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7 filmes que mais dividiram opiniões no Rotten Tomatoes

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Tem filme que separa o casamento, tem filme que separa a mesa de domingo, e tem filme que separa a crítica do público no Rotten Tomatoes com o requinte de uma faca cega. Selecionamos sete desses divórcios litigiosos, em ordem crescente de barraco.

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Sobre o Rotten Tomatoes

O Rotten Tomatoes deveria ser, em tese, um termômetro. Na prática, virou uma arena. De um lado, a crítica especializada, com seus mestrados em teoria do cinema e seu desprezo bem ensaiado pelo que cheira a popcorn. Do outro, o público, com sua paixão genuína, sua capacidade de transformar trailer ruim em ofensa pessoal, e seu talento particular para confundir gosto com militância. Quando esses dois universos discordam, o site vira um campo minado de percentuais quase ofensivos: 91 contra 42, 30 contra 81, 26 contra 83. Cada número desses esconde uma história, e quase nenhuma delas é sobre cinema.

Esta lista não é sobre os piores filmes nem sobre os melhores. É sobre os filmes que conseguiram a proeza rara de fazer crítico e espectador parecerem habitantes de planetas diferentes. Alguns merecem a divisão. Outros merecem só o silêncio. E pelo menos um merece um abraço e um pedido de desculpas formal. Vamos do divórcio mais civilizado ao mais sangrento.

Rotten Tomatoes não paga terapia para nenhum dos dois lados, infelizmente.
Rotten Tomatoes não paga terapia para nenhum dos dois lados, infelizmente.

Os 7 filmes que mais dividiram opiniões no Rotten Tomatoes

Green Book (2018): o filme que vovô adora e o Twitter cancelou no mesmo fim de semana

Diferença de 14 pontos (77 da crítica, 91 do público). Começamos pelo menos sangrento dos casos. Tony Lip, segurança ítalo-americano racista, vira motorista de Don Shirley, pianista negro erudito, numa turnê pelo Sul segregacionista dos Estados Unidos em 1962. No final, eles aprendem lições um com o outro. Que ternura. Que coragem. Que vencedor do Oscar de Melhor Filme em cima de Roma e BlacKkKlansman, obrigada Academia, é sempre bom contar com vocês nas maiores injustiças do cinema.

O público amou. Como não amar, aliás, um filme que entrega racismo em doses tão palatáveis que dá para digerir no Domingo Espetacular sem perder o apetite? A+ no CinemaScore, US$ 321 milhões de bilheteria, People's Choice em Toronto. A crítica, no entanto, foi mais educada do que entusiasmada, e por boas razões. A família de Don Shirley chamou o filme de sinfonia de mentiras porque não foi consultada para fazer um filme sobre o próprio parente. Shirley não era estranho à comunidade negra, nem estranho à própria família, e teria recusado a cinebiografia por décadas. Mahershala Ali, que ganhou Oscar pelo papel, ligou pessoalmente para a família pedindo desculpas, gesto raro e raramente reconhecido.

Como se isso bastasse: Viggo Mortensen usou a "palavra com N" num Q&A de divulgação, achando que era charme. O co-roteirista Nick Vallelonga, filho do Tony Lip da vida real, tinha um tweetzinho perdido apoiando a teoria conspiratória de Trump de que muçulmanos celebraram o 11 de setembro. Peter Farrelly, o diretor, era o cara dos Loucos por Mary. Tudo isso está documentado, tudo isso é público, e tudo isso está a um Google de distância. E ainda assim, o público deu 91. Talvez o público merecesse uma pesquisa própria.

Amizade…
Amizade…

Mother! (2017): a alegoria bíblica que Jennifer Lawrence não mereceu carregar

Diferença de 16 pontos (68 da crítica, 52 do público). Mas o número aqui mente. A história real do filme do Darren Aronofsky está no CinemaScore: F. Letra F. F de fracasso, F de fugir do cinema, F de foi você que me trouxe aqui para ver isso, seu canalha?

Para dar contexto, na história inteira do CinemaScore, talvez uns vinte filmes receberam essa nota. Mother! é um deles. Em boa companhia: The Wicker Man do Nicolas Cage e Killing Them Softly do Brad Pitt.

A premissa: Jennifer Lawrence vive numa casa isolada com o marido poeta Javier Bardem. Um casal estranho aparece. Depois mais gente. Depois muito mais gente. Depois acontece o terceiro ato, que é melhor não adiantar, e que basicamente envolve a Igreja inteira invadindo a sua sala de estar. Tudo isso é alegoria bíblica: Maria, Deus, Adão, Eva, Caim e Abel, fim do mundo. Aronofsky disse que fez o filme em cinco dias num surto criativo. Dá para perceber.

O marketing, claro, vendeu o psycho-thriller doméstico com a queridinha do Oscar. O público chegou esperando Garota Exemplar e levou catequese punk no rosto. Aronofsky, em entrevista, declarou textualmente que o filme era para ser um soco, e perguntou: como você ia sair desse filme e não dar um F?

