Sobre Sonhos de Trem
Sonhos de Trem (em inglês, Train Dreams) é um filme de drama norte-americano, que estreou na Netflix em 21 de novembro de 2025. Baseado no livro homônimo do escritor americano Denis Johnson, o longa retrata a vida de um trabalhador comum durante a expansão das ferrovias no início do século XX nos EUA.

Dirigido por Clint Bentley, que também assina o roteiro junto a Greg Kwedar, conhecidos pelo premiado filme Sing Sing (2023). Estrelam o elenco Joel Edgerton, Felicity Jones, Kerry Condon, William H. Macy e Will Patton.
Um dos grandes fenômenos da Netflix em 2025, o filme chega à temporada de premiações de 2026 como um dos favoritos ao Oscar. Fazendo história com a vitória inédita do brasileiro Adolpho Veloso, que conquistou o prêmio de Melhor Fotografia no Critics Choice Awards.
Além de acumular mais de 120 indicações em diversas premiações, com destaque para o Globo de Ouro, onde concorre nas categorias de Melhor Ator em Filme de Drama pela performance de Joel Edgerton e Melhor Canção Original pela faixa “Train Dreams”, uma colaboração entre Nick Cave e Bryce Dessner.

Sinopse
Robert Grainier é um trabalhador braçal que ganha a vida na expansão das ferrovias e na indústria madeireira do oeste americano. Em meio a um país em rápida transformação industrial, Grainier enfrenta uma tragédia devastadora que o deixa em isolamento profundo.
O longa narra sua jornada de décadas através das florestas de Idaho, onde ele lida com o luto, a solidão e a passagem inexorável do tempo, tornando-se uma testemunha silenciosa do fim da era das fronteiras americanas.
Trailer Oficial
Sobre o Livro que inspirou o filme
O livro foi publicado originalmente em 2002 como uma novela e relançado em 2011, e é considerado uma das obras-primas de Denis Johnson, aclamado pela crítica e finalista do prêmio Pulitzer.
O autor utiliza uma prosa minimalista e poética, condensando quase 80 anos de história em pouco mais de 100 páginas, capturando o desaparecimento do "Velho Oeste" e o nascimento da América moderna.

A história acompanha Robert Grainier, um homem comum e taciturno que vive no Oeste americano entre o final do século XIX e meados do século XX.
A jornada de Grainier começa com sua chegada ao Idaho ainda criança, um órfão a bordo de um trem cuja imagem solitária reverbera por toda a sua trajetória. Criado em um mundo de esforço bruto, ele molda sua juventude entre o trabalho árduo como lenhador e a expansão das ferrovias, ajudando a construir as veias de um país em transformação.

No entanto, o curso de sua vida é permanentemente alterado por uma tragédia avassaladora: um incêndio florestal catastrófico que reduz seu lar a cinzas e leva consigo sua esposa, Gladys, e sua filha, Kate. O que resta a Grainier é uma existência marcada pela solidão profunda nas montanhas, onde ele transita entre o papel de um homem comum e uma figura quase mítica.
Ao longo das décadas, ele testemunha a transição do Velho Oeste para a modernidade tecnológica, enquanto convive com o luto, a natureza selvagem e as lendas locais, como a enigmática "menina-lobo", fundindo sua própria história à paisagem que o rodeia.
Diferenças entre o Livro e o Filme
Apesar do filme ser uma adaptação fiel, existem algumas nuances:
- Fidelidade Visual: O filme utiliza a fotografia de Adolpho Veloso para traduzir a obra de Johnson em imagens vastas e melancólicas.
- Foco Narrativo: Enquanto o livro salta no tempo através de vinhetas curtas, o filme foca mais na continuidade emocional do luto de Grainier.
- Trilha Sonora: O som dos trens é o "fantasma" que dita o ritmo no filme, e a trilha de Nick Cave e Bryce Dessner dá voz a esse sentimento.
Contexto Histórico e Avanço Tecnológico
O filme utiliza a vida de Robert Grainier para mostrar a transformação radical dos Estados Unidos entre o final do século XIX e meados do XX. Sendo ambientada no isolado noroeste Americano, região de Idaho e Spokane, a narrativa mostra a expansão ferroviária não como um épico, mas como um catalizador de destruição ambiental e trabalho exaustivo que tornou homens rudes em peças obsoletas de uma engrenagem industrial.

