Sobre o Documentário Influencer do Mal
Influencer do Mal: A História de Jodi Hildebrandt (Evil Influencer: The Jodi Hildebrandt Story) foi lançado pela Netflix em dezembro de 2025. Dirigido pela cineasta Skye Borgman, a produção expõe um caso real e brutal que aconteceu nos Estados Unidos envolvendo a terapeuta Jodi Hildebrandt e a influenciadora digital Ruby Franke, duas pessoas que, apesar dos diferentes caminhos, conquistaram fama e respeito antes de cometerem um crime hediondo.

Skye Borgman foi a pessoa perfeita para dirigir esse documentário, já que é diretora de fotografia americana e especializada em documentários de investigação e true crime. É reconhecida internacionalmente pela maneira como transforma histórias reais em obras que forçam o espectador a confrontar os horrores sobre abuso, identidade e confiança.
Entre os trabalhos de Borgman estão os documentários My Father, The BTK Killer, Sins of Our Mother e Abducted in Plain Sight, todos pela Netflix.

Mas, apesar da experiência da diretora, alguns críticos destacam que, embora a produção seja impactante e mostre cuidadosamente os fatos, não chega a penetrar tão profundamente quanto poderia nos mecanismos sociais que permitem que figuras como Hildebrandt ganhem tanto poder. A discussão sobre responsabilidade das plataformas, a psicologia por trás do culto à imagem e a própria responsabilidade do público são temas que, embora pincelados, poderiam receber uma análise mais profunda.
Outra crítica informa que, ainda assim, o documentário cumpre com sua missão principal, que é confrontar o espectador com os efeitos de influências tóxicas e como essas influências podem destruir vidas.
O crime
A história real do documentário é perturbadora.
Ruby Franke era uma youtuber conhecida por seu conteúdo focado na maternidade e na vida familiar, e muitos pais a seguiam por se identificar com os desafios cotidianos dela.

Porém, após um tempo, Ruby conheceu sua “mentora” e auto-intitulada terapeuta, Jodi Hildebrandt, e essa relação por fim a fez envolver sua família em um regime de disciplina abusiva que logo se tornou tortura.
O caso veio à tona quando um dos filhos de Franke, visivelmente debilitado e desnutrido, fugiu da casa onde viviam em Ivins, Utah, e, depois de andar descalço pelo terreno árido e no calor abrasante da região, tocou a campainha de três casas buscando ajuda. Apenas um desses moradores o atendeu e, ao ver seus machucados e estado físico, contatou a polícia.

A chocante descoberta das condições em que as crianças viviam levou à prisão de Franke e Hildebrandt por abuso infantil agravado, um crime que incluiu restrições a comida, água e punições físicas severas constantes.
No tribunal, Franke acabou se declarando culpada de várias acusações e recebeu uma pena que pode variar de 4 a 30 anos, enquanto Hildebrandt recebeu uma sentença semelhante.

Exposição nas redes
Mas essa relação tóxica entre as duas mulheres, que levaram uma mãe a vitimar seus próprios filhos, talvez não tivesse ocorrido sem a ajuda de um fator: a exposição de crianças nas redes.
Existe uma ideia perigosamente ingênua de que “postar o filho” é só um tipo de álbum de família moderno. Só que a internet não é sua família folheando fotos. É uma vitrine, é um arquivo eterno e, pior, é um mapa.
Quando um adulto transforma a rotina de uma criança em conteúdo, ele não está apenas mostrando um rostinho fofo: está oferecendo pistas. Nome, escola, bairro, horários, gostos, amigos, vulnerabilidades, cada detalhe vira um atalho. Um prato cheio para vários tipos de predadores.

Autoridades e organizações de proteção infantil alertam há anos que imagens e informações de crianças podem ser coletadas, copiadas, recortadas, recontextualizadas e circular em ambientes que os pais nem imaginam, incluindo redes e fóruns voltados a abuso e exploração.
O FBI já publicou alertas para que responsáveis sejam prudentes ao postar fotos de crianças, justamente pelo risco de uso indevido e pela forma como imagens podem ser “reaproveitadas” por criminosos.
O caminho até o predador nem sempre é “um desconhecido mandando DM”. Às vezes começa com algo bem banal: o público aprende onde a criança está, com quem anda, do que tem medo, a rotina. Aprende sobre a família e seus hábitos. Isso abre portas para grooming (aproximação e manipulação), para sextorsão (chantagem), para abuso e até mesmo sequestros.

