Sobre Criaturas Extraordinariamente Brilhantes
Estreando com altas notas na crítica e no público do Rotten Tomatoes, o novo original da Netflix é o terceiro longa da diretora Olivia Newman. Saindo de tramas mais elaboradas e cheias de grandes ações, a diretora vai para um longa mais calmo, com uma trama mais simples e focado no desenvolvimento de 3 personagens, entre eles, um polvo-gigante-do-Pacífico.
Baseado em um best-seller homônimo, o roteiro é assinado pela própria diretora em parceria com John Whittington (experiente roteirista de filmes infantis como Sonic e Lego: Batman; mas não é um filme infantil, apesar de se portar como um em vários momentos). O filme é protagonizado por Sally Field, Lewis Pullman e pela voz de Alfred Molina, que interpreta o polvo-gigante-do-Pacífico.
Toda a história gira em torno do encontro dos personagens, e honestamente, não soa convincente em nenhum momento, mas chegaremos lá!
Essa é uma análise SEM spoilers relevantes. Pode mergulhar sem peso na consciência.

A trama do Filme
O enredo do filme começa em Tova (personagem de Sally Field), uma senhora mais velha, viúva, que trabalha num aquário local. A senhorinha está se preparando para mudar para um lar de idosos e deixar tudo para trás, mas seu mais próximo amigo, com quem troca confissões e parceria é o polvo Marcellus, um dos moradores do aquário. Marcellus tem raciocínio humano e uma voz dublada por um ator, Alfred Molina, que, ao longo da trama, vai guiando a narrativa no ponto de vista do polvo, grande agente de todo o drama.
Já Cameron (personagem de Lewis Pullman) vai para a cidade buscando encontrar seu pai ausente, alguém que nunca esteve presente em sua vida, nunca se interessou em conhecer o filho e que, na cabeça do jovem, faz todo sentido que vai lhe pagar 19 anos de pensão alimentícia atrasada.
O encontro dos dois acontece quando Cameron tem problemas em encontrar o pai, sua van/casa quebra e ele precisa arrumar um emprego temporário para pagar pelo concerto da van. Emprego que coincidentemente é justamente onde Tova trabalha. A relação dos dois se constrói a partir dos encontros que os dois passam a ter no trabalho e os ensinamentos que Tova dá ao jovem, que teoricamente está lá para lhe substituir, agora que a mulher vai vender sua casa e se mudar para um lar de repouso.

O Desenrolar do Tema
Sobre o que esse filme é, está muito claro. Dois personagens quebrados pelos seus passados, que vão encontrar cura um no outro. Já vimos isso centenas de vezes. O que há de original aqui é a presença do polvo, que de todos os animais possíveis é um dos mais improváveis para estar num pseudo filme de animal.
Infelizmente isso não sustenta o filme direito, pois o roteiro a começar do enredo até a última cena é inteiramente composto das mais chocantes e mirabolantes coincidências. Estrutura narrativa? Nunca ouvi falar! Aqui é 200% feels good feelings guiando a trama. Até os mais bobos acontecimentos que nem são necessários para contar a história do filme e só compõem o universo ou personagens coadjuvantes, também são irritantemente compostos apenas de coincidências.
A impressão que fica é que o filme te trata com inocência, ou pior que isso, que ele está convencido de que, se o polvo for carismático o suficiente, nada vai importar porque as pessoas vão amar o filme mesmo assim. (E parece que funciona mesmo!)

Pontos fortes do filme
A direção do filme tem seus méritos! Não há nada de extraordinário a se marcar, mas o filme consegue transmitir bem suas cenas com uma direção de demasiada simplicidade. E às vezes isso é tudo que um filme desse tipo precisa de sua direção. Misturar CGI com imagens live action é sempre um perigo de construir coisas esquisitas e cair em fenômenos como o vale da estranheza, onde tudo soa esquisito. Aqui, o filme passa longe disso e o CGI do polvo ficou ótimo e convincente!
A direção de arte do filme é brilhantemente minuciosa. Cada cenário, seja casa, carro ou o aquário, ao ar livre ou ambiente fechado, consegue traduzir muito bem uma estética comum e um diálogo com os personagens que representa. Isso é difícil de construir, mas o filme faz com excelência.
O polvo é o maior e mais relevante ponto forte da trama. O produtor que escalou esse polvo sem dúvidas merece um prêmio de produção de elenco.
Brincadeiras à parte, toda a construção de CGI do animal, suas cenas POV e até toda a direção de arte em torno do animal só reforçam e fortalecem sua presença e importância no filme. Os monólogos de Marcellus são as melhores coisas que o roteiro constrói, e mesmo quando ele está reafirmando pela décima vez uma informação que eu já sei, eu ainda estou interessada em ouvi-lo.

Conclusões
O filme é uma espécie de comédia romântica, mas sem comédia e sem romance. É uma espécie de filme de animal, mas o animal não é o protagonista. É uma espécie de filme de autoajuda, mas que não ensina a mudar nada, só deixar o destino intervir por você. No final das contas a sensação que fica é que o filme tenta ser muito e não consegue ser nada com excelência.
É importante reforçar que o principal problema é advindo da trama; o roteiro do filme não colabora com a construção de nenhuma ideia para além da boba sensação de feels good, que honestamente é super importante, mas que aqui fica esvaziada em não ter absolutamente nada para dizer.
Esse é o tipo de filme que algum familiar seu vai comentar na mesa de almoço do domingo e vai dizer que é o filme favorito dele, não pela qualidade do filme, mas porque é muito bonitinho e o Polvo cativou muito. E o pior de tudo é que o bichinho é carismático mesmo!
Nota: 2 de 5
[Adendo que ganhou um ponto extra EXCLUSIVAMENTE pelo carisma do polvo]
E você? Também terminou o filme com vontade de ir a um aquário para ver se tem um polvo disponível para resolver sua vida?
Até a próxima!











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