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Oscar 2026: Jay Kelly e o papel mais difícil de todos

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Até onde vai a persona e onde começa o vazio? Jay Kelly usa George Clooney e o cinema de Noah Baumbach para expor personagens que sabem se apresentar, mas não sabem mais existir fora do papel. Um filme sólido, incômodo e surpreendentemente acessível em meio à temporada do Oscar 2026.

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O que funciona em Jay Kelly

Vamos ser honestas desde o começo. Jay Kelly é um filme que poderia dar muito errado. Poderia ser autocentrado, poderia ser pretensioso, poderia ser mais um exercício de egotrip masculina disfarçada de drama existencial sofisticado. Mas, contra todas essas probabilidades, ele funciona. E funciona bem.

Talvez porque o filme saiba exatamente do que está falando. Ou talvez porque Noah Baumbach esteja confortável demais nesse território para errar feio. Ou ainda porque George Clooney finalmente aceitou brincar com a própria imagem pública em vez de só protegê-la. O fato é que Jay Kelly acerta onde muita coisa recente do cinema americano erra: ele entende que atuar é fácil, difícil mesmo é sustentar quem você é quando ninguém está olhando.

Essa frase não aparece como slogan pronto, mas atravessa o filme inteiro. Tudo ali gira em torno de performance. Performance social, emocional, profissional. Pessoas que sabem exatamente o que dizer, como se portar e quando sorrir, mas que parecem completamente perdidas quando o roteiro acaba.

É um filme sobre gente que vive representando e, ironicamente, já não sabe mais onde termina o personagem e começa a persona.

O Sorriso Clooney
O Sorriso Clooney

George Clooney é Jay Kelly e vice-versa

A escolha de George Clooney não é só boa, ela é essencial. E quem finge que isso não importa está mentindo. Clooney não entra em cena como uma folha em branco. Ele carrega décadas de imagem pública, de arquétipo masculino hollywoodiano, de charme ensaiado e de uma aura de controle absoluto. Jay Kelly usa tudo isso a seu favor.

O filme cria uma metalinguagem constante entre o ator e o personagem. A sensação é que estamos o tempo todo assistindo alguém que sabe exatamente como deve parecer, mas não faz ideia de como deveria se sentir. E Clooney entende isso com uma precisão assustadora. Não há grandes explosões emocionais, não há discursos catárticos. O desconforto está no olhar, nos silêncios longos demais, nas respostas que vêm com atraso.

É uma atuação madura, consciente e, acima de tudo, humilde. Clooney não tenta roubar o filme para si. Ele deixa espaço para que o vazio apareça. E isso, para um ator com esse tamanho de imagem, é um gesto raro. Talvez seja justamente por isso que o trabalho dele esteja sendo tão comentado na corrida do Oscar 2026.

Jay Kelly
Jay Kelly

Baumbach sendo Baumbach

Não dá para falar de Jay Kelly sem falar do texto. Noah Baumbach segue sendo um dos diretores mais interessantes quando o assunto é diálogo, mas aqui ele faz algo diferente do que costuma repetir quase como um vício de estilo. O texto ainda é afiado, preciso e profundamente humano, mas é também, curiosamente, o filme em que ele mais segura a mão.

As conversas continuam cheias de pequenos incômodos, silêncios estranhos e desvios emocionais, mas há menos labirinto verbal do que em outros trabalhos. Em Jay Kelly, os personagens ainda falam demais, ainda evitam o centro das questões, ainda tropeçam na própria incapacidade de dizer o que sentem, só que tudo isso vem embalado de forma mais direta, quase mais educada. É Baumbach abrindo mão de parte do caos discursivo para tornar o filme mais palatável, e isso não soa como concessão barata.

O impacto segue vindo do cotidiano, do banal, de uma conversa atravessada ou de uma tentativa frustrada de conexão. A diferença é que aqui o conflito não se esconde tanto atrás da verborragia. Ele aparece mais rápido, mais exposto, mais acessível.

