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Análise de Backrooms: Vazio como uma loja abandonada

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O fenômeno de internet mais claustrofóbico da última década finalmente chegou ao cinema pela A24, dirigido pelo garoto que o transformou em febre no YouTube. O problema é que Backrooms passa o filme inteiro construindo um mistério que não tem a menor intenção de explicar.

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Dados iniciais

Dos fóruns de internet para o YouTube, do YouTube para as telonas. Backrooms chega ao cinema como o mais novo longa distribuído pela A24. Dirigido por Kane Parsons e escrito por Will Soodik, o filme é baseado em Creepypastas, uma tradição antiga da internet de histórias de terror que circulavam pelos fóruns e eram recontadas centenas de vezes por diferentes usuários.

Backrooms chega ao cinema num momento relevante onde os filmes de terror mainstream já não se propõem a experimentar tanto quanto na geração passada. Tudo parece uma grande fórmula a ser repetida de novo e de novo e honestamente ninguém mais quer ver pela milionésima vez um monstro genérico e sem sentido pulando na tela.

Emanando uma estética found footage e trazendo novos nomes para a direção, o filme chega com uma promessa de apresentar algo novo. Mas será que ele consegue bancar o que se propõe?

A seguir uma review SEM spoilers de Backrooms. Pode explorar essa sala tranquilo pois aqui não vai ter nenhuma surpresa.

Uma salinha bem convidativa
Uma salinha bem convidativa

O contexto de Backrooms

Para quem passou a última década longe da internet: as Backrooms nasceram em maio de 2019, de uma foto postada no 4chan. Um cômodo vazio de paredes amareladas e carpete úmido, luz fluorescente zumbindo, acompanhado da promessa de que, se você desse o azar de atravessar a realidade no lugar errado ("noclip", no jargão de videogame), ia parar ali. Seiscentos milhões de quilômetros quadrados de salas idênticas e nenhuma saída. O detalhe mais cruel é que levaram cinco anos para descobrir que a tal foto era só uma loja de móveis desativada em Oshkosh, no interior dos Estados Unidos. O abismo da Nietzche, no fim, era uma liquidação de sofás.

A partir dali a internet fez o que a internet faz melhor: transformar um corredor mal iluminado em religião. Surgiram wikis colaborativas catalogando centenas de "níveis", cada um com suas regras e perigos, além de um bestiário de "entidades" documentado com o rigor de quem preenche declaração de imposto de renda, só que para um lugar que não existe. Teve gente que aprendeu Blender do zero só para renderizar o próprio pesadelo amarelo, e digitar "Backrooms" no YouTube hoje devolve um poço sem fundo de found footage caseiro, vídeos de análise e até trilha sonora pra relaxar no abismo.

No meio desse caldo apareceu Kane Parsons, o Kane Pixels, que em janeiro de 2022, aos dezesseis anos, postou um curta chamado The Backrooms (Found Footage). O vídeo encostou nas oitenta milhões de visualizações sozinho, e dele nasceu uma série de mais de vinte episódios, com direito a empresa fantasma (a Async, que tenta abrir uma porta para o outro lado, com os resultados que você imagina) e a um total acima dos cento e noventa milhões de views. Resumindo: enquanto você terminava o ensino médio, esse garoto erguia uma mitologia de quase duzentos milhões de visualizações e fechava contrato com a A24.

Imagem do primeiro curta
Imagem do primeiro curta

Enredo de Backrooms

O filme conta a história de Clark, um arquiteto fracassado, recém-divorciado, que busca colocar a vida de volta nos eixos através da terapia. Infelizmente Clark não se abre muito para a mudança e se mostra como alguém bem resistente a qualquer coisa fora de suas convicções.

Tudo muda quando acidentalmente o homem encontra uma entrada para as Backrooms. Ele explora o local, começa a tentar entender seu funcionamento e a provar para as pessoas que aquilo é real, de uma maneira progressivamente obsessiva.

É inegável que a trama carrega um lugar de interesse muito grande partindo para explorar esse universo das Backrooms. O dispositivo de gênero aqui está plantado de uma maneira diferente, que brinca com mistério e curiosidade. O que esses personagens representam rapidamente é claro e cristalino pois não é a complexidade deles que interessa, é explorar uma mitologia sendo criada na nossa frente.

Clark prefere literalmente entrar no vazio e ficar lá explorando do que cuidar dos problemas dele e levar a terapia a sério!
Clark prefere literalmente entrar no vazio e ficar lá explorando do que cuidar dos problemas dele e levar a terapia a sério!

O gênero e a direção

Infelizmente a decepção vem justamente na sobreposição do desejo de defender uma tese, sem ao menos explicar ela.

Imagina que eu preciso muito que você acredite que é bom comer abacate. Mas não posso te falar nenhum benefício disso, qual a origem desse abacate e por que é bom. Isso é o que o longa faz com as Backrooms. É compreensível que haja desejo de criar mistério, até para franquear o filme e consolidar uma propriedade intelectual. Mas é frustrante quando NENHUMA resposta vem e só parece ser absolutamente sem propósito tudo que você viu.

A outra camada de decepção vem na direção do filme. Kane Parsons, sem os vícios da indústria, deu a entender que queria e poderia propor coisas novas, trazer o found footage de volta, brincar com uma direção mais propositiva e com mais liberdade criativa. Infelizmente nada disso chega na tela. O filme até tem momentos diferentes, mas em 95% da trama só vemos mais um talento proeminente sendo capturado pelo voraz moedor da indústria de filmes de terror pasteurizados.

O primeiro longa também é sempre um momento difícil para um diretor iniciante, então é possível ver ainda uma falta de maturidade, repetições excessivas e pouco domínio de ritmo da parte de Parsons. Isso dificulta imergir no filme e desfrutar da experiência sem sentir que estou sendo repetitivamente enganada em detrimento de qualquer explicação ou fundamentação sobre o objeto do terror.

Sem nenhuma explicação sobre o assunto, o terror se torna metáfora de nada, não explica nada, não justifica nada, nem ele mesmo.

A terapeuta desesperada tentando entender a metáfora
A terapeuta desesperada tentando entender a metáfora

Conclusões

Backrooms não é um filme incrível, longe disso. Mas ensaia ser algo melhor do que é. Num futuro, uma sequência com mais liberdade ou dirigida por alguém mais experiente, pode chegar à expectativa criada em torno do filme. Infelizmente esse dia não foi hoje e precisamos avaliar apenas o que o filme é. O fantasma oco do que poderia ter sido.

Nota: 1,5 de 5

E você, o que achou de Backrooms? Foi pesquisar tudo no YouTube depois? Também ficou frustrado com a ausência de QUALQUER resposta?

Por aqui, a gente aguardará o terceiro filme. (Estimamos que uma resposta só virá por volta disso)

Até a próxima!