mundo

Antes de falar de Varda, é necessário desfazer um mito: ela não é a avó da Nouvelle Vague. Ela é, no mínimo, a mãe, e parte do meio acadêmico teria sérios problemas em aceitar esse crédito. Seu primeiro longa, La Pointe Courte, saiu em 1954, dois anos antes de Godard e Truffaut terem seus primeiros curtas. Ela não seguiu um movimento. Ela antecipou um.
O que torna a filmografia de Varda quase impecável é a sua recusa em se fixar em uma forma. Ela transitou pelo ficcional, pelo documental e pelo autobiográfico com uma coerência de olhar que poucos cineastas de qualquer gênero conseguiram manter. Cléo from 5 to 7 (1962) é um exercício de tempo real e ansiedade feminina que ainda hoje parece moderno. Vagabond (1985) ganhou o Leão de Ouro em Veneza com uma protagonista que o cinema nunca saberia criar: uma mulher que não quer ser salva.
Nos últimos anos de vida, já com mais de oitenta anos, Varda ainda encontrou fôlego para inventar. Faces Places (2017), co-dirigido com o artista JR, é um dos documentários mais ternos e politicamente conscientes da última década. Ela morreu em 2019 com uma filmografia que desafia qualquer tentativa de definição simples. Por onde começar: Cléo from 5 to 7.
Lynne Ramsay: A que filma o trauma sem domesticá-lo

Lynne Ramsay é o tipo de cineasta que Hollywood tenta engolir e cospe de volta. Ela chegou a ser contratada para dirigir Jane Got a Gun em 2013 e simplesmente não apareceu no primeiro dia de filmagem. Não há consenso sobre o que aconteceu. O que há é um filme que saiu sem ela e que ninguém se lembra, e uma carreira que seguiu intacta no circuito que importa.
O cinema de Ramsay não oferece conforto. Ratcatcher (1999), sua estreia, se passa em Glasgow durante uma greve de lixeiros e segue um menino com culpa demais para a idade que tem. We Need to Talk About Kevin (2011) é adaptação do romance de Lionel Shriver e funciona como um estudo de culpa materna que se recusa a oferecer absolvição ou julgamento. Tilda Swinton carrega o filme com uma interpretação que deveria ter rendido Oscar e não rendeu. You Were Never Really Here (2017) ganhou melhor roteiro em Cannes e é um thriller que usa a violência como consequência, nunca como espetáculo.
O que une a filmografia dela é a forma como o trauma habita o corpo antes de habitar o discurso. Seus personagens não explicam o que sentem. Eles carregam. O espectador vai embora com o peso e precisa descobrir sozinho onde depositar. Por onde começar: We Need to Talk About Kevin.
Lucrecia Martel: A que fala pelo que não mostra

Existe um conjunto de cineastas que faz o cinema falar pelo que recusam mostrar. Lucrecia Martel é a mais radical entre eles. Seu cinema é construído em camadas de som, fora de campo e sugestão, e o que fica fora do enquadramento carrega tanto peso quanto o que está dentro. Em The Headless Woman (2008), a protagonista possivelmente atropela alguém numa estrada e simplesmente decide não saber. A câmera segue essa decisão. Nunca confirma. Nunca nega. O espectador fica preso na mesma ambiguidade moral que a personagem.
A Trilogia de Salta, que inclui La Ciénaga (2001) e The Holy Girl (2004), estabeleceu Martel como uma das vozes mais singulares do cinema latino-americano. Zama (2017), adaptação de um romance do século XIX, levou quase uma década para ser realizado e chegou como uma das obras mais formalmente ousadas da última década. É um filme sobre espera, sobre colonialismo e sobre o colapso de um homem que perdeu até mesmo a capacidade de reconhecer a própria derrota.
O som nos filmes de Martel funciona como um personagem autônomo. Ela desenvolve a trilha sonora antes das imagens durante o processo criativo, o que explica por que o que se ouve em seus filmes parece sempre pertencer a outra camada da realidade. Por onde começar: The Headless Woman.
Céline Sciamma: A que transformou desejo em forma cinematográfica

