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Analisando Meu Ídolo, da Netflix: Seu ídolo também é um ser humano!

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De Meu Ídolo ao caso Ling Chao: neste artigo, analisamos como fãs, a mídia e as pressões transformam pessoas em produto.

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revisado por Tabata Marques

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Sobre a série Meu Ídolo

A série Meu Ídolo estreou recentemente na Netflix, com os atores Choi Soo-young (Maeng Se-na) e Kim Jae-yeong (Do Ra-ik) no elenco principal, e foi criada por Lee Gwang-young e Kim Da-rin.

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A trama acompanha a advogada Maeng Se-na, que é uma pessoa contida e reservada, porém uma advogada brilhante. Mas o que apenas seu melhor amigo sabe é que Se-na esconde um segredo: ela é fã devota da banda Gold Boys, um quarteto de jovens idols.

Se-na reserva um carinho especial pelo vocalista Do Ra-ik. Assim, quando Do Ra-ik vira suspeito num assassinato, a advogada entra no caso para defendê-lo. Só que, conforme o processo avança e a investigação vai fechando o cerco, a relação entre fã e ídolo começa a se transformar em uma troca íntima, onde Ra-ik se sente seguro e consegue se ver como pessoa para Se-na, não apenas como ídolo.

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A crítica está elogiando a série por ir além do romance idealizado e usar o crime como lente para olhar de perto a pressão da idolatria.

Em vez de fazer da protagonista uma “apaixonada boba”, ela a retrata como competente, contraditória e crível, alguém que pode amar e, ainda assim, agir como advogada. Já entre o público, o título aparece com nota alta de audiência na Viki, além de boa avaliação no IMDb.

Mas a série realmente acerta ao expor como um idol se sente deprimido ao ser visto apenas como produto vendável pela indústria, para tantas pessoas que o idolatram sem ao menos saber quem ele realmente é.

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Não demora para que Do Ra-ik perceba que já não está sendo julgado como homem, mas como embalagem. Aqui, a ficção reconhece o mecanismo, o mesmo que se revelou no episódio envolvendo o idol chinês Ling Chao.

A Vida Real dos idols

Na realidade, idols são empurrados e pressionados além do que podem suportar, transformados em mercadorias ambulantes e alvos de uma cultura que ignora a fronteira entre pessoa e produto.

Não dá para falar disso sem citar o recente episódio envolvendo o idol chinês Ling Chao, membro do boy group ONER, que virou notícia por agredir uma fã considerada sasaeng, termo usado para descrever admiradores obsessivos que invadem a esfera privada dos artistas. O vídeo mostrando Ling Chao afastando uma pessoa que o cercava e o filmava em um aeroporto viralizou no fim de dezembro de 2025, provocando debates: de um lado, quem defendia que ele só reagiu para proteger seu espaço pessoal; do outro, quem julgava inaceitável qualquer demonstração física contra um fã.

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Esse episódio é revelador porque concentra os riscos de uma cultura que consome idols como se fossem produtos avaliados para uso, como bem entendem. No caso de Ling Chao, as redes sociais rapidamente transformaram o estresse em espetáculo público, com polarizações sobre o ocorrido e pouca empatia pela condição humana dele como indivíduo diante de uma multidão e de câmeras enfiadas em sua cara. É a mesma lógica dos fansites, fansigns, votos por rankings de popularidade e tours intermináveis: idols têm que ser perfeitos, acessíveis e eternamente gratos, mesmo quando a pressão invade sua vida pessoal.

Em Meu Ídolo, esse tema tenta ser o coração da história. A série amarra Maeng Se-na e Do Ra-ik não apenas pela linha tênue entre defesa e obsessão, mas pela forma como a mídia, as agências e os fãs constroem, e muitas vezes destroem, a imagem pública de um idol. Do Ra-ik não é simplesmente acusado de um crime; ele se torna um caso midiático, um objeto nas manchetes e em teorias de fãs que descartam sua humanidade. A mídia reflete e amplifica expectativas irreais, pressões de performance, especulações e julgamentos.

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O paralelo com o episódio de Ling Chao é, infelizmente, claro. No mundo real, um artista pode ser reduzido a um meme, um clipe polêmico ou um símbolo de “ódio vs. devoção” em questão de horas. E, por causa disso, muitos acabam sendo consumidos por depressão e outros transtornos, levando muitos, fatalmente, a tirar a própria vida.