Existe algo quase cruel na forma como Jay Kelly observa seus personagens, mas essa crueldade agora vem menos do excesso e mais da clareza. Não há julgamento explícito, mas também não há condescendência. O filme não pede desculpas por expor vaidades, egoísmos e frustrações, só não faz disso um jogo de resistência para o espectador. Ele confia que o desconforto vai chegar mesmo sem precisar empurrar.

Talvez seja justamente por isso que Jay Kelly soe como o filme mais “amigável” de Baumbach sem deixar de ser incômodo. Ele continua falando sobre pessoas que dizem pouco do que importa, mas, pela primeira vez, parece disposto a deixar que a gente acompanhe isso sem precisar decifrar cada frase como se fosse um teste de resistência emocional.

Eu mencionei que o ADAM SANDLER tá nesse filme?
Eu mencionei que o ADAM SANDLER tá nesse filme?

Sim, isso é mumblecore e isso é um elogio

Vale falar sem medo: Jay Kelly flerta abertamente com o mumblecore, e isso não é um problema. Pelo contrário. O filme abraça as características do gênero com segurança. Ritmo contido, cenas longas, diálogos naturalistas, conflitos pequenos que escondem abismos emocionais.

Aqui não existe urgência narrativa. Nada explode. Nada se resolve de forma limpa. E isso incomoda muita gente. Mas incomodar faz parte da proposta. O filme está mais interessado em acompanhar o desconforto do que em oferecer alívio.

Baumbach usa o mumblecore não como estética vazia, mas como ferramenta. O que está em jogo não são grandes acontecimentos, mas o desgaste emocional de viver sempre performando. O drama está na repetição, na sensação de que os personagens estão presos a versões de si mesmos que já não fazem sentido e talvez a beleza do jogo esteja justamente aí.

Adam Sandler e George Clooney
Adam Sandler e George Clooney

A corrida do Oscar 2026

Não é exagero dizer que Jay Kelly virou um dos títulos mais comentados da temporada. O filme passou por festivais importantes, acumulou indicações da crítica e começou a aparecer com força nas listas de melhores do ano. Isso automaticamente o colocou na conversa sobre o Oscar 2026.

E faz sentido. Sabemos que a Academia adora filmes que falam sobre identidade, crise existencial e envelhecimento, especialmente quando vêm embalados por nomes já consagrados. E tudo isso fica ainda mais forte se tiver uma pitada de saudosismo ao cinema norte-americano.

Clooney aparece como um candidato forte em atuação, justamente por ir na contramão do óbvio. Não há transformação física nem exagero emocional. É tudo contido, interno, desconfortável.

Além disso, o roteiro é um dos grandes destaques do ano. E Baumbach já tem um histórico de reconhecimento nesse campo. Jay Kelly pode não ser aquele filme unanimidade, mas costuma ser exatamente esse tipo de obra que cresce conforme a temporada avança e ganha força pelo boca a boca crítico.

Os verdadeiros prêmios são os amigos que fizemos pelo caminho
Os verdadeiros prêmios são os amigos que fizemos pelo caminho

Não é genial e não precisa ser

Vamos deixar claro. Jay Kelly não é uma obra-prima. Não muda o cinema. Não reinventa a linguagem. E ainda bem. O filme é consciente demais para tentar ser maior do que é.

O que ele entrega é solidez. Um filme bem escrito, bem interpretado, bem dirigido e, acima de tudo, honesto. Um 3,5 estrelas de 5 muito bem sustentado. Daqueles que não te atropelam, mas ficam ali, martelando, voltando em pensamentos dias depois.

Nota: 3.5 de 5

No fim das contas, Jay Kelly acerta porque entende algo simples e raro: viver já é um papel difícil o suficiente. E talvez seja por isso que ele funcione tão bem. Não porque grita, mas porque observa. Não porque explica, mas porque expõe.

E num cinema cada vez mais obcecado por espetáculo, isso é quase um ato de resistência.

E você? Tá preparado para atuar que viu todos os filmes do Oscar no dia do bolão?

Até a próxima!