Agora, onde isso se relaciona com o caso de Jodi Hildebrandt e da Ruby Franke, e por que essa relação importa mesmo que o crime principal ali tenha acontecido “dentro de casa”?
Ruby Franke ficou conhecida exatamente por fazer da própria família um produto. Ela era a administradora do canal “8 Passengers” e, por meio dele, transformava o cotidiano dos seis filhos em uma espécie de “novela” pública. Mais tarde, ela se associou a Jodi Hildebrandt e ao sistema criado por ela, quase um tipo de seita, nomeado “ConneXions/Moms of Truth”. Essa união intensificou o controle e a punição sobre os filhos de Ruby pelas mãos dela mesma, o que desembocou no horror: duas crianças foram encontradas gravemente desnutridas e feridas dentro da mansão ocupada por Jodi.
A ideia não é dizer que “a exposição online causou o abuso”. O ponto é outro, mais sutil e mais assustador: a exposição cria um ambiente onde a criança vira personagem, e personagem costuma ter menos direitos do que pessoa.
Quando a vida de um filho vira conteúdo, normaliza-se que desconhecidos comentem o corpo, a obediência, a “moral”, os castigos. Condiciona a audiência (e até mesmo os próprios pais) a enxergar intimidade como material publicitário. E aí, quando entram figuras de “autoridade” tóxica, como Jodi, a família já está habituada a funcionar sob julgamento externo. Isso não cria só risco de predadores; cria risco de captura psicológica, de isolamento e de controle, porque a criança cresce com a noção de que o “normal” é ser observada, interpretada e corrigida por pessoas desconhecidas.

O caso Franke/Hildebrandt é um lembrete brutal de que a ameaça à criança pode vir tanto de fora quanto de dentro do lar, pelas mãos de abusadores que, por vezes, são os próprios pais.
A Mãe
Esse caso deixou o público perplexo não apenas pela brutalidade, mas também pela descoberta de que as crianças, malnutridas e amarradas, sofreram com a permissão, e, pior, com a participação da própria mãe, Ruby.

Ruby Franke começou em 2015 seu canal e chegou a alcançar 2,5 milhões de seguidores e mais de um bilhão de visualizações. À medida que seu público crescia, muitos passaram a ver a mulher não apenas como uma mãe comum falando de rotina, mas como uma autoridade em assuntos relacionados à educação parental. Essa construção de imagem pública de “mãe perfeita”, reforçada por comentários que a elogiavam, criou um desvio psicológico em que o olhar externo alimentava a autoestima: a validação de milhares de seguidores substituiu a opinião de familiares e amigos íntimos. Essa dinâmica pode reforçar narcisismo e cegueira emocional, deixando a pessoa mais propensa a justificar e normalizar comportamentos extremos e inaceitáveis.
E quando Ruby conheceu Jodi Hildebrandt, o relacionamento que começou como profissional evoluiu para uma parceria, por vezes vista até com suspeitas de homoafetividade. Hildebrandt então foi morar com a família, passou a colaborar com os conteúdos do canal de Ruby e, gradualmente, a manipulou com um discurso desvirtuado sobre disciplina, culpa e “obediência verdadeira”.

Ou seja, um terreno fértil para uma forma de aprisionamento psicológico: Ruby já se permitiu afundar no que Hildebrandt ofereceu, normas “espirituais” e rígidas sobre comportamento infantil e disciplina sob a rígida “mão” de autoridade.
Alguns criminologistas que analisam casos de abuso sob culto ou de autoridade extremista alertam que isolamento social, reforço de grupo e dependência emocional são três fatores que podem levar à submissão de um indivíduo a outro, mesmo que isso vá contra seus instintos morais e éticos. No caso de Ruby e Jodi, ambas estavam isoladas de muitos críticos familiares, porque Ruby já se encontrava muito distante do marido. Assim, juntas reforçavam uma crença corrompida em que punições extremas, isolamento dos filhos e obediência absoluta eram reinterpretados como “cura” ou “disciplina correta”.
Isso não significa que o conteúdo de Ruby tenha diretamente “causado” o abuso, mas indica que uma pressão interna entre a imagem pública idealizada e a vida real reforçou uma atitude abusiva.

