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Tudo que Breaking Bad esconde para quem conhece cinema

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Breaking Bad continua sendo a série mais bem disfarçada da televisão. Vince Gilligan plantou referências cinematográficas, paletas cromáticas e foreshadowing serializado em camadas tão dissimuladas que muita gente chegou ao fim sem perceber tudo.

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Os Easter Eggs em Breaking Bad (com spoilers)

Existe uma diferença entre série densa e série densa para quem está prestando atenção.

Breaking Bad, sem fazer alarde, está na segunda categoria. Você pode assistir aos sessenta e dois episódios pelo enredo (um professor de química descobre que tem câncer, vira fabricante de metanfetamina, vira monstro), aplaudir, chorar com Ozymandias, escrever no grupo da família que Jesse Pinkman é injustiçado, e ainda assim ter visto apenas metade da série.

A outra metade está escondida em quatro lugares: na paleta de cores das roupas, nos títulos dos episódios, nas referências de cinema que Vince Gilligan pega emprestado, e em objetos aparentemente decorativos que carregam o desfecho dentro deles desde a segunda temporada.

Antes que alguém ache que isso é arrogância de cinéfila querendo descobrir agulhas no palheiro, a maior parte do que está aqui foi confirmada por Gilligan, pelo diretor de fotografia Michael Slovis ou pelos roteiristas em podcast oficial. O resto é leitura crítica com evidência em tela. Quando uma coisa for teoria de fã particularmente ambiciosa, eu avisarei, porque a internet adora confundir intenção autoral com fan service retroativo.

Spoilers de todas as temporadas a seguir, porque é impossível falar de ovo Easter Egg sem mostrar a galinha.

Walter, suas pilhas de dinheiro e suas caixas cheias de Easter Eggs (drogas ainda mais fortes que Meth)
Walter, suas pilhas de dinheiro e suas caixas cheias de Easter Eggs (drogas ainda mais fortes que Meth)

Bloco 1: a segunda temporada está te avisando!

737 Down Over ABQ

A segunda temporada de Breaking Bad é o exemplo mais radical de foreshadowing serializado da história recente da televisão. É um design narrativo de longuíssimo prazo, planejado episódio por episódio.

Olhe os nomes dos episódios na ordem em que aparecem ao longo da temporada: Seven Thirty-Seven. Down. Over. ABQ. Não, não é o título de um disco do Radiohead. É a frase 737 Down Over ABQ, ou seja, sete-três-sete cai sobre Albuquerque, a tragédia aérea que encerra a temporada com dois aviões colidindo no meio do céu por culpa indireta de Walter White. A série inteira gastou treze episódios anunciando o desfecho no cabeçalho de cada um, e ninguém viu, porque ninguém lê título de episódio com lupa.

Os títulos da segunda temporada formando uma frase. O título do artigo crítico que ninguém escreveu na época.
Os títulos da segunda temporada formando uma frase. O título do artigo crítico que ninguém escreveu na época.

O urso de pelúcia

E ainda tem o urso. Quatro vezes ao longo da segunda temporada, a série abre o episódio com uma sequência em preto e branco. A câmera passeia lentamente pela piscina dos White, e a única coisa colorida no enquadramento é um urso de pelúcia rosa boiando sem um dos olhos. Você assiste, acha estranho, segue em frente. No último episódio da temporada, descobre que o ursinho caiu do céu junto com os destroços do voo Wayfarer cinco-um-cinco. Mas a confirmação simbólica vem dois anos depois, em Face Off, quarta temporada, quando Gus Fring tem metade do rosto explodido exatamente como o urso: mesmo lado, mesmo olho faltando.

O prop master Mark Hansen confessou nos extras do DVD que sabia desde o início que aquele urso ia ser pago narrativamente. Vince Gilligan foi ainda mais longe, disse em entrevista que o olho do urso era literalmente o olho de Deus sobre Walter White, o universo julgando o protagonista que ainda fingia ser bonzinho. Tem leitura de fã, defendida pela imprensa especializada, dizendo que o ursinho colorido sobre o fundo em preto e branco também é citação da menina de casaco vermelho de A Lista de Schindler. Gilligan nunca confirmou, mas a comparação visual é boa demais para descartar.

