Sobre as Comédias Românticas dos anos 2000
Existe um tipo específico de memória afetiva que pertence exclusivamente aos anos 2000: você está de pijama numa sexta-feira à noite, tem um balde de pipoca no colo e noventa minutos de certeza absoluta de que tudo vai dar certo. A trilha sonora é boa demais para o que merecia. A cidade é Nova York ou Londres, sempre. A protagonista tem um emprego dos sonhos e um apartamento que nenhuma jornalista do mundo real poderia pagar, mas você decide não perguntar. E no final, o homem aparece correndo no aeroporto, diz as palavras certas, e o crédito sobe com uma música pop eternamente grudada na sua memória.
As romcoms dos anos 2000 eram exatamente isso: uma experiência sensorial coletiva disfarçada de filme. E funcionavam. Funcionavam muito bem. O problema é que, enquanto a gente assistia encantadas, esses filmes estavam dando uma aula silenciosa sobre como o amor funciona. E era, digamos, uma pedagogia questionável.
Não é que eram ruins… Só ensinavam coisas terríveis! Com uma competência desconcertante.

Lição 1: Perseguição é romance, não processo judicial
Noah Calhoun, em The Notebook (2004), conhece Allie numa roda-gigante e, antes de conseguir seu número de telefone, ameaça se jogar do brinquedo caso ela não aceite sair com ele. Ela ri. A gente ri junto. O filme sugere que isso é encantador.
Anos depois, com um olhar levemente diferente, a cena é outra coisa: é um adulto usando ameaça de automutilação como ferramenta de coerção num encontro com uma desconhecida. Mas ok, o Ryan Gosling era muito bonito, então o roteiro ganhou o benefício da dúvida por pelo menos duas décadas…
O tropo da perseguição romântica foi o motor narrativo de boa parte das romcoms desse período. Em Love Actually (2003), Mark filma obsessivamente a noiva do melhor amigo ao longo de todo o casamento, depois aparece na porta dela no Natal com cartazes declarando amor enquanto o marido está do outro lado da porta. A própria Keira Knightley revelou mais tarde que precisou regravar cenas para que sua expressão parecesse menos assustada e mais encantada. O diretor Richard Curtis admitiu que a cena era "um pouco estranha". Um pouco.
Em 27 Dresses (2008), Kevin rouba a agenda de Jane e a segue repetidamente. Em How to Lose a Guy in 10 Days (2003), Ben aparece no trabalho de Andie, na casa da Andie, em todo lugar onde a Andie claramente não quer estar com ele. A mensagem era sempre a mesma: se você insistir o suficiente, ela vai ceder. O "não" é só o começo de uma negociação.
A pesquisadora Julia Lippman, da Universidade de Michigan, conduziu um estudo em 2018 que confirmou o óbvio: mulheres expostas a narrativas que romantizam perseguição passam a endossar mais fortemente "mitos de stalking", a ideia de que alguém disposto a ir a extremos deve estar genuinamente apaixonado. A cultura pop dos anos 2000 não inventou o stalking. Só colocou trilha sonora nele.

Lição 2: Você precisa se transformar para merecer ser amada
O makeover é, talvez, o tropo mais honesto das romcoms dos anos 2000, porque pelo menos não disfarça o que está dizendo. A mensagem está ali, na tela, em montagem de três minutos: você do jeito que é não é suficiente. Mas com babyliss, maquiagem e uma troca de roupa estratégica, você vira protagonista.
O detalhe cômico é que o gênero escolhia atrizes já convencionalmente bonitas e passava o primeiro ato inteiro tentando convencer o público de que elas eram de alguma forma inadequadas. Anne Hathaway em The Princess Diaries (2001) era "feia" porque tinha cabelo crespo e sobrancelhas normais. Sandra Bullock em Miss Congeniality (2000) era "descuidada" porque sabia fazer artes marciais e não usava batom. Rachael Leigh Cook em She's All That (1999) era "invisível" porque usava óculos e... pintava quadros.
A lógica era circular e implacável: a mulher precisava ser transformada para ser vista, e a transformação era sempre em direção a um padrão mais convencional, mais suave, mais adequado ao gosto masculino do interesse romântico. Ninguém perguntava se ela queria ser transformada. Ninguém considerava que talvez o problema fosse o homem que precisava de um makeover emocional urgente.
A mensagem chegava embrulhada em glitter e uma música pop animada, mas era a mesma de sempre: atratividade é trabalho, e o trabalho é responsabilidade dela.

Lição 3: Mentira é uma fundação sólida para qualquer relacionamento
De todas as premissas problemáticas das romcoms dos anos 2000, a aposta é a mais absurda e a mais recorrente. Em How to Lose a Guy in 10 Days, Andie mente para escrever um artigo sobre como afastar um homem enquanto Ben mente apostando que pode fazer qualquer mulher se apaixonar por ele. Os dois mentem, constroem um relacionamento inteiro sobre manipulação mútua e terminam juntos porque, segundo o roteiro, são parecidos.
Em 10 Things I Hate About You (1999), Cameron paga Patrick para cortejar Kat. Quando ela descobre, Patrick compra uma guitarra com o dinheiro sujo e canta para ela no pátio da escola. Ela chora, ela perdoa, eles ficam juntos. Em Failure to Launch (2006), os pais de Tripp literalmente contratam uma mulher para seduzir o filho e fazê-lo sair de casa.
O padrão não é coincidência: o gênero romantizava relações inteiras construídas sobre premissas falsas, depois resolvia a traição com um gesto grandioso e seguia em frente. O subentendido era que sentimentos reais que surgissem no processo redimiam o método. E o método, nesses filmes, raramente era questionado de verdade.
A ironia é que esses mesmos filmes terminavam com declarações de amor "autêntico". Autêntico, no caso, sendo definido como: construído sobre mentira, sustentado por manipulação, e validado por um final feliz que não incluía qualquer conversa real sobre o que tinha acontecido.

