Sobre Se Esse Amor Desaparecesse Hoje
Se Esse Amor Desaparecesse Hoje, conhecido internacionalmente pelo título Even If This Love Disappears From the World Tonight, é um daqueles filmes lentos com toques de drama. Lançado em 2025 na Coreia do Sul e dirigido por Kim Hye-young, o filme adapta o romance japonês de Misaki Ichijo e chega globalmente através da Netflix.

Estrelado por Choo Young-woo e Shin Si-ah nos papéis principais, a história acompanha Han Seo-yun, uma estudante que sofre de amnésia anterógrada: ao dormir, perde as memórias do dia anterior e precisa reconstruir sua vida diariamente através de anotações e registros. Esse foi o resultado de um acidente de carro sofrido (que o filme apenas menciona).
Sua rotina muda quando, de modo inesperado, inicia um relacionamento com Kim Jae-won, um jovem aparentemente comum que, aos poucos, passa a reorganizar a própria vida ao redor dela. O romance nasce sob uma condição: amar alguém que precisa reaprender a amar todos os dias. O filme segue uma linha tênue e não cai para o melodrama ou tensão constante; pelo contrário, ele sugere que o amor pode sobreviver mesmo quando a memória falha.
A recepção crítica internacional reconhece essa delicadeza como ponto forte da obra. Muitos críticos destacaram a recusa em transformar a tragédia em espetáculo, preferindo um ritmo lento, centrado em pequenos gestos e na rotina compartilhada dos personagens. Ao mesmo tempo, há quem reclame da previsibilidade do roteiro, já que a narrativa segue caminhos conhecidos do melodrama romântico, o que pode afastar espectadores que buscam algo novo ou narrativa mais ousada.

Se Esse Amor Desaparecesse Hoje ocupa um lugar curioso: a ideia de que o amor não precisa durar para ser significativo. A obra transforma o esquecimento em linguagem narrativa e pergunta, de maneira discreta, se amar ainda vale a pena quando sabemos que tudo pode desaparecer.
Quando Alguém Realmente Morre
No filme Viva - A Vida é uma Festa (ou Coco), do estúdio Pixar/Disney, essa ideia foi muito bem trabalhada: as pessoas "continuam vivas" quando nos lembramos delas.
Aqui, nesse filme, o final reafirma essa premissa, mas durante todos os dois primeiros atos só nos vemos envolvidos pela dificuldade de Han Seo-yun em reter memória, em sofrer por saber que, ao acordar, não vai se lembrar do garoto que gosta, nem dos bons momentos com ele e os amigos.

Somos obrigados a pensar: como ela vai amadurecer, estudar, se formar... se não consegue reter informações? Afinal... somos o que vivemos, uma mistura de genética e experiências durante toda a nossa jornada sobre a terra.
Assim, quando a lente se desloca para Kim Jae-won, é de um modo sutil, mas não discreto.
Nós vemos a preocupação que ele tem pelo pai, que em sua viuvez ainda continua fechado, sem criar novos elos. De início, pode parecer apenas uma preocupação do filho, mas a obra vai lançando pistas que, em dado momento, deixa claro o verdadeiro motivo da ansiedade do jovem.
Aqui, se o diretor tivesse optado por uma revelação subentendida, mais sutil, a reviravolta no terceiro ato seria mais impactante, ainda que igualmente triste.

Apesar disso, o plot twist se mantém singular porque nos leva a pensar a respeito da relação da lembrança com as pessoas que amamos continuarem "vivas" em nós, quando se vão. Porque, na falta de sua presença física, o que nos resta é a memória e, quando se apagam... essas pessoas desaparecem com ela.
Um Amor Inesquecível?
O casal principal é simpático, com certeza te fará torcer para que o problema de Han Seo-yun não seja uma barreira, algo que Kim Jae-won tem a boa vontade de compreender, aprender e, com paciência, se adaptar à rotina dela; dando espaço para que ela se acostume, diariamente, com a relação.
Ele, ao lado de amigos, mantém segredo sobre o quadro clínico da garota. Aliás, um ponto importante é quando a amiga de Han explica um dos motivos do segredo: os perigos que uma mulher pode passar quando a sociedade sabe que ela se esquecerá de tudo que lhe fizeram quando dormir. Ou seja, no dia seguinte, ela não se lembrará de qualquer maldade, qualquer abuso.

Esse detalhe não foi abordado em outras obras; embora aqui seja muito sutil e não se fixem nele, achei interessante pontuarem.
Para mim, no entanto, o maior mérito do filme é justamente colocar em xeque a questão de amor x lembrança.
Quando alguém tão ordinário no mundo se vai, sem deixar nem mesmo descendentes, o que sobra é o modo como ele marcou aqueles à sua volta... Mas e se quem deveria manter sua memória viva é justamente aquele que não pode reter essa informação?
Será que o amor é como uma memória muscular que não se desfragmenta por completo? Ou será o amor algo ainda maior que nem mesmo o esquecimento é capaz de apagar?

Filmes como Coco, já mencionado, Como Se Fosse a Primeira Vez e The Vow (Para Sempre), esse terceiro inspirado em uma história real, aliás, já nos contou que sim, o amor é uma força que rompe até mesmo esse tipo de apagão.
Mas será que existem tantos casos felizes para nos fazer realmente acreditar nisso?
Vale a pena assistir Se Esse Amor Desaparecesse Hoje?
Vale se você quiser chorar e receber um final coerente, mas não cem por cento feliz.
Mas como o filme já prepara o espectador para o que está por vir, não será um choque; porém, saiba que é esse tipo de desfecho. Embora a trama, até o terceiro ato, corra como um romance clássico e até leve, apesar do problema de Han, que tenta ter uma visão positiva do mundo, não espere um happy ending total.
Nota: 3.9/5.
E aí, você acredita que o amor pode sobreviver apesar do esquecimento?












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