Esse cenário de progresso é manchado por tensões sociais profundas, como a violência e exclusão contra imigrantes chineses, essenciais na infraestrutura do país, mas marginalizados pela sociedade da época.
A narrativa mergulha na brutalidade do cotidiano dos madeireiros itinerantes, cuja sobrevivência era ameaçada não apenas por acidentes de trabalho, mas pela fúria da natureza. O ápice desse perigo é representado pelo O Grande Incêndio (Big Burn) de 1910, o maior incêndio florestal da história americana, que devastou Idaho e Montana. Impulsionado por secas e ventos furiosos, o desastre serve como metáfora para a fragilidade da vida diante de um mundo em transformação acelerada.

O contexto histórico ressalta o choque geracional: Grainier testemunha a transição da era das carroças e ferramentas manuais para a conquista da Lua, evidenciando o estranhamento de uma geração que viu o "Velho Oeste" desaparecer sob a velocidade da modernidade tecnológica.
Análise Pessoal

Sonhos de Trem não é apenas um filme, é um suspiro longo e dolorido sobre o que significa estar vivo e, eventualmente, ser esquecido. A Netflix acertou ao apostar nessa adaptação, que trata o luto e a solidão com tanta delicadeza.
A atuação de Joel Edgerton é tão honesta que é possível sentir empatia pelo sofrimento de Robert, nos fazendo refletir sobre como a perda nos molda. Muitas vezes, o luto profundo não é feito de gritos, mas de um vazio silencioso que se carrega nos ombros enquanto a vida exige que continuemos. A fotografia de Adolpho Veloso nos permite sentir a solidão do protagonista em meio à imensidão de uma natureza bela, porém distante, que reflete sua melancolia interna.

As lembranças de Gladys e Kate surgem como brasas que ainda aquecem o peito. É o retrato de que quem amamos permanece em nós, transformando o vazio da perda em uma presença fantasmagórica, mas necessária.
Ver o mundo de Robert ser transformado pela chegada dos trens enquanto ele permanece estático em sua tristeza funciona como uma metáfora poderosa sobre o fim de uma era e a persistência do espírito.
É um filme sobre continuar caminhando em silêncio quando o mundo ao redor já não faz mais sentido, deixando uma marca sensível em quem se permite mergulhar em seu ritmo contemplativo.
Recepção da crítica e do público
A recepção do filme tem sido extraordinária, consolidando o filme como um dos marcos cinematográficos de 2025, refletida em tantos prêmios e indicações.
Rotten Tomatoes: 95% de aprovação em 223 avaliações dos críticos e 90% de aprovação em mais de 50 avaliações do público.
IMDb: 7,5/10 de 45 mil avaliações.
Letterboxd: 4,1/5 (estrelas) de 267 mil avaliações.
Vale a pena assistir Sonhos de Trem?

Assistir a Sonhos de Trem é um convite para quem busca uma experiência que vai além do entretenimento, sendo a escolha ideal para quem valoriza o cinema contemplativo e histórias que dão voz ao silêncio.
Vale a pena dedicar seu tempo a esta obra pela forma com que ela transforma o luto em poesia visual, oferecendo um conforto a qualquer um que já tenha sentido o peso da saudade ou a solidão.
É uma oportunidade rara de ver uma atuação sensível e poderosa de Joel Edgerton, transmitida por uma fotografia que é pura arte. É um filme 10/10, indispensável para quem deseja refletir sobre a persistência humana e a beleza contida nas memórias que o tempo não consegue apagar.
Até a próxima!












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