Lição 4: Seu trabalho, sua cidade e suas ambições são apenas obstáculos
Aqui a facada atinge profundidade máxima, porque esse tropo raramente se apresenta como problema. Ele se apresenta como escolha.
No final de How to Lose a Guy, Andie está a caminho de Washington para uma entrevista de emprego numa publicação séria, realizando exatamente o que sempre quis fazer profissionalmente, quando Ben aparece na estrada de moto e ela decide descer do táxi. Em Sweet Home Alabama (2002), Melanie larga sua carreira de estilista em Nova York para voltar ao interior do Alabama. Em 13 Going on 30 (2004), Jenna literalmente reescreve a realidade, abrindo mão de uma vida inteira de sucessos profissionais para ter uma casa suburbana com o amigo de infância.
O caso mais radical é Kate & Leopold (2001), onde a protagonista viaja no tempo para o século XIX para ficar com Leopold. Sem comentário adicional necessário, mas vai ter mesmo assim: ela abriu mão do direito de votar. De ter propriedade em seu nome. De contracepção. Pelo Meg Ryan da era vitoriana.
A estrutura era sempre a mesma: a carreira como antagonista temporária, as ambições como desvio de rota, e o amor como o destino verdadeiro que justificava abandonar todo o resto. Os homens nesses filmes raramente faziam escolhas equivalentes. O sacrifício era transação unilateral, e o filme chamava isso de romance.

E se a gente soubesse disso lá atrás?
Os pesquisadores Hefner e Wilson analisaram as 52 romcoms de maior bilheteria entre 1998 e 2008 e encontraram expressões de ideais românticos acontecendo, em média, a cada 14 minutos. Oitenta e dois por cento dos filmes promoviam o tema de que "o amor conquista tudo".
O psicólogo Bjarne Holmes, da Universidade Heriot-Watt, submeteu grupos de estudantes a romcoms e outros filmes e descobriu que o grupo exposto às comédias românticas desenvolvia crenças significativamente mais fortes em destino e amor predestinado. Holmes foi direto: "Conselheiros matrimoniais frequentemente veem casais que acreditam que se alguém é destinado a você, ele deveria saber o que você quer sem precisar comunicar. Agora temos evidências de que a mídia popular contribui para perpetuar essas ideias."
E tem mais: um estudo longitudinal de 2024 da Universidade de Basel, com mais de 900 casais, confirmou que pessoas com crenças de "destino" mais fortes começam relacionamentos com maior satisfação mas experimentam declínio mais rápido ao longo do tempo. A romcom não só ensinava que o amor é eterno: ensinava que esforço e comunicação eram sinais de incompatibilidade, e não de maturidade.
Claro que a gente não sabia disso assistindo Bridget Jones em 2001. Estava ocupada achando razoável que uma mulher com emprego fixo, apartamento próprio e amigos devotados fosse apresentada como tragédia ambulante porque estava solteira aos 32 anos.

Mas a gente amava, e isso também é verdade
E aqui chegamos no nó que nenhum texto sobre romcoms dos anos 2000 consegue desamarrar completamente: eles eram problemáticos e eram ótimos, ao mesmo tempo, com frequência dentro do mesmo filme e às vezes dentro da mesma cena.
A química entre Kate Hudson e Matthew McConaughey em How to Lose a Guy é inegável, e o fato de a premissa ser um desastre ético não apaga isso. 10 Things I Hate About You usa o tropo da aposta e ainda assim constrói um dos personagens femininos mais interessantes do gênero. Legally Blonde começa como romcom e termina como argumento genuíno de que feminilidade não é incompatível com inteligência, o que era mais radical do que parecia em 2001. A trilha sonora de 13 Going on 30 continua impecável independente de qualquer análise.
A acadêmica Corinna Antrobus fez um argumento que merece atenção: parte do desprezo pelo gênero é enraizado em misoginia. Narrativas centradas em mulheres, voltadas para o público feminino, são sistematicamente desvalorizadas enquanto equivalentes masculinos não passam pelo mesmo escrutínio. Reconhecer os problemas das romcoms não precisa significar descartá-las; pode significar simplesmente parar de confundir o roteiro com o manual.
Finalizando
O gênero nos ensinou coisas terríveis sobre amor. Mas também nos deu noventa minutos de alívio em noites que precisavam disso. A questão não é se valia a pena assistir, e sim o que fazer com tudo que aprendemos sem perceber.
E talvez, só talvez, seja hora de parar de esperar que alguém apareça correndo no aeroporto e ir você mesma correr atrás de você! Empoderamento!!
E você? Também cresceu vendo romcoms dos anos 2000? Que cena você não consegue esquecer? Nos conte nos comentários.
Até a próxima!












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