Sobre Os Sete Relógios
Os Sete Relógios de Agatha Christie (em inglês, Agatha Christie’s Seven Dials) é uma minissérie de mistério britânica, de três episódios. Foi lançada em 15 de janeiro de 2026, e é baseada no livro O Mistério dos Setes Relógios (The Seven Dials Mystery), de 1929 da Rainha do Crime, Agatha Christie.

Escrita por Chris Chibnall, renomado por seus trabalhos em Broadchurch e Doctor Who, a minissérie conta com a direção de Chris Sweeney. A produção executiva reúne um time de peso, liderado pelo próprio Chibnall ao lado de Suzanne Mackie, da Orchid Pictures, e conta com a colaboração de Chris Sussman, Andy Stebbing e do diretor Sweeney.
Para assegurar a fidelidade à obra original, a equipe de produção conta com James Prichard, bisneto de Agatha Christie e representante do espólio da autora pela Agatha Christie Limited.
O elenco da produção é estrelado por Mia McKenna-Bruce, Helena Bonham Carter, Martin Freeman, Corey Mylchreest, Edward Bluemel e Iain Glen.

Sinopse
A suntuosa mansão Chimneys é o cenário de uma brincadeira que termina em tragédia. Para punir o sono pesado de Gerry Wade, seus amigos escondem oito despertadores em seu quarto. No entanto, o despertar nunca acontece: Gerry é encontrado morto, vítima de uma suposta overdose.
O mistério se intensifica quando apenas sete relógios são achados alinhados na lareira... o oitavo foi arremessado para fora. Sem acreditar em um acidente, a perspicaz Lady Eileen "Bundle" Brent mergulha em uma investigação que revela a existência de uma organização secreta conhecida como "Os Sete Relógios", conectando o crime a uma perigosa rede de espionagem e conspiração internacional.
Trailer Oficial
Sobre o livro que inspirou a minissérie
O livro O Mistério dos Sete Relógios (The Seven Dials Mystery) foi publicado em 1929, e é uma obra de transição em que Agatha Christie experimenta fundir o suspense clássico com tramas de espionagem e sociedades secretas. É também uma espécie de sequência do livro O Segredo de Chimneys de 1925, mas pode ser lido de forma totalmente independente.

O enredo se afasta muito dos clássicos em que Poirot e Miss Marple geralmente são os detetives, carregando um humor ácido e ritmo ágil, sendo considerado um dos mais divertidos da autora.
Celebrada como uma vibrante comédia de costumes dos anos 20, a obra cativa pela modernidade de Bundle Brent, protagonista independente que desafia as convenções sociais da época em uma trama repleta de espionagem e sociedades secretas.

Embora a narrativa apresente um desenvolvimento mais mediano, o desfecho impactante consolida a experiência, priorizando a aventura e o carisma dos personagens em detrimento do rigor lógico dos enigmas tradicionais de Agatha Christie.
Diferenças entre o livro e a minissérie
A adaptação da Netflix fez mudanças significativas para que a narrativa funcionasse na tela, focando na dinâmica e na profundidade emocional.
Protagonismo e Dinâmica Familiar
Enquanto no livro a relação de Bundle com seus pais é mais secundária, a série expande consideravelmente o papel de Lady Caterham. Na obra original, o pai de Bundle, Lord Caterham, é a figura central de alívio cômico; na minissérie, a dinâmica entre mãe e filha ganha camadas de drama e cumplicidade, tornando a investigação um assunto de família mais emocional.
Ritmo e Narrativa
O livro possui um tom de aventura juvenil e um ritmo mais demorado, típico das histórias de mistério da década de 20. A versão de Chris Chibnall condensa a trama em três episódios, imprimindo um ritmo de thriller moderno e mais ágil. A investigação é mais direta e o senso de urgência é ampliado, focando menos nas andanças sociais e mais na periculosidade da organização secreta.
Contexto Político e Social
A minissérie aproveita o cenário de 1925 para explorar a tensão política da época, como o surgimento de ideologias radicais e a espionagem industrial. No livro, embora esses elementos existam, eles são tratados de forma mais leve e quase caricata. A Netflix optou por um tom mais sombrio, onde as implicações do plano de assassinato têm um peso maior na segurança nacional.
O Superintendente Battle
Diferente do livro, onde o Inspetor Battle é uma figura de bastidores que surge apenas para resolver o mistério, a série o coloca no centro da ação desde o início. Com mais tempo de tela e diálogos detalhados, a adaptação explora seu método de trabalho, criando um contraste perfeito entre o pragmatismo da Scotland Yard e o jeito impulsivo de Bundle. Assim, ele deixa de ser um figurante de luxo para virar o parceiro ideal da protagonista.
O espólio de Agatha Christie
O espólio de Agatha Christie é gerido pela Agatha Christie Limited (ACL), empresa que detém os direitos mundiais de suas obras desde 1955. Atualmente, a gestão é liderada pelo bisneto da autora, James Prichard, que atua como CEO e produtor executivo de diversas adaptações contemporâneas.

