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Análise de Project Hail Mary: Um respiro para o gênero

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Na imensidão estelar da ficção científica americana de espetáculo, Project Hail Mary chega com a aposta mais ingênua e necessária do gênero: O destino da galáxia inteira na mão de um pequeno rochedo alienígena e um homem. O que eles descobrem nesse processo pode até soar bobo, mas tem coração!

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Ficções científicas e Project Hail Mary

A ficção científica estadunidense passou a última década num ciclo infeliz: universos expandidos que não expandem nada, distopias que servem de fundo para lições de marketing, e aquela sensação persistente de que a ciência no filme é apenas um pretexto para coisas explodirem em câmera lenta. O gênero que existia para fazer perguntas impossíveis virou máquina de responder franquias.

E então aparece Project Hail Mary com a cara mais lavada do cinema recente e uma tese que parece quase ridícula de tão simples: toda vida importa. Não importa a procedência, não importa a espécie, não importa se você tem cinco patas e vê o mundo por ecolocalização. E coloca essa tese na boca de um homem que, digamos que não é o melhor exemplo disso.

Trailer oficial

Sinopse

Project Hail Mary acompanha Ryland Grace, um professor de ensino médio que acorda sozinho numa nave interestelar sem memória de como chegou lá.

Aos poucos, pelos flashbacks que vão voltando, ele descobre que foi recrutado à força para uma missão suicida: viajar até Tau Ceti, a única estrela da vizinhança galáctica que não está sendo consumida pelo Astrophage, um micro-organismo que devora energia solar e ameaça extinguir a vida na Terra em questão de décadas.

Lá, ele encontra Rocky, um alienígena de cinco patas na mesma missão, pelo mesmo motivo, representando outra espécie igualmente ameaçada.

Um planeta de Tau Ceti que é tipo Venus, mas cor de slime
Um planeta de Tau Ceti que é tipo Venus, mas cor de slime

Enredo de Project Hail Mary

O filme se dá em dois tempos. Um onde Ryland Grace (interpretado por Ryan Gosling) acorda numa nave sem memória, e outro no passado, onde vemos a progressão dos estudos, análises e do projeto que levou ele até aquele lugar. A estrutura em si explicada, pode soar simples, mas é uma inteligente sacada de roteiro! Os flashbacks entregam as informações na medida em que são necessárias para compreensão, construção de tensão e até impacto emocional.

Já no espaço e descobrindo que é o único sobrevivente de sua missão, Grace encontra e estabelece contato com uma outra espécie, o Eridiano, Rocky, que também está na mesma missão de salvar sua espécie da ameaça do Astrophage. O bichinho é um poço de fofura, uma espécie de aracnídeo feito de rochas, de uma raça extremamente inteligente. A relação que se estabelece entre os dois é cheia de humor, fofura e fraternidade. É essa pequena rocha que vai ensinar a Grace o propósito da vida.

Em paralelo a isso, a terra vive seu próprio apocalipse, e o desenho do que isso representa na trama é uma perfeita amarração de passado e presente. Um grande destaque aqui vai para Eva Stratt (interpretada brilhantemente por Sandra Huller), a comandante da missão. Durante a preparação da missão, Grace se sente isolado, como se só ele entendesse a dimensão do fim do mundo, enquanto todos ao seu redor agem como se nada tivesse acontecendo.

Depois de tentar conversar com Eva, que dá sua ótica da questão, Grace desiste. Ninguém o compreenderá. E aí Eva entra num palco de karaokê e entrega o coração do filme, cantando Sign of The Times para sua equipe, incluindo para Grace. A música fala por si só e quem não chora aqui tem coração de pedra, com todo respeito ao Rocky, nosso amigo rochoso.

Sandra Huller no karaokê. O karaokê é sempre um expurgo para uma mulher sobrecarregada.
Sandra Huller no karaokê. O karaokê é sempre um expurgo para uma mulher sobrecarregada.

Onde o filme acerta

Se ainda não ficou claro, o roteiro do filme é bem inteligente! Grande parte do processo de acerto vem das escolhas narrativas. A estrutura em dois tempos poderia facilmente virar um recurso de estilo vazio, mas aqui ela é funcional até o osso: cada flashback existe porque o presente precisava dele naquele momento exato.