A série Meu Ídolo expõe essa máquina implacável que nunca se importa em ver o ser humano, cansado, isolado e sujeito a erros. É um lembrete brutal de que, quando se transforma um ser vivo em produto midiático, espera-se que ele dê sempre satisfação e que toda sua complexidade como pessoa fique aprisionada em si; só assim ele será admirado e consumido, e, a partir disso, muitas vezes ignorado no instante em que não cumpre o papel que o público ou a máquina esperam dele.

Os Acertos de Meu Ídolo

Meu Ídolo acerta na química entre os protagonistas e ao mostrar suas facetas como pessoas reais, que, apesar do que se espera, não são perfeitas.

Se-na, a princípio, corre para se oferecer como defensora de Ra-ik, mas se depara com seu ídolo desmanchado, arrasado e furioso à sua frente. Um ídolo que ofende e joga ódio sobre suas fãs, que invadem sua vida agressivamente. Ela se assusta e fica em dúvida sobre a pessoa por trás da fama, se perguntando se tudo o que ele mostrava era real ou apenas um personagem, sentindo-se mal até mesmo por sua devoção a ele.

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Por outro lado, temos um Ra-ik já destruído, que foi assediado e perdeu um amigo, tudo em pouco tempo, o que o consome e o faz explodir em um momento crítico, onde se espera dele a mesma perfeição de sempre.

A série não erra aqui, já que deixa claro que Ra-ik não odeia suas fãs ou o que batalhou para conquistar, mas que o que ele não suporta é a pressão advinda disso, as expectativas que tudo e todos colocam sobre ele, e a incapacidade de até mesmo querer impor limites sobre sua privacidade.

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Outro acerto é a dualidade do personagem secundário, o promotor Kwak Byeong Gyeon, vivido por Jeong Jae-kwang. O promotor se sente pressionado entre fazer seu nome e seguir os passos de seu pai, ou agir com imparcialidade e executar a verdadeira investigação e justiça.

Essa dualidade é bem trabalhada e nos faz até mesmo sentir certa simpatia por Kwak, apesar de seus métodos e comportamento ao longo da trama.

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O que poderia ser melhor?

Como o enredo precisa andar e manter o suspense sobre o crime, Meu Ídolo deixa de explorar ainda melhor a psicologia de Ra-ik, que certamente não é tão simples de ser ignorada por ele e por Se-na.

A série pincela bem quando mostra o passado e tudo o que Ra-ik teve de abrir mão para não sujar sua imagem e a de outros, porém haveria espaço para ir além e mergulhar mais nas engrenagens da indústria e em como isso destrói o emocional e as relações de um idol.

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A relação entre Ra-ik e sua ex-namorada Hong Hye Ju, interpretada pela atriz Choi Hee-jin, também poderia ser melhor desenvolvida, assim como o motivo de seu rompimento. Não é difícil ver superficialidade nessa relação fracassada que a série tenta vender como algo que marcou Ra-ik negativamente.

O mesmo vale para a péssima mãe do protagonista, que vende o filho para a indústria desde cedo e se mostra constantemente afoita por dinheiro. Não há um desenvolvimento dessa mulher, nem uma explicação para sua motivação pérfida, o que a torna apenas uma figura caricata.

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Mas, apesar dos defeitos, a obra é ótima para expor a corrosão emocional que uma pessoa sofre ao ter que se mostrar sempre irrepreensível, se anular e dar aos que o idealizam apenas o que eles desejam: um deus perfeito.

Vale a pena assistir Meu Ídolo?

Vale mais que a pipoca: vale a reflexão sobre como estamos consumindo esses idols, ainda mais com essa onda coreana mundial.

Não é raro sermos surpreendidos com manchetes sobre suicídio de jovens que, aparentemente, estavam bem.

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Meu Ídolo nos faz ver com ainda mais clareza como a máquina de produzir “jovens perfeitos” funciona e como ela os massacra com regras, imposições e silenciamento.

Tudo isso apoiado por um fanatismo que ignora o direito à privacidade alheia e ignora o fato de que, apesar de idols, eles são, acima de tudo, humanos.

E você, já parou para pensar em como seu ídolo se sente por trás da fama?

Nota: 3,5 de 5

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