Sobre Sentimental Value
Selecionado para alguns dos festivais mais importantes do circuito internacional e recebido com respeito pela crítica, ainda que com respostas divididas do público, Sentimental Value chega à temporada de premiações sustentado menos por impacto emocional e mais por prestígio autoral.
O diretor retorna ao território que o consagrou: relações familiares quebradas, personagens incapazes de se comunicar e uma mise-en-scène construída a partir do silêncio.
A promessa parece ser a de um drama íntimo sobre reconciliação e memória. Mas a pergunta que lentamente se impõe é outra: O que acontece quando um filme fala tanto sobre sentimentos… sem realmente senti-los?

Trailer
O enredo
Depois da morte da mãe, um pai ausente tenta se reconectar com suas duas filhas, uma atriz decadente da qual o pai nunca assistiu a uma apresentação e uma mãe de família que se dedica a cuidar do filho e do marido, ao qual o homem nem lembra o nome do neto e do cunhado.
Gustav Borg (interpretado por Stellan Skarsgård) é um diretor de cinema. Viveu com a esposa por alguns anos da infância de suas filhas, até que se separaram e desde então passou a ser uma sombra e somente uma sombra na vida dessas filhas. Gustav priorizou sua carreira como cineasta, fez filmes e até levou as filhas para atuar em alguns desses, quando ainda estava junto com a esposa. Mais tarde, isolou-se das filhas, só as vendo em momentos “importantes” quando não estava rodando um filme ou num festival de cinema.
A premissa do filme de fato começa quando o pai decide, após alguns anos sem fazer filmes, gravar um projeto do qual quer que a filha atriz, Nora Borg (brilhantemente interpretada por Renate Reinsve, que também foi protagonista de The Worst Person in the World, último filme do diretor), e o neto, filho de Agnes (interpretada por Inga Ibsdotter). As duas se recusam a dar atenção para o pai, que, ao ser recusado, decide seguir com o filme mesmo assim.

A metáfora da parede branca
A principal decadência vem da direção do filme. Existe um gesto bonito aqui presente do diretor buscar o que chamamos no cinema de “subtexto”, aquilo que não é dito, mas é entendido. No último filme do diretor, vencedor de Cannes, o grande ponto forte do filme reside nisso, nos silêncios, naquilo que a personagem pensava, mas não dizia, só que o público entendia.
O problema aqui é o excesso. O filme se esforça tanto em tentar não falar que acaba ficando muito vazio. O irônico é que aqui prevalece essa metáfora do vazio, os excessos estão em cenas exaustivas de paredes brancas, cômodos vazios, personagens olhando para o nada em silêncio. É compreensível objetivar não ser claro com suas mensagens, mas quando nada é dito, é possível interpretar que nada se tem a dizer.

Pontos Fortes
Se algo mantém Sentimental Value de pé, é o elenco. Renate Reinsve reafirma a força dramática que já havia demonstrado anteriormente, construindo uma personagem ferida que oscila entre dureza e desejo infantil de aprovação. Inga Ibsdotter oferece um contraponto delicado, ancorado na vida cotidiana e na tentativa silenciosa de preservar alguma estabilidade emocional.
E há ainda Elle Fanning, em um movimento quase irônico: uma atriz tão naturalmente expressiva que até para interpretar a artificialidade de uma “má atriz” precisa esconder a própria competência. O jogo metalinguístico funciona, criando momentos de estranhamento genuíno dentro de um filme que, por vezes, parece imóvel demais.
São essas presenças que sugerem a emoção que o roteiro insiste em conter. Mesmo quando o filme se fecha em seus próprios silêncios, os atores deixam escapar, nas brechas, tudo aquilo que nunca é dito.

O cinema de pai ausente e a questão geracional
Ficou mais que claro que o Oscar desse ano (e talvez não só ele, mas todas as premiações importantes) está numa guinada de falar dessas figuras mais velhas, dos pais que foram homens ausentes e que falharam na criação de seus filhos, mas que mais tarde querem se redimir.
É compreensível como pode ser importante e relacionável para pessoas das gerações passadas que você possa perdoar alguém que lhe machucou a vida toda e que nem ao menos sabe dizer “desculpas”. O gesto do filme imita uma questão geracional aqui, aquela de tentar traduzir em ações ou grandes gestos, sentimentos que não conseguem expressar em palavras.
Felizmente, na nova geração há novas objetivações, centradas em desenvolvimento pessoal e coletivo, e a chave disso se relaciona com comunicação. Honestamente, é revoltante ver uma redenção de um homem que em nenhum momento objetiva em sua fala arrependimento, remorso ou até mesmo o desejo de perdão.
Mais do que isso, é agonizante ver uma filha ansiando pela aprovação do pai, aprovação que não chegará nunca e que no máximo será traduzida em mais uma cena de casa vazia, de silêncios, quando tudo que se precisava ouvir são palavras.

Sem palavras e sem perdão
Sentimental Value é um mosaico de ausências, um retrato deprimente de abandono parental, de desconexão emocional e de conflito geracional.
A conciliação aqui é forçada, e não há necessidade de medir palavras para dizer que é decadente e egocêntrico. Aqui, o próprio filme perdoa o pai ausente porque, em algum lugar, grita que também quer ser perdoado. Mas só pode receber perdão quem pede por ele.
Nota: 2 de 5
E você, o que achou do filme?
Eu, particularmente, fiquei com medo de o MEU PAI ser o próximo a fazer um filme ego trip. Até a próxima!











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