Os primeiros filmes de Céline Sciamma tem méritos reconhecíveis, mas é com Portrait of a Lady on Fire (2019) que ela encontra exatamente o que buscava. E o que ela buscava, segundo a própria diretora, era construir um cinema do desejo. Não o desejo como tema, mas como linguagem. Como forma de enquadrar, de durar, de editar.
O filme se passa no século XVIII e acompanha uma pintora contratada para retratar secretamente uma jovem que se recusa a posar. O que se desenvolve entre elas é um dos romances mais formalmente construídos do cinema recente. Cada cena acumula desejo com uma precisão quase geométrica. Não há acidente na direção de Sciamma. Cada escolha é intencional, cada silêncio é calculado, e o resultado é um filme que existe inteiro no espaço entre os dois olhares.
É um cinema que confia na inteligência do espectador ao ponto de nunca explicar o que está sendo sentido. Você vê e entende, porque o filme construiu as condições para isso. Por onde começar: Portrait of a Lady on Fire.
Mati Diop: A que faz muito com pouquíssimo

Mati Diop não precisa de pirotecnia. Sua direção opera na camada dos pequenos detalhes: um enquadramento levemente inclinado, um silêncio que dura um segundo a mais do que o confortável, uma luz que não deveria ser bonita, mas é. Atlantique (2019), seu primeiro longa, ganhou o Grand Prix em Cannes e é um dos debuts mais impressionantes da década.
O filme acompanha Ada, uma jovem em Dakar cujo amado parte com outros trabalhadores para atravessar o Atlântico em busca de condições melhores. O que parece inicialmente um drama romântico vai se transformando em algo mais próximo do realismo fantasmagórico, com mortos que retornam para cobrar o que lhes foi recusado em vida. Diop filma o Senegal contemporâneo sem exotismo e sem didatismo. O sobrenatural não é explicado porque não precisa ser.
Como atriz, Diop já aparecia em filmes de Claire Denis, o que explica em parte a maturidade com que estreou na direção. Ela sabe o que a câmera faz com um rosto, e usa esse conhecimento com precisão cirúrgica. Por onde começar: Atlantique.
Lizzie Borden: A que ninguém te contou

Born in Flames (1983) custou quarenta mil dólares, demorou cinco anos para ser filmado e é um dos filmes políticos mais urgentes já realizados. Lizzie Borden imaginou os Estados Unidos dois anos após uma revolução que mudou o país, no entanto, não mudou absolutamente nada para as mulheres. O que se segue é uma ficção científica filmada como documentário, com ativistas reais e atrizes profissionais dividindo o mesmo espaço, questionando o que exatamente foi revolucionado e para quem.
O filme foi ignorado na época, circulou em circuitos underground e quase desapareceu. Voltou com força nos últimos anos porque envelheceu ao contrário: quanto mais o tempo passa, mais atual parece. As perguntas que Borden faz sobre a diferença entre revolução declarada e revolução vivida continuam sem resposta satisfatória.
Borden seguiu com Working Girls (1986), sobre trabalhadoras sexuais em Nova York, filmado com a mesma ética de olhar que recusa o julgamento e insiste na humanidade. É uma filmografia pequena em quantidade e gigante em pertinência. Por onde começar: Born in Flames.
Cheryl Dunye: A que brinca com a linguagem sem perder o político

The Watermelon Woman (1996) é simultaneamente um filme queer, um filme preto, uma brincadeira com a linguagem documental, uma crítica ao apagamento histórico e um dos filmes mais assistidos da lista. Cheryl Dunye interpreta a si mesma, uma videolocadora que descobre uma atriz negra creditada apenas como a “Watermelon Woman” nos filmes dos anos 30 e decide investigar sua história. A pegada: a atriz não existe. Dunye criou documentos, fotos e registros fictícios para contar uma história que deveria ter existido, mas não existe porque o arquivo não guardou essas vidas.
É cinema político que não pesa. Que ri. Que seduz. Que é acessível sem ser simplificado. Dunye constrói uma obra que funciona para quem conhece a teoria do cinema e para quem nunca ouviu falar de cinema direto, o que é uma habilidade raríssima e raramente celebrada como deveria.
Mais recentemente ela tem dirigido episódios de séries, o que explica por que seu nome virou referência no mercado sem que a maioria do público saiba de onde ele veio. Saiba. Por onde começar: The Watermelon Woman.
Conclusão
Essas sete existiram, filmaram, e o cânone virou o rosto. Algumas tiveram reconhecimento tardio. Outras ainda esperam. O que elas têm em comum não é o gênero, não é a estética e não é a origem geográfica. É uma recusa compartilhada de fazer cinema como se fosse uma obrigação burocrática. Cada filme desta lista foi feito por alguém que tinha algo a dizer e encontrou a forma exata para dizer.
A pergunta não é por que elas são boas. A pergunta é por que você ainda não as conhecia.
Qual dessas diretoras você já conhecia? E qual vai ser a primeira que você vai buscar agora? Conta pra gente nos comentários.
Até a próxima!











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