Entre vaias em Cannes, elogios exagerados e batalhas de fandoms online, alguns títulos se tornaram verdadeiros campos de guerra estética e emocional. De clássicos incompreendidos a hits polêmicos do streaming, reunimos 10 filmes que deixaram o público se perguntando: será que a gente viu o mesmo filme? Sem mais delongas:
Lista de Filmes
Joker: Folie à Deux (2025)
Dirigido por Todd Phillips e coescrito por Scott Silver, o novo Joker leva o universo sombrio do vilão a um musical psicológico estrelado por Joaquin Phoenix e Lady Gaga. A proposta audaciosa mistura estética teatral, musical e delírios mentais, transformando Gotham em um palco de obsessões e colapsos.
Mas, antes mesmo da estreia, o filme já dividia o público. Para alguns, uma ousadia artística rara em Hollywood; para outros, puro narcisismo autoral. O debate tomou conta das redes, entre quem via genialidade na mistura de gêneros e quem enxergava um espetáculo de autoparódia e pretensão.

Mother! (2017)
Escrito e dirigido por Darren Aronofsky, o filme traz Jennifer Lawrence e Javier Bardem em uma fábula surreal sobre criação, destruição e religião. Uma alegoria ambiciosa que transforma a casa em metáfora do planeta, e a protagonista em mãe-natureza, musa e mártir.
Exibido em Veneza sob vaias, Mother! virou símbolo da polarização moderna no cinema: uns viram uma obra-prima visionária, outros uma experiência insuportável. Acusado de pretensão e misoginia, Aronofsky defendeu o filme como “poesia visual”. Até hoje, poucos concordam sobre o que, afinal, ele quis dizer.

Star Wars: The Last Jedi (2017)
Sob o comando de Rian Johnson, The Last Jedi rompeu com as fórmulas clássicas da saga. O roteiro ousou frustrar expectativas: o herói não salva o dia, o vilão tem dúvidas e a Força ganha novas interpretações. Foi o episódio mais autoral desde o original de 1977.
Mas o fandom não perdoou. Acusado de “trair” o legado de George Lucas, o filme provocou reações furiosas, campanhas de ódio e discussões sobre toxicidade nas comunidades de fãs. Ao mesmo tempo, críticos o celebraram como o mais maduro e imprevisível da franquia. A galáxia ficou realmente dividida.

Zack Snyder’s Justice League (2021)
Após ser afastado da produção original, Zack Snyder retomou o controle criativo e lançou sua versão definitiva de Justice League. Com quatro horas de duração, o novo corte reconfigura a narrativa, aprofunda personagens e entrega o épico que os fãs sempre imaginaram.
O resultado foi um fenômeno cultural e um campo minado: seria o triunfo da visão de um autor ou o poder tóxico dos fandoms online? O Snyder Cut virou símbolo de como as redes podem reescrever o destino de um blockbuster e de como a autoria, em tempos digitais, nunca é simples.

Fight Club (1999)
Dirigido por David Fincher e baseado no romance de Chuck Palahniuk, o filme transformou o tédio masculino moderno em manifesto visual. Edward Norton e Brad Pitt encarnam um duelo entre consumo e caos, identidade e niilismo. Inicialmente ignorado, o filme renasceu como ícone cult nos anos 2000.
Mas a ironia saiu pela culatra: muitos fãs interpretaram literalmente o que deveria ser crítica. O que era sátira virou manual de masculinidade agressiva. O próprio Fincher já disse que “as pessoas entenderam o oposto do que eu quis dizer”. Um filme sobre alienação… alienado por seu próprio público.

Crash (2004)
Escrito e dirigido por Paul Haggis, Crash reuniu um elenco estrelado por Sandra Bullock, Don Cheadle e Matt Dillon para retratar as tensões raciais e morais de Los Angeles em um mosaico dramático. Lançado discretamente, o filme surpreendeu ao vencer o Oscar de Melhor Filme em 2006.
Mas essa vitória virou uma das mais controversas da história do prêmio. Muitos viram o filme como uma fábula rasa sobre racismo, feita para confortar o público branco. Outros o defenderam como retrato honesto de uma América fragmentada. Até hoje, Crash é lembrado tanto por suas intenções quanto por suas limitações.

The Blair Witch Project (1999)
Dirigido por Daniel Myrick e Eduardo Sánchez, esse falso documentário de terror redefiniu o marketing e o gênero de horror independente. Com orçamento mínimo e câmeras amadoras, o filme fez o público acreditar que era real e virou fenômeno cultural.
Mas o sucesso veio acompanhado de dúvidas: seria genial ou apenas um truque? Críticos questionaram se o medo vinha da proposta ou da campanha publicitária. Mesmo assim, The Blair Witch Project inspirou toda uma geração de cineastas e provou que o que não se vê assusta ainda mais.

Antichrist (2009)
Escrito e dirigido por Lars von Trier, estrelado por Charlotte Gainsbourg e Willem Dafoe, Antichrist é uma descida ao inferno do luto e da culpa. Um conto simbólico que mistura filosofia, erotismo e violência com uma estética hipnótica e cruel.
O filme foi vaiado e aplaudido em Cannes, banido em alguns países e dissecado por críticos e feministas. Uns o chamaram de misógino, outros de corajoso. Antichrist transformou sofrimento em espetáculo e o espectador em cúmplice, um dos debates mais intensos sobre os limites da arte.

The Whale (2022)
Dirigido por Darren Aronofsky (já citado nessa lista, vemos que ele gosta de polêmica, né?!) e roteirizado por Samuel D. Hunter, o filme traz Brendan Fraser em uma das atuações mais comentadas da década. Um professor recluso, lutando contra a obesidade e a culpa, tenta se reconectar com a filha antes que seja tarde.
Mas o drama virou centro de uma discussão sobre gordofobia e representação. Parte do público viu humanidade e empatia; outra parte enxergou fetichização do sofrimento. O filme dividiu jurados, jornalistas e ativistas, provando que a sensibilidade de um olhar depende de quem segura a câmera.

Girl (2018)
Escrito e dirigido por Lukas Dhont, o filme conta a história de uma jovem trans que sonha em ser bailarina, interpretada por um ator cis. A fotografia delicada e o realismo europeu renderam prêmios em Cannes e elogios entusiasmados da crítica.
Mas o entusiasmo logo virou incômodo. Pessoas trans denunciaram a forma como o filme retrata o corpo e o sofrimento da protagonista, acusando Dhont de fetichização e apagamento. Girl se tornou símbolo do debate sobre transfake (quando alguém cisgênero interpreta alguém transgênero), e um lembrete de que a empatia cinematográfica tem limites éticos.

Conclusões
O cinema é feito de contradições, e talvez por isso continue vivo. Cada um desses filmes mostra que não existe consenso quando se fala de arte. Existem apenas fricção, desejo e perspectiva.
Entre vaias e aplausos, o público segue dividido, mas uma coisa é certa: se um filme causa tanto debate, é porque ele tocou em algo real, nem que seja o nosso ego cinéfilo.
Até o próximo artigo!











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