Sobre Toy Story 5
Veio aí o QUINTO (e pouquíssimo aguardado) capítulo de uma das franquias hollywoodianas que, contra toda a lógica do mercado, menos perdeu qualidade ao longo da sua ostensiva vida útil: Toy Story 5. O que isso diz sobre o estado de Hollywood em 2026 é assunto pra terapia coletiva, mas fica pra outro dia.
O longa é dirigido por Andrew Stanton (o homem por trás de Wall-E e Finding Nemo, e roteirista dos outros quatro Toy Story, ou seja, alguém que conhece esse quintal de cor) ao lado de McKenna Harris, que faz aqui sua estreia na direção de longas após anos no storyboard da Disney e da Pixar (passou por Raya and the Last Dragon e Elemental, além de ter dirigido o curta Ciao Alberto). Juntos, a dupla soma a tarimba de quem já fez isso mil vezes com o fôlego de quem ainda acha que dá para fazer diferente, e o resultado é, no mínimo, curioso.
Mas a pergunta incômoda continua de pé: o quinto filme de uma franquia (qualquer uma) pode ser bom mesmo?
Aviso: este é um texto livre de spoilers. Pode zapear à vontade que, aqui no nosso quintal, ninguém vai estragar a brincadeira.

Analisando o Enredo de Toy Story 5
Dando sequência à última parada da história, os brinquedos seguem com Bonnie, que agora tem oito anos e está crescendo (rápido demais, como todo mundo que já amou um boneco sabe que dói). A garota anda com dificuldade de fazer amigos, e os brinquedos, liderados pela xerife Jessie, montam um plano tão bem-intencionado quanto furado para resolver a questão. Investigando o problema, Jessie descobre a verdade mais deprimente possível: as crianças da vizinhança simplesmente não brincam mais. Estão todas hipnotizadas por telas e dispositivos, e os brinquedos viraram peça de museu dentro da própria casa.
Sentindo a filha isolada, os pais de Bonnie fazem o que qualquer pai aflito de 2026 faria: compram um tablet igual ao das coleguinhas, na esperança de que a tecnologia resolva o que a tecnologia criou. Só que o tablet, a tal da Lilypad (que atende por Lily e tem formato de sapo, porque a Pixar nunca perde a chance de um design fofo), já chega se achando superior e tratando os bonecos como relíquias prestes a serem aposentadas.
Não é spoiler dizer que Woody e Buzz entram nessa fria. Os veteranos também sentem na pele esse momento em que a tecnologia ameaça engolir a infância e o próprio ato de brincar. No caminho pintam brinquedos novos (um hipopótamo com GPS embutido, um boneco de treinamento de penico com a personalidade que o nome sugere, entre outros), cada um trazendo uma nova ótica sobre o mesmo tema. Tudo no filme soa milimetricamente calculado. Cada elemento que entra em cena, por mais aleatório que pareça no começo, acaba tendo função. É admirável e levemente assustador, como assistir a um relógio suíço chorar.

Pontos fortes
O roteiro é, disparado, o maior trunfo do filme. Ele abre várias tramas que à primeira vista parecem soltas, quase sem sentido, e te deixa ali desconfiado, achando que a coisa vai desandar. Mas no momento exato os núcleos começam a se cruzar, um personagem despencando dentro do problema do outro, disparando reviravoltas ou soluções. Parece pretensão pensar que tantas pontas se amarram com tanta seriedade numa animação infantil, mas é genuinamente bombástico quando tudo converge para uma mensagem que importa de verdade.
E que mensagem. No começo, o filme flerta com o sermão raso sobre os males da tecnologia na infância (aquele discurso de tio no almoço de domingo). Felizmente, ele não se contenta com isso. Complexifica a ideia, abre portas para enxergar o conflito por outros ângulos e trata o assunto com uma responsabilidade que nenhum filme sobre "criança e tela" costuma ter.
Tirando de cena toda essa camada séria, Toy Story 5 ainda é, no fim das contas, uma animação infantil, e cumpre o papel. Direção, vozes, personagens e mecanismos de trama têm apelo de sobra para a criançada. O ritmo é veloz, com coisa acontecendo o tempo todo, garantindo que nenhum espectador (de seis ou de trinta e seis anos) tenha tempo de pegar o celular no meio da sessão, o que, para um filme sobre os perigos da tela, é uma ironia comicamente marcante.

Pontos fracos
Nem tudo é festa no quintal. O filme ainda aposta pesado no saudosismo para arrastar a fã-base de volta aos cinemas. Não é um crime, mas escancara que a franquia continua refém de signos dos quais não consegue (ou não quer) se livrar. Woody, que o quarto filme tinha aposentado com certa dignidade, volta com papel central construído puramente porque o roteiro quis e porque os fãs iam botar fogo no cinema se ele não aparecesse.
Ao longo da trama, o filme tropeça em clichês de rivalidade-superada-vira-amizade e enfia personagens clássicos sem propósito, só para manter a linha de produção de brinquedos derivados girando. Os secundários quase não respiram: vários dos brinquedos novos, que poderiam trazer mundos e personalidades próprias, ficam espremidos em meia dúzia de cenas porque o filme decidiu orbitar exclusivamente os protagonistas de sempre.
E tem o hipopótamo com GPS na sala: a máquina por trás disso tudo. A Taylor Swift soltou um single original para alavancar o lançamento, o Randy Newman voltou para assinar a quinta trilha sonora consecutiva da série (o homem já deve ter quarto reservado na casa da Pixar) e o próprio Stanton já anunciou que isto aqui é o começo de uma nova trilogia com a Bonnie, leia-se Toy Story 6 a caminho antes mesmo de a poeira do 5 assentar. Nada disso é defeito do filme em si, mas é o contexto que explica por que os tropos batidos insistem em aparecer: estamos diante de uma indústria que enxerga filme não como obra, mas como catálogo de produtos. Os clichês não são preguiça, são estratégia.

Conclusões
Toy Story 5 é definitivamente uma grata surpresa em 2026. No ponto em que o cinema está, é quase um milagre uma franquia chegar ao quinto filme mantendo qualidade assim. O mérito é de uma direção e de um roteiro sólidos, que merecem ser celebrados sem ironia (e olha que aqui a ironia é praticamente um vício).
Os signos ultrapassados e os clichês continuam visíveis, e a crítica lá fora já cutucou a ironia de um filme sobre obsolescência que talvez tenha medo da própria. Ainda assim, o longa se planta num lugar de provocar e construir coisa nova, o que é bonito de ver numa franquia que já passou dos vinte e cinco anos. A Pixar achou um jeito de chorar em cima da própria mortalidade e ainda vender ingresso. É difícil admitir, mas funciona.
Nota: 4 de 5
E você? Também se emocionou vendo o filme? Curtiu os brinquedos novos ou achou que o tablet sapo veio só pra vender capinha?
Por aqui choramos entre 0 e 27 vezes ao longo da sessão. Não contamos exatamente o número, mas foi por aí.
Até a próxima!











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