O olho de Deus em formato de pelúcia molhada. Não tem como sair ileso depois que você vê.
O olho de Deus em formato de pelúcia molhada. Não tem como sair ileso depois que você vê.

A questão não é se a segunda temporada antecipa o desfecho. É como ela faz isso com tantas redundâncias que vira matemático. Numa série em que tudo é planejado com essa obsessão, perceber a primeira camada é só o convite para ir mais fundo.

Bloco 2: o final é uma antologia de citações que ninguém leu

Se a segunda temporada é o melhor exemplo de foreshadowing de Breaking Bad, a quinta temporada final é o melhor exemplo de erudição disfarçada de drama policial. Os últimos três episódios da série, Ozymandias, Granite State e Felina, são uma sequência de homenagens literárias e cinematográficas tão deslavadas que é uma perda muito triste quando você não as percebe.

Ozymandias

Comecemos pelo título do episódio mais elogiado da série inteira. Ozymandias é o nome de um soneto de Percy Bysshe Shelley escrito em mil oitocentos e dezoito, sobre um faraó que mandou erguer uma estátua colossal pedindo para a posteridade contemplar suas obras e desesperar-se, e cuja estátua tombou e virou pó no meio do deserto. O paralelo é tão grosseiro que vira elegante: Walter White ajoelhado no chão, vendo o império de drogas desabar, é literalmente as duas pernas truncadas de pedra que sobraram do monumento de Ozymandias no poema.

Bryan Cranston gravou o poema inteiro como trailer promocional da segunda metade da quinta temporada antes do episódio ir ao ar, e mesmo assim a maioria do público demorou a perceber que o título não era enfeite. A roteirista Moira Walley-Beckett trouxe o poema para a sala de roteiros. Gilligan declarou que aquele era o melhor episódio que a série teve ou poderia ter tido. A frase virou autorretrato involuntário do criador. O episódio manteve nota máxima dez ponto zero no IMDb por treze anos, fato que nenhum outro episódio na história da televisão conseguiu, até cair para nove ponto nove no início deste ano por causa de uma campanha organizada de avaliações negativas. A erosão temporal alcançou Ozymandias dentro do IMDb da mesma forma que o tempo alcançou o faraó dentro do soneto. Existe ironia mais shelleyana do que essa?

Walter White ajoelhado no deserto. Shelley está em algum lugar tomando uma taça de vinho e mandando beijos.
Walter White ajoelhado no deserto. Shelley está em algum lugar tomando uma taça de vinho e mandando beijos.

Felina: Finale

Felina, o último episódio, é onde Gilligan abre todas as portas e mostra que esteve roubando dos melhores. O nome é um anagrama de Finale, o que já seria suficientemente bonito como assinatura final. Mas Felina também é Feleena, a personagem da canção El Paso de Marty Robbins, gravada em mil novecentos e cinquenta e nove, que toca duas vezes durante o episódio. Na canção, o pistoleiro volta para a cidade onde sua amada vive, sabendo que vai morrer ao chegar nela. Walt volta para o laboratório, sabendo que vai morrer nele.

E ainda tem a leitura química adotada pelos fãs, defendida com convicção: ferro mais lítio mais sódio, Fe mais Li mais Na, igual sangue, mais meth, mais lágrimas. Bonita demais para ser verdade, suficientemente bonita para ser teoria, e a série nunca confirmou nem desmentiu, o que é o lugar mais elegante onde uma teoria pode habitar.