Em Veneza, o filme foi vaiado e ovacionado ao mesmo tempo, o que é mais ou menos a sensação de quem assiste. A crítica abraçou, parte do público fugiu. E a Jennifer Lawrence teve a pior abertura ampla da carreira para carregar uma alegoria bíblica que nem ela parece ter entendido por completo. Coragem.

Eu saindo do cinema com o espírito obsessor do Daron Aronofsky perguntando quantas estrelas eu vou dar no Letterboxd
Eu saindo do cinema com o espírito obsessor do Daron Aronofsky perguntando quantas estrelas eu vou dar no Letterboxd

Ghostbusters (2016): o primeiro grande review bombing da era moderna, com aplauso de Milo

Diferença de 25 pontos (74 da crítica, 49 do público). O filme em si, sejamos honestas, é morno. Quatro mulheres engraçadas tentam revitalizar uma franquia oitentista, conseguem alguns momentos, perdem outros, e fim. O problema não foi o filme, foi tudo ao redor.

O trailer virou o vídeo mais deslikado do YouTube na época, antes mesmo de qualquer ser humano ter assistido a um segundo do filme. Leslie Jones foi atacada no Twitter com imagens racistas comparando-a a primatas, em campanha parcialmente coordenada por Milo Yiannopoulos, que escreveu uma resenha intitulada (e isto é real) Adolescentes com Tetas. Jones deixou a plataforma. O Twitter, por uma vez, fez a coisa certa e baniu o Milo permanentemente em 20 de julho de 2016. James Rolfe, o Angry Video Game Nerd, gravou um vídeo declarando que se recusava a assistir e fazer review do filme, viralizando o modelo boicote pré-fato, que é como hoje se faz política internacional, basicamente.

Número final: prejuízo de mais ou menos 70 milhões de dólares, sequência engavetada, Leslie Jones traumatizada e o Milo Yiannopoulos virou problema de outra plataforma. A crítica deu 74 porque o filme não era horrível. O público deu 49 porque o público, em parte, não queria que existisse. Está tudo na curva.

Quem tem medo de 4 caçadoras de fantasmas parcialmente empoderadas?
Quem tem medo de 4 caçadoras de fantasmas parcialmente empoderadas?

Captain Marvel (2019): o filme que mudou as regras do Rotten Tomatoes (literalmente)

Diferença de 34 pontos (79 da crítica, 45 do público). Brie Larson concedeu uma entrevista em 2018 dizendo, com palavras dela, que não precisava de um homem branco de 40 anos para dizer o que não funcionou em Uma Dobra no Tempo. Foi o suficiente. Três semanas antes da estreia, a página do filme no Rotten Tomatoes foi bombardeada com milhares de resenhas negativas de pessoas que não tinham visto o filme, porque o filme ainda não tinha estreado, porque o universo respeita uma sequência lógica que a internet desaprendeu por volta de 2015.

O Rotten Tomatoes, ao contrário do que costuma fazer, reagiu. Removeu o sistema Want to See e desativou comentários e resenhas pré-estreia. Mudança permanente. Atribuída diretamente a esse caso. Foi a primeira vez na história que o site reescreveu o próprio funcionamento por culpa de homens irritados. Provavelmente não a última.

O filme em si é uma origem de herói MCU competente, nada que dependa de crítica vigorosa. Os ataques tampouco. Brie Larson seguiu fazendo o trabalho, ganhou US$ 1,12 bilhão de bilheteria desafiando o boicote, provando exatamente que no fim a Brie Larson tava certa.

E não podemos deixar de ressaltar que os dois cancelamentos preventivos dessa lista estão relacionados a filmes de franquias gigantes, normalmente masculinas, mas dessa vez com protagonistas femininas. Vamos pensar… Será que isso é uma coincidência?!

Se ELA fala eu concordo de cabeça baixa
Se ELA fala eu concordo de cabeça baixa

It Comes at Night (2017): o filme em que nada vem à noite, e o público foi o último a saber

Diferença de 44 pontos (88 da crítica, 44 do público). Um dos casos mais limpos da lista, e também um dos mais injustos. O filme do Trey Edward Shults é um drama psicológico pós-apocalíptico sobre paranoia, luto e o que famílias fazem umas pelas outras quando o mundo acaba. Uma pandemia devastou tudo. Uma família se isola na floresta. Outra família chega. A confiança se corrói. Fim.

É um filme excelente. Quieto, denso, ambiguamente cruel. A A24, sua distribuidora, decidiu vendê-lo como terror sobrenatural. Trailers cheios de jumpscares editados de cenas que não existiam no filme, pôsteres apocalípticos, slogan dizendo que vem à noite. Vem o quê, perdão? A coisa do título nunca aparece. Essa é a ideia. O monstro não existe, ou existe só dentro das pessoas, e isso é o ponto. O público chegou esperando A Bruxa com mais sangue e levou tese de mestrado em silêncio.

