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Oscar 2026: Review de Sirat - O filme que atravessa o deserto e esquece por quê

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Sirat chegou ao circuito com Palma de Cannes no bolso, fotografia de tirar o fôlego e um desenho de som que você sente no peito. E por um bom tempo, entrega tudo isso. O problema é o que vem depois.

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O início de Sirat

Sirat começa bem. Melhor do que bem. O universo construído por Oliver Laxe nos primeiros minutos é denso, vivo e cheio de textura, o tipo de cinema que te agarra pela gola antes que você perceba que está sendo agarrado. A fotografia em Super 16mm tem uma granulação que parece sujeira real, calor real, perigo real. O desenho de som é absurdo no melhor sentido: você ouve o deserto como se estivesse dentro dele.

Mas nem tudo é um mar de rosas; longe disso, o filme constrói com maestria um grande início, mas opta por “explodir” demais as coisas.

Trailer Oficial

Enredo de Sirat

O filme acompanha um pai e seu filho numa busca desesperada pela filha e irmã desaparecida há cinco meses no Marrocos. A procura os leva a uma festa eletrônica no deserto onde, dizem, ela pode estar. Lá, eles cruzam com uma trupe improvável: corpos queer, pessoas com deficiência, cabelos coloridos, expressões exageradas, toda uma constelação de dissidência reunida numa celebração no meio do nada.

O encontro poderia ter sido tenso. Acaba sendo uma aliança. Quando o exército marroquino chega para encerrar a festa alegando proteger o povo europeu, os dois grupos fogem juntos da fila de revista e descobrem que compartilham o mesmo destino: existe uma outra festa, mais funda no deserto, e a filha desaparecida pode estar lá.

Um festival de dança e eletrônica. No meio do deserto. O que poderia dar errado, né?!
Um festival de dança e eletrônica. No meio do deserto. O que poderia dar errado, né?!

O que se forma daí não é exatamente uma família de sangue, mas é uma família. Pai, filho, festeiros dissidentes, todos atravessando juntos um deserto que o rádio já anunciou como palco da Terceira Guerra Mundial. As diferenças ficam de lado. O que une é simples e urgente: chegar lá. Sobreviver. Encontrar quem se perdeu.

E é aqui, nessa construção, que Sirat mostra do que é capaz. A aproximação entre os grupos acontece de forma orgânica, sem forçar lição de moral, sem discurso. O filme deixa o afeto surgir naturalmente do perigo compartilhado, e por um bom tempo isso funciona com uma delicadeza que surpreende.

A partir daqui, o artigo entra em território de spoilers. Se você ainda não viu Sirat e quer chegar sem saber o que acontece, salve esse texto para depois.

Próxima vez que você for num techno, avisa por seu pai, menina!!
Próxima vez que você for num techno, avisa por seu pai, menina!!

Quando soltamos o freio de mão

O filme reforça algumas vezes, com falas e cartelas, que o deserto é o lugar mais perigoso onde se poderia estar. Os primeiros desafios já demonstram que os festeiros estão preparados para a aventura, o pai e o filho, não tanto. A criança em questão parece ter pulado a aula sobre "como sobreviver num deserto em colapso geopolítico" e o filme cobra isso com uma brutalidade que pega o espectador completamente desprevenido.

A morte do filho é o divisor de águas do filme, e deveria ser. É o tipo de perda que reorienta tudo, que faz a câmera, os personagens e o próprio espectador precisarem respirar diferente. Em tese, é aqui que Sirat poderia aprofundar o que estava construindo: o que resta da ideia de atravessar qualquer deserto pela família quando a família começa a desaparecer?

É uma pergunta boa. É uma pergunta que o filme decide não responder. Em vez disso, Sirat resolve que o luto é menos interessante do que um campo minado. E aí começa o problema.

Uma aproximação improvável
Uma aproximação improvável

Caos não é argumento

Existe uma defesa legítima para o que Laxe faz no terceiro ato. Parte do público que saiu satisfeito do cinema fala em radicalidade, em desprendimento narrativo, num cinema que recusa a lógica de causa e efeito porque a guerra também recusa. O argumento existe e não é idiota.

Mas existe uma diferença entre caos intencional, aquele que tem propósito e desestabiliza para dizer algo, e caos que é abandono com roupagem de ousadia. Quando os personagens aparecem num campo minado sem nenhuma preparação narrativa, quando a maior parte deles morre num acúmulo de desgraças que parece gerado aleatoriamente, e quando um trem surge do nada para salvar quem sobrou, o filme não está sendo radical. Está sendo omisso.

O trem merece menção especial. Nunca foi mencionado. Nunca foi preparado. Aparece como solução para um problema que o próprio roteiro criou, e isso tem nome: deus ex machina. É o recurso de quem ficou sem saída e decidiu torcer para o público não perceber.

O resultado é que o terceiro ato transforma o filme numa espécie de "salve-se quem puder" narrativo, o que é uma mensagem curiosamente cruel para uma história que passou dois atos inteiros construindo o valor do coletivo, da travessia compartilhada, do afeto que surge no meio do perigo.

Um campo Minado? Sério?
Um campo Minado? Sério?

Vale a pena assistir Sirat?

A sensação que resta é de um filme incompleto. Não no sentido de que faltaram cenas, mas no sentido de que faltou coragem para terminar o que começou. Sirat tem os elementos de uma obra poderosa: direção com personalidade, técnica impecável, uma proposta emocional e política que funciona enquanto o roteiro a sustenta. O problema é que, em algum ponto do terceiro ato, o roteiro largou o volante.

Fica o desenho de som. Fica a fotografia. Fica a sensação de ter visto algo que poderia ter sido muito bom, e que escolheu ser apenas… barulhento.

E aqui peço licença ao júri de Cannes, porque claramente faltou uma nota de rodapé para acompanhar essa palma de ouro.

Nota: 2 de 5

E você, conseguiu atravessar o terceiro ato sem querer pedir reembolso emocional?

Achou o campo minado genial ou também ficou esperando uma explicação que nunca veio? Conte nos comentários!

Até a próxima!