A cereja da torta cinéfila vem na cena em que Walt poupa Jesse e diz para ele ir embora. Gilligan declarou na revista Entertainment Weekly, no mesmo dia em que o episódio foi ao ar, que aquela cena foi roubada do clímax de Rastros de Ódio (Título original: The Searchers), filme de John Ford de mil novecentos e cinquenta e seis. No filme, John Wayne persegue durante anos a sobrinha Debbie, capturada pelos comanches, jurando matá-la quando a encontrar. Quando finalmente a encontra, em vez de matar, levanta a menina no ar e diz "vamos para casa". Vince Gilligan deu uma entrevista no programa do Stephen Colbert no mesmo dia, e quando perguntado sobre a influência, respondeu apenas que tinha roubado dos melhores. Não tem como esconder o sorriso quando o criador de uma das séries mais respeitadas da televisão diz que copiou John Ford na surdina e fica feliz com isso.

Tem mais. A música Baby Blue do Badfinger que toca nos minutos finais, sobre o amor especial que o cara tinha pelo seu bebê azul, não é sobre Skyler nem sobre Holly. É sobre o meth azul. Gilligan confirmou isso no podcast oficial da série. Walter White morre dizendo, via letra de canção pop, que amou mais o produto do que a família. É o tipo de confissão covarde e cinematográfica que só uma série com essa quantidade de camadas consegue entregar sem cair em piegas.

Walt no laboratório. Marty Robbins tocando ao fundo. John Ford olhando lá do céu e sorrindo.
Walt no laboratório. Marty Robbins tocando ao fundo. John Ford olhando lá do céu e sorrindo.

E enquanto isso, no casting da quinta temporada, três atores de Scarface, o filme de Brian De Palma que Gilligan citou como inspiração temática da série inteira, aparecem em papéis centrais. Mark Margolis, que era Alberto, o Sombra, em Scarface, é o Hector Salamanca de Breaking Bad. Steven Bauer, que era Manny Ribera, melhor amigo de Tony Montana, é o Don Eladio, dono do cartel mexicano. E Walt assiste a Scarface com o filho dentro do próprio episódio Hazard Pay da quinta temporada, exatamente na cena em que Tony Montana abate inimigos com um rifle automático, anunciando a metralhadora M sessenta que Walt vai usar contra os neonazistas alguns episódios depois. Quando uma série constrói uma piada interna que leva três temporadas para terminar, e ainda usa atores de filme original como tributo vivo, é difícil sustentar que ela é apenas um drama policial bem feito... isso é um exercício de cinefilia industrial.

Bloco 3: as cores não são figurino, são roteiro

Aqui está o easter egg mais visível e mais ignorado de toda a série, porque está literalmente em todos os planos e ninguém vê. A paleta de cores de Breaking Bad não é decoração e nem estilo. É um segundo roteiro paralelo, escondido em camisas, calças, paredes e luminárias. Gilligan confirmou isso em entrevista e explicou que toda temporada começava com uma reunião entre figurino, design de produção e direção, definindo o palette de cada personagem. Quem assiste sem prestar atenção vê figurino, mas quem presta atenção vê motivação.

Walter White, no piloto, é uma sinfonia de bege, mostarda murcho e marrom esmaecido. Cor de homem que desistiu de existir antes mesmo do diagnóstico de câncer. Conforme a série avança, ele migra para o verde escuro, cor da inveja e do dinheiro, e por fim para o preto absoluto, cor de Heisenberg pleno. Não é coincidência que o chapéu, o casaco e o terno final sejam pretos. É a roupa de quem já morreu por dentro e finalmente concordou com isso.

Skyler é azul. Sempre azul. Cor de pureza, lealdade, água, e curiosamente, da mesma cor da metanfetamina que Walt produz. A série passa cinco temporadas insinuando que a Skyler e o meth ocupam, na cabeça de Walt, o mesmo espaço simbólico de obsessão, e ninguém percebe porque está em forma de bermuda e blusa.

Jesse é amarelo nos primeiros tempos, cor do negócio e da imaturidade ainda flutuante. Gus é amarelo de Los Pollos Hermanos, mas cinza por dentro, sempre cinza, porque Gus não tem cor, ele tem disfarce.