A direção do filme não é inventiva nem provocadora, é bem clássica, mas tem seu mérito na fineza de desenho sonoro, direção de arte e fotografia. Tudo dialoga muito bem numa conversa que pega na sua mão e te guia pelo caminho (talvez até demais, já falamos disso).

Agora falando do que acontece mesmo no filme, é impossível não frisar o desenvolvimento da relação de Grace e Rocky: isso é a âncora do filme. Sendo inclusive o principal motor do processo de transformação desse personagem, que pode ser visto completamente diferente no fim do filme.

Grace não é o herói típico de ficção científica. Ele é relutante, imperfeito, e o filme tem consciência disso o tempo todo. O que Rocky faz com esse homem ao longo da missão é o coração silencioso do filme.

Rocky não fala, não tem rosto, vê o mundo por ecolocalização e se comunica em acordes musicais. É um dos personagens mais charmosos do cinema recente, e ele é feito de borracha e puppeteers. O que funciona aqui é que a relação entre Grace e Rocky não é construída no espanto do contato alienígena, aquele clichê de "NOSSA, uma outra forma de vida!". É construída do jeito que duas pessoas muito inteligentes, de culturas completamente diferentes, resolvem problemas juntas. Eles são colegas antes de serem amigos. E quando a amizade aparece, ela já estava lá faz tempo sem que ninguém precisasse anunciar.

Tem algo muito honesto no modo como o filme trata as diferenças entre eles. Hábitos alimentares incompatíveis, ciclos de sono completamente opostos, referências culturais que não existem na língua um do outro. E tudo isso é fonte de humor e de ternura em proporções iguais, nunca de conflito dramático forçado. Dois seres que não têm nada em comum exceto o problema que precisam resolver, e que descobrem que isso é o suficiente.

Grace e Rocky. A dupla mais improvável do universo. Literalmente.
Grace e Rocky. A dupla mais improvável do universo. Literalmente.

Onde Interstellar tropeçou e Hail Mary não

A comparação com Interstellar é inevitável e o filme sabe disso. Os dois usam física complexa como língua narrativa, os dois têm um terceiro ato de sacrifício emocional, os dois querem que você chore com a ciência. A diferença é que Interstellar usa tudo isso para montar um espetáculo sobre a grandiosidade do universo, enquanto Project Hail Mary usa tudo isso para falar sobre a conexão entre duas criaturas pequenas num espaço muito grande.

Project Hail Mary usa todo o aparato da ficção científica hard para chegar num lugar que Interstellar tentou e não conseguiu: emoção que não é manipulação. Nolan construiu o choro. Lord e Miller deixaram o choro aparecer. Há uma diferença técnica e moral entre as duas coisas. Um grande mérito aos roteiristas do filme.

O problema é que o filme às vezes trai essa própria inteligência. Há sequências que se repetem porque o roteiro não confia que você entendeu o Astrophage na primeira explicação. Há momentos em que o Grace explica em voz alta o que acabou de acontecer para uma audiência que acabou de assistir ao que acabou de acontecer. Com 2h36 de duração, esses momentos custam caro. O filme quase te chama de bobo, e você não merecia isso.

Mas o coração pulsa mais forte do que esses trópicos. A ciência aqui não é ornamento e não é pretexto. A ciência aqui é o idioma que duas espécies incompatíveis usaram para se entender. E quando o filme lembra disso, ele é realmente muito bom.

O mais importante ator do filme! Rocky!
O mais importante ator do filme! Rocky!

Conclusão

Project Hail Mary é um filme que sabe o que é e não pede desculpa por isso. É ABC da ficção científica, sim. É um filho de Interstellar e de The Martian, sim. Mas ele faz algo que os pais não conseguiram: colocar a emoção a serviço da ideia. E traduzir isso em cada movimento do filme.

E numa era em que Hollywood parece convicta de que espetáculo é suficiente para sustentar seus produtos, um filme que acredita genuinamente no que diz, é um respiro para um gênero.

Nota: 4 de 5

E você? Também está procurando pelúcias do Rocky na internet?

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Até a próxima!