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Análise de Algo Horrível Vai Acontecer: A Festa Que Pode Virar Um Velório

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Uma obra de suspense com boa fotografia, momentos de humor, personagens interessantes, história que prende e, acima de tudo, um monte de simbologias sobre casamento para olhos mais atentos.

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revisado por Tabata Marques

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Sobre Algo Horrível Vai Acontecer

Algo Horrível Vai Acontecer (Something Very Bad Is Going to Happen) foi anunciado pela Netflix com um trailer que, de cara, já não revelava muito sobre do que exatamente se tratava a série, e isso pode ser tanto positivo como negativo. Para pessoas mais apaixonadas por suspense, é um acerto; para os mais ansiosos, pode afastar.

A obra foi criada por Haley Z. Boston, dirigida por Weronika Tofilska, Lisa Brühlmann e Axelle Carolyn, sendo Weronika Tofilska diretora de quatro episódios de Bebê Rena. A produção é por conta dos irmãos Duffer, que aqui, felizmente, não se meteram na direção ou roteiro, um alívio perto do final horripilante, no mal sentido, de Stranger Things.

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No elenco traz os atores Camila Morrone, Adam DiMarco, Jennifer Jason Leigh, Zlatko Burić, Ted Levine, Gus Birney e Karla Crome.

A história parte de uma premissa simples: Rachel (Camila Morrone) e Nicky (Adam DiMarco) são um casal na véspera de seu casamento que está em viagem para a casa da família dele. Uma residência isolada na floresta para uma cerimônia íntima. Porém, eventos sinistros começam a ocorrer desde a viagem, fazendo com que a paranoia e ansiedade de Rachel a façam questionar se está se casando com a pessoa certa.

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Casamento Como Luto

Além do clima sombrio da casa e dos familiares tão estranhos que fazem com que Rachel, e o próprio público, se perguntem sobre as reais intenções daquela família, a série nos presenteia com um clima desconfortante tanto pela fotografia, pelos cortes rápidos, quanto pela constante sensação de que algo horrível realmente vai acontecer dentro daquela casa cercada por floresta e neve.

No entanto, à parte disso, temos simbologias que fazem a série se tornar mais rica para quem se interessa pelo tema, e tudo começa já pelo fato de Rachel estar estudando para se tornar terapeuta. Aqui já reside uma grande ironia, tendo em vista que a personagem carrega traumas familiares tão grandes que a tornaram uma pessoa paranoica.

Na outra ponta, temos Nicky, o filho "perfeito" que a mãe narcisista criou em uma redoma tão protetora que o faz crer que o casamento dos pais é perfeito e que certamente terá o mesmo tipo de união com Rachel.

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O que já é um questionamento por si só, afinal, como a união de opostos tão grandes pode ser "perfeita"? Nicky é tão superprotegido que, mesmo diante do óbvio, fecha os olhos para a realidade apenas para manter sua ideia de "perfeição".

Outro detalhe que parece intrínseco na série é como os temas casamento e morte estão atrelados.

Muitas de nossas tradições nos casamentos são de ritos funerários, porque a união primitiva era celebrada assim, incluindo o fato de que algumas tradições nupciais derivam dos tempos em que os casamentos eram raptos, sendo os raptores o padrinho e seus amigos. É comum que muitas noivas chorem no dia de suas bodas, como se instintivamente soubessem que ali morre a donzela dentro delas, para que a esposa, e futuramente mãe, tome o lugar.

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Então, faz muito sentido que a morte esteja tão presente, ainda que não apenas psicologicamente, ao redor de Rachel, até porque, logo no início, é deixado claro que esse não era o sonho da jovem e que ela aceitou o pedido para fazer Nicky feliz. Duas partes de Rachel vão morrer psicologicamente: a donzela e seu eu que se cala para satisfazer a vontade do outro.

Para coroar toda essa pressão, a mulher ainda precisa lidar com vários fatores sobrenaturais que a estão cercando rumo a um desfecho trágico.

Alma Gêmea

Outro acerto da série é brincar com a ideia de alma gêmea, guiando primeiro a nos vender a ideia de um ser predestinado ao outro.

Será que realmente existe essa pessoa? Será que Rachel escolheu certo?

Para nós, pode parecer de cara que, obviamente, Nicky não é o par perfeito para Rachel. São totais opostos. Ela deseja coisas que ele não compartilha, mas cede porque vê sinceridade e sente confiança nele.