CinemaScore D. A IndieWire publicou um texto definitivo sobre o caso, comparando com A Bruxa (CinemaScore C-, mesmo paradigma de propaganda enganosa), e a A24 supostamente aprendeu a lição. Supostamente. O que esse caso prova não é que o público está errado, é que a publicidade enganosa está. Em outras palavras: se você vende limonada e entrega chá verde sem açúcar, o limão vai apanhar injustamente.

E o terror? Não era terror? Disseram que era terror…
E o terror? Não era terror? Disseram que era terror…

Star Wars: The Last Jedi (2017): vou morrer nessa colina, e já estou cavando

Diferença de 49 pontos (91 da crítica, 42 do público). Aqui o seu autor declara conflito de interesses e segue. The Last Jedi é o melhor filme da trilogia sequel de Star Wars, talvez o mais corajoso da saga inteira desde O Império Contra-Ataca, e não, isso não está em debate nesta sala. Rian Johnson pegou um mito esgotado, um Luke Skywalker que precisava deixar de ser estátua, uma narrativa que já se mordia faz três trilogias, e fez perguntas duras: e se o herói falhar? E se o passado precisar ser destruído para alguma coisa nova nascer? E se a Força não for um sobrenome?

O fandom mais ruidoso enlouqueceu. Esse não é o meu Luke, choraram, como se o seu Luke fosse argumento estético. Em 2018, um usuário que se identificava como Abaixo o Tratamento das Franquias pela Disney admitiu, em texto publicado, manipular votos na página do filme no Rotten Tomatoes. Kelly Marie Tran, a atriz de Rose Tico, sofreu meses de assédio racista e sexista organizado, deletou todas as postagens do Instagram em junho de 2018, e escreveu um ensaio no New York Times chamado Não Vou Ser Marginalizada por Assédio Online. A página da Rose Tico na Wookieepedia foi vandalizada com termos racistas. O fandom não odiou o filme. Odiou o que o filme dizia sobre quem podia estar no filme.

E aí a Disney, terror de qualquer mãe, recuou. The Rise of Skywalker basicamente desfez The Last Jedi cena por cena, num gesto institucional de covardia raramente igualado em Hollywood. A Rose Tico ficou com 76 segundos de tela na sequência, número contado por fãs e confirmado pela imprensa. E olha, você pode discordar do filme do Rian Johnson, você pode achar feio o arco da Holdo, você pode odiar o cassino de Canto Bight, você tem todo o direito. Mas o que aconteceu com Kelly Marie Tran não foi crítica de cinema. Foi outra coisa. E essa outra coisa está colada no 42 do público no Rotten Tomatoes, queiramos ou não.

Eles não suportam ver uma oligarquia se desmontar
Eles não suportam ver uma oligarquia se desmontar

Bright (2017): a Netflix descobriu que a crítica não importa, e ninguém se recuperou

Diferença de 57 pontos (26 da crítica, 83 do público). A maior da lista, talvez a maior da história recente do Rotten Tomatoes. Will Smith é um policial humano, Joel Edgerton é um policial orc, e os dois moram em Los Angeles. Existe magia. Existe varinha. Existe Noomi Rapace de orelha pontuda como vilã elfa. O filme custou 90 milhões de dólares e foi lançado direto na Netflix em dezembro de 2017, sem passar pelos cinemas.

A crítica decapitou. David Ehrlich, da IndieWire, chamou de o pior filme de 2017, o que já é generoso considerando que The Emoji Movie também foi lançado naquele ano. O roteiro era de Max Landis, depois acusado em 2019 de abuso sexual por múltiplas mulheres. A metáfora racial do filme, com orcs como uma espécie de versão fantástica de afro-americanos, foi unanimemente rasgada por ser exatamente tão sutil quanto a frase que você acabou de ler.

E aí entra a parte boa, no sentido cínico. Reed Hastings, CEO da Netflix na época, fez uma declaração pública dizendo que os críticos estão bastante desconectados do apelo de massa. Em outras palavras: o nosso público amou, não queremos saber das suas notas, vocês estão demitidos. Era a Netflix declarando, em 2017, com seis anos de antecedência, o que viria a ser o modus operandi do streaming inteiro: o algoritmo decide o que é bom, o engajamento é a única métrica, e a crítica vira nota de rodapé. A sequência foi anunciada e, anos depois, engavetada apesar da audiência. Porque até a Netflix tem orgulho. Eventualmente.

O filme é ruim. O público amou. A Netflix gostou tanto que abandonou a sequência. A crítica continua com razão e sem poder. Toda a lógica do streaming pode ser explicada por esse parágrafo, basicamente.

A metáfora mais cristalina da história do cinema
A metáfora mais cristalina da história do cinema

Conclusão: e você, em qual trincheira está?

Toda lista desse tipo termina com o leitor xingando os autores, e essa não será diferente. Algum dos sete merecia outro destino?

Algum não merecia estar na lista? Você defende The Last Jedi até a morte ou acha que Green Book é injustiçado?

Você viu Mother! e deu um F na sua cabeça, ou você é do time que aplaudiu? E você, ousada espectadora que terminou Bright sem desistir, conta tudo nos comentários.

A crítica especializada lê. O público também lê. E ninguém perdoa.

Até a próxima!