Somado a isso, há a dimensão religiosa que permeava tanto a vida quanto as mensagens de Hildebrandt: pecado e disciplina foram usados para justificar punições severas como forma de “correção espiritual”. Nesse contexto, Ruby, já emocionalmente idealizada como líder de família, pode ter aceitado essas ideias sem os filtros críticos sociais e morais, substituindo o senso comum por uma ideologia absurda.
Repetindo Padrões
Já sobre Jodi, o documentário sugere que ela foi vítima de abuso sexual quando jovem, segundo vídeos da própria expondo o assunto.
A produção Ruby & Jodi: A Cult of Sin and Influence traz relatos de pessoas próximas a Hildebrandt, como sua própria sobrinha, que descrevem experiências traumatizantes vividas ao lado dela antes mesmo dos eventos envolvendo a família Franke. Certos depoimentos falam sobre sua personalidade controladora, punitiva e opressiva, indicando que comportamentos rígidos e autoritários já faziam parte de sua vida há anos.

Esses relatos se encaixam em um padrão clínico: quando alguém passa por abuso ou violência, especialmente na infância ou adolescência, o ocorrido pode ser internalizado a ponto de deformar percepções de segurança, autoridade e afeto. O abuso sexual, em particular, é associado a um impacto duradouro na formação da identidade, na regulação emocional e nas relações interpessoais do indivíduo.
No caso de Hildebrandt, a forma como ela criou uma identidade de conselheira familiar, autoridade moral e figura espiritual e emocional pode ter sido influenciada por esse evento traumático. Obviamente, isso não justifica seus atos, mas serve como uma possível explicação de como alguém que internaliza traumas tende a recriá-los.

Outros relatos revelam que Hildebrandt se valia de uma rigidez moral e espiritual extremamente inflexível, insistindo que certas práticas, punições duras, isolamento e privação, eram não apenas aceitáveis, mas necessárias para corrigir “erros” ou “pecados”. Afinal, traumas não tratados fazem com que o traumatizado se veja como alguém que “sabe melhor” porque “entende o sofrimento”.
Isso ajuda a explicar por que Hildebrandt conseguiu convencer não apenas Ruby, mas também clientes e seguidores, de que abordagens extremas eram uma forma de disciplina ou correção. Em suas próprias palavras e em seu desenvolvimento como coach, abuso e autoridade eram, na verdade, uma forma de amor e de combate ao “mal interior”. Isso significa que o trauma passado não apenas moldou sua psicologia, mas se transformou em um sistema de crença em que ela reinterpretou sofrimento e punição como algo positivo.
Quando essas crenças são ensinadas a outros, como aconteceu com Franke, tornam-se sistemas que justificam abuso sob a desculpa de ajuda ou correção.

Uma combinação que, sem dúvidas, levaria a um desfecho terrível envolvendo vítimas infantis, que não teriam como se livrar dessa dinâmica deformada.
No fim, o que aconteceu nesse caso não pode ser reduzido a um momento de loucura. Foi o resultado de uma relação complexa entre fama digital, busca por validação, autoridade externa e crenças distorcidas, reforçadas por um relacionamento íntimo com alguém que tinha seu próprio conjunto de ideias sobre disciplina e comportamento.
Vale a pena assistir Influencer do Mal?
Vale a pipoca e a reflexão porque Influencer do Mal mexe em algo muito íntimo: a confiança.
Confiança em figuras de autoridade, em discursos “bonitos”, em pessoas que se apresentam como “guias”, “especialistas”, “exemplos”. A reflexão não é só “como isso foi possível?”, mas “quantas vezes normalizamos sinais de abuso quando eles vêm mascarados de moral, fé, disciplina ou likes?”.

É um documentário que cutuca, incomoda. Mas faz pensar.
E você, já seguiu um influencer porque “os conselhos dele pareciam ótimos” e depois se decepcionou ao descobrir quem ele realmente era?













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