E aí está a sacada de Algo Horrível, ao nos levar a entender que alma gêmea não é alguém que se encaixe perfeitamente conosco. É algo muito além de gostos ou personalidades parecidas. Tem a ver com lealdade, confiança. Querer acreditar que aquela pessoa é a certa para você, mesmo quando tudo parece negar.

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Ao mesmo tempo que ela nos faz questionar o relacionamento de Rachel, assim como a própria o faz, a obra nos entrega um casal que, mesmo em sua clara imperfeição, está em sintonia. Jules, irmão de Nicky, e sua esposa Nell, ex-namorada de Nicky, vivem um casamento cheio de agressões verbais e verdades cruéis, porém, eles se apoiam, acreditam um no outro e, justamente por isso, por não esconderem seus defeitos e não terem medo da honestidade, escolheram ser a "alma gêmea" um do outro.

Há também as múltiplas visões do que faz com que um casamento dê, ou não, certo, e isso é exposto no jantar pré-casamento oferecido a Rachel e Nicky.

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Ali temos dezenas de casais contando suas experiências e, do nosso lado, nos escandalizamos ao ver que, em certos casos, aquelas pessoas jamais deveriam estar juntas, nos fazendo questionar o real "segredo da felicidade" pregado por tantos casais.

Não à toa há um momento de virada nas convicções de Rachel justamente nesse episódio.

Desistência de Si Mesma

Ceder em alguns momentos do relacionamento é algo natural, afinal, ser humilde é necessário em qualquer relação humana.

Porém, o arco de Rachel nos retrata o quanto ela estava disposta a abrir mão de si mesma, até para salvar a família de Nicky, família essa que, com poucas exceções, lhe mostrou qualquer respeito.

Na última hora, em uma atitude desesperada, a jovem abre mão de sua saúde física para que os familiares do noivo não sofram. Tudo porque ela acreditava, confiava em Nicky e no amor que ele dizia sentir por ela.

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Rachel chega a verbalizar que está disposta a se tornar uma mulher submissa se isso deixar a ela e ao noivo em segurança. Ela afirma que Nicky não se tornaria um marido abusivo porque ela o conhece, conhece sua bondade.

A questão é: conhece mesmo?

Mesmo diante da descoberta de que Nicky mentiu no momento em que se conheceram, mesmo quando ele deixa óbvio que duvida dos temores de Rachel, ela ainda está disposta a se sacrificar.

Quantos paralelos podemos fazer sobre esse detalhe da série? Quantas pessoas, dentro de um relacionamento fadado ao fracasso, não conhecemos? Pessoas essas que aceitam renunciar a si mesmas, acreditando que, no "final", tudo vai ficar bem?

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Armadilha de Raposa

Algo Horrível tem ainda outro mérito: ela não enrola para chegar ao ponto e revelar de uma vez o que de fato está acontecendo com Rachel.

E nesse momento podemos até duvidar que ela terá fôlego para nos manter interessados até o episódio final. Mas ela tem muito fôlego.

E a sensação crescente de que Rachel não vai conseguir evitar que algo ruim aconteça se mantém firme até o último capítulo, que nos entrega a queda de todas as máscaras e verdades que Rachel preferiu não ver.

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A jovem estava presa a uma armadilha e, até o último segundo, torcemos para que ela não seja morta enquanto se debate para fugir.

...E não vou contar o desfecho, fiquem tranquilos. Apenas vou dizer que vale a pena cada segundo até o desfecho e os créditos finais.

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Vale a pena assistir Algo Horrível Vai Acontecer?

Vale, vale muito.

Eu comecei a série achando que não seria nada demais, dado o trailer que pouco explicou. Mas ela me prendeu do início ao fim.

Seja pelo clima, pelo bom desenvolvimento do suspense, pelos personagens interessantíssimos, até mesmo os mais odiáveis, seja para ver a conclusão, se de fato algo horrível ia acontecer.

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Os oito episódios passaram voando e não senti tédio em nenhum momento. Mas vale ressaltar que o fator simbólico foi o que me prendeu.

Então, se você gosta desse tipo de história que é mais do que as cenas mostram, indico demais.

Nota: 4,5 de 5

E você, tem um bom sexto sentido para cair fora quando tudo aponta para que algo horrível vai acontecer ou prefere ficar e descobrir se era só coisa da sua cabeça?

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