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O detalhe cromático mais nerd, e verificável apenas se você pausar com cuidado, é a placa da van em que Walt transporta dinheiro: D quatro D D três um (D4DD31), que é o código hexadecimal HTML de uma tonalidade exata de amarelo. Ou seja, até a placa do veículo está obedecendo à paleta da série. Isso é obsessão.

Toda vez que você assiste de novo, descobre que a roupa do personagem já tinha contado o final.
Toda vez que você assiste de novo, descobre que a roupa do personagem já tinha contado o final.

O que sobra depois que o cinéfilo descansa

Existem ainda dezenas de pequenos easter eggs que mereceriam parágrafos próprios, mas que valem como bônus para quem chegou até aqui. A série inteira de Breaking Bad é polvilhada de homenagens a Arquivo X, série em que Gilligan trabalhou como roteirista por nove temporadas. Os cigarros Morley que aparecem em Breaking Bad são a marca fictícia que o Fumante de Arquivo X consumia. A locadora Lariat Rent-A-Car, que Kuby usa em Buried, é a mesma que Mulder e Scully alugavam. Em Box Cutter, o relógio sobre a estante de Gale Boetticher marca dez e treze, em referência à produtora Ten Thirteen de Chris Carter, criador de Arquivo X, cujo aniversário, junto com o do agente Mulder, é treze de outubro. O episódio Cancer Man, da primeira temporada de Breaking Bad, leva o apelido original do Fumante.

E, finalmente, o livro Folhas de Relva, do poeta americano Walt Whitman, é o objeto que prende todo o desfecho narrativo. Gale Boetticher entrega o livro de presente para Walt, na terceira temporada, com a dedicatória ao meu outro W ponto W favorito. Walt guarda o livro no banheiro de casa. Hank pega o livro para ler no banheiro, em Gliding Over All, oitavo episódio da quinta temporada, e em frações de segundo entende que o cunhado é Heisenberg. O título do próprio episódio é um poema de Whitman dentro de Folhas de Relva. A literatura americana do século dezenove é o que delata Walter White para o irmão da esposa que é agente da DEA. Existe ironia metafísica mais cruel do que essa? Walter Whitman e Walter White compartilhando iniciais e destinos.

Paralelos cinematográficos…
Paralelos cinematográficos…

Breaking Bad é, no fundo, uma série sobre alguém que se acha mais esperto do que todo mundo e por isso perde. Talvez não seja coincidência que ela esteja construída de tal forma que recompensa quem é mais esperto que o público médio, e pune quem só veio para a explosão de Gus. A série tem dezenas, talvez centenas de camadas, e o mais bonito é que nada disso traz uma ostentação. Gilligan jamais explicou o ursinho na coletiva de imprensa do segundo episódio. O título dos episódios da segunda temporada só foi conectado em fórum de internet anos depois. A paleta cromática só virou conversa pública quando a série acabou. E a referência a Rastros de Ódio só apareceu porque Gilligan, em entrevista, abriu a boca por bondade, não porque o episódio precisasse de lápide explicativa.

É o oposto exato de uma série que faz questão de explicar tudo. É uma série que confia tanto no público que decide que vai existir pouca gente prestando atenção, e mesmo assim faz tudo bonito. Quando o cinema-feito-para-televisão for analisado daqui a cinquenta anos, Breaking Bad vai estar no manual de classes de cinema como exemplo de série em que cada cena carrega um segredo. E talvez seja por isso que ainda hoje, mais de dez anos depois, existem fóruns inteiros descobrindo camadas que ninguém tinha visto antes.

E você? Já tinha pegado algum desses easter eggs ou descobriu metade deles agora?

Tem algum que ficou de fora e que você acha que mereceria estar nessa lista?

Conta na caixa de comentários, porque a maratona de re-watch de Breaking Bad é sempre uma boa desculpa para ser pretensioso na internet.

Até a próxima!