Análise de Michael: quando a crítica não reflete o apelo público
O filme Michael estreou nos cinemas no dia 23 de abril e, já na estreia, debutou com apenas 27% de aprovação da crítica no site Rotten Tomatoes. Isso deixou muita gente dividida.
Afinal, estamos falando de um dos filmes mais aguardados do ano, por se tratar da cinebiografia de um dos nomes mais icônicos da cultura pop: Michael Jackson (1958–2009). Por outro lado, a aprovação do público ultrapassa os 90%, provando que, independentemente das críticas, o Rei do Pop ainda está nas graças do povo.

Polêmicas envolvendo o filme
Uma das principais razões para a rejeição da crítica é o fato de a cinebiografia assumir um perfil claramente chapa-branca. Em outras palavras, quem está envolvido na produção ameniza, ou simplesmente elimina conflitos, problemas e polêmicas da vida do artista. O exemplo mais evidente é que o filme sequer chega à fase mais sombria, envolvendo as acusações de abuso sexual e pedofilia, encerrando sua narrativa por volta de 1988.
Vale destacar também a supervisão direta da família Jackson, que influenciou significativamente essas decisões. Houve diversas mudanças no roteiro e, posteriormente, na edição final do filme. Além disso, cláusulas extrajudiciais impedem a citação de nomes como o de Jordan Chandler, responsável por uma das acusações mais conhecidas.

Enquanto o longa ainda se preparava para o lançamento, Paris Jackson, filha do cantor, se posicionou publicamente. Ela classificou o filme como “uma fantasia de Hollywood”, apontando diversas inverdades. Chegou a dizer que os fãs provavelmente iriam gostar, mas que aquela não era, de fato, a história de seu pai. Como resultado, decidiu se afastar do projeto e também não compareceu à estreia mundial.
Tributo x Biografia
No fim, Michael assume muito mais o papel de tributo do que de cinebiografia. Soma-se a isso a expectativa comercial de superar o sucesso de Bohemian Rhapsody, já que ambos são produzidos por Graham King. Tudo isso não apenas influencia o resultado final, como praticamente define o tipo de história que será contada: uma versão espetacularizada e cuidadosamente controlada.
O que o filme Michael oferece além do óbvio