A família mantém participação ativa e simbólica no controle da obra. A maioria das ações da ACL pertence hoje à RLJ Entertainment, uma subsidiária da AMC Networks, que adquiriu o controle majoritário em 2012 para expandir o alcance da marca globalmente.
A postura dos herdeiros em relação à flexibilidade das obras mudou profundamente ao longo das gerações. Durante o período em que Mathew Prichard, neto da autora, esteve à frente dos negócios, o espólio era conhecido por uma proteção rigorosa e pela exigência de fidelidade absoluta aos textos originais.
No entanto, sob a gestão de James Prichard, houve uma abertura estratégica para modernizações. O espólio passou a autorizar adaptações cinematográficas e televisivas com mudanças substanciais em tramas, ambientações e perfis de personagens, como visto nas produções recentes dirigidas por Kenneth Branagh e em novas produções.

Essa nova fase de flexibilidade também se estende ao uso de tecnologia e novos formatos. Em 2025, a família autorizou o uso de Inteligência Artificial para recriar a presença da autora em projetos educacionais, refletindo um esforço para manter Agatha Christie relevante para as gerações digitais.
Em 1º de janeiro de 2026, obras clássicas publicadas originalmente em 1930 entraram em domínio público nos Estados Unidos, permitindo que novas editoras e produtores criem versões dessas obras específicas sem necessidade de pagar royalties ou pedir permissão à ACL, embora a marca "Agatha Christie" e os direitos sobre obras posteriores continuem sob proteção.

O Mistério dos Sete Relógios (1981)
Além da adaptação da Netflix, houve outra lançada em 1981, que estreou no Reino Unido com Cheryl Campbell no papel de Bundle Brent e Harry Andrews como o Inspetor Battle, e contou também com o lendário John Gielgud no elenco. E é conhecida por ser uma adaptação extremamente fiel ao texto original de Agatha Christie.

A adaptação foca no humor e na sátira social da aristocracia britânica, mantendo a estrutura clássica de "mistério de casa de campo", e é indispensável para os fãs que preferem a visão original da autora sem as grandes alterações dramáticas da versão atual.
Análise Pessoal

Assistir à nova versão de O Mistério dos Sete Relógios traz uma sensação incômoda: é como se tivessem usado uma moldura de ouro para emoldurar um quadro que simplesmente não combina com ela. Mesmo indo assistir com as expectativas baixas, por ser fã fervorosa de Agatha Christie, a decepção foi inevitável. A produção esbanja recursos visuais e um elenco de peso, mas falha em capturar a essência da obra, entregando um resultado que parece artificial e desconexo do material original.
É frustrante ver um elenco de peso e uma estética tão bonita a serviço de um roteiro que não sabe o que quer ser. A série sofre de uma crise de identidade evidente; parece que o diretor teve medo de ser fiel à obra original e tentou imprimir uma relevância artificial à narrativa. A astúcia clássica da Agatha Christie foi sufocada por uma busca vazia