Com o corte final pensado como um grande espetáculo da vida de Michael Jackson, foi claramente projetado para fãs e novas gerações. O filme tenta preencher as lacunas do roteiro com momentos pessoais e bastidores de pontos-chave da carreira. Entre eles, o lançamento de Off the Wall, que marca seus primeiros passos em uma trajetória solo, finalmente livre do controle do pai, Joseph Jackson. Também há espaço para grandes apresentações e videoclipes históricos, compondo um pacote que entrega exatamente o que o público espera.
Mas é justamente quando o filme tenta ir além desse espetáculo que ele revela suas escolhas mais convenientes. No campo pessoal, o foco recai quase exclusivamente na relação conturbada com o pai, retratado como o grande vilão de sua história. A cobrança, a rigidez e os abusos durante a infância, especialmente na época do Jackson 5, aparecem através de uma rotina exaustiva de ensaios, compromissos e pressão constante, pesada demais para um menino que, em alguns momentos, só queria ser criança.
Apesar do impacto real dessas experiências, o filme sustenta praticamente todo o seu conflito dramático nesse ponto. E isso é confortável demais. Reduzir tudo a essa relação simplifica a narrativa e, mais conveniente ainda, evita entrar em controvérsias mais delicadas.
O roteiro de John Logan acompanha Michael desde o início com o Jackson 5 até a fase de Bad, em uma linha do tempo eficiente, mas claramente seletiva. O problema não está no que é mostrado, mas no que é deixado de lado. E aqui não parece descuido, parece decisão e realmente foi.
A produção opta por apresentar um Michael profundamente ligado à família, mesmo na fase adulta. Apesar dos conflitos, o filme insiste nessa convivência constante, além de destacar elementos como seus animais exóticos, a ligação com a Disney e o fascínio por Peter Pan. Reforçando a imagem do homem preso à infância que nunca viveu plenamente essa fase da vida e buscava fazer isso após adulto.
Além das polêmicas: o que o filme tem de melhor
Se há algo que o filme acerta, é entender exatamente o que o público quer ver. A produção entrega momentos emblemáticos da carreira, bastidores do pop e uma forte carga de nostalgia embalada por sucessos como Beat It, Thriller e Don’t Stop ’Til You Get Enough. É um filme que sabe onde tocar e toca sem hesitar.
A história começa na infância, em Gary, Indiana, acompanhando o surgimento do Jackson 5. E aqui surge uma das surpresas: Juliano Krue Valdi, que interpreta Michael criança. Descoberto após viralizar fazendo covers nas ruas de Las Vegas, ele entrega uma presença autêntica e convincente.
Essa fase é, sem dúvida, a mais pesada. A exploração paterna, as agressões e a pressão constante são mostradas de forma direta. Um menino que queria brincar, mas precisava ensaiar. Ser criança nunca foi uma opção. Desde cedo, Michael carrega o peso do próprio talento e o fardo de sustentar a família.
Mas o grande destaque tem nome: Jaafar Jackson. Sobrinho de Michael, ele assume o papel principal já na fase adulta com uma responsabilidade enorme e entrega. Mesmo sem experiência como ator, sua preparação é evidente. Na voz, nos gestos, na postura, há momentos em que a semelhança impressiona. A caracterização ajuda, mas não sustenta tudo sozinha. É na performance que Jaafar convence: ele dança, interpreta e ainda se arrisca musicalmente, sem cair na caricatura.

Outro nome que merece destaque é Colman Domingo como Joseph Jackson. Sua atuação captura não apenas a figura autoritária, mas também a obsessão por controle e sucesso. É um retrato duro, incômodo e necessário.
O elenco de apoio também funciona bem. Nia Long, como Katherine Jackson, traz equilíbrio emocional à narrativa. Miles Teller, como John Branca, representa a virada profissional do artista. Já Keilyn Durrel Jones, como Bill Bray, assume uma presença quase paternal, reforçando os poucos vínculos afetivos de Michael.
No geral, o filme oferece vislumbres da intimidade do artista, ainda que superficiais. Para fãs, é um prato cheio. Para quem conhece pouco, funciona como introdução, ainda que bastante filtrada.
Quem está com a razão: crítica ou público?
Os problemas do filme são evidentes e não surgem por acaso. Com tantas alterações, refilmagens e interferências, o resultado final carrega marcas claras de um projeto que mudou de direção várias vezes. Há relatos de que uma versão inicial avançava até os anos 90, justamente o período mais controverso da vida de Michael. Mas isso foi descartado.
Questões legais e a influência direta da família levaram a cortes significativos e ao adiamento do lançamento, que originalmente aconteceria em 2025. O resultado é um filme que divide opiniões.
De um lado, críticos apontam um roteiro apressado, superficial e, em alguns momentos, desconexo, com saltos narrativos que fazem a trajetória parecer mais simples do que realmente foi. Do outro lado, o público, majoritariamente fã, se conecta com a imagem apresentada: um Michael sensível, talentoso, gentil e incompreendido.

E é aí que está o ponto central: o filme não quer questionar e sim preservar. E, ao fazer isso, entrega exatamente o que muita gente quer ver. Pode até ser mais um tributo do que uma cinebiografia de fato. Mas é um tributo bem executado. Longe de caricaturas ou imitações forçadas, o filme consegue criar uma experiência que, para muitos, chega perto do que seria assistir Michael Jackson ao vivo.
Digo mais: vale a pena assistir no cinema. Porque, acima de tudo, Michael é espetáculo e espetacular foi exatamente o que ele sempre soube ser.
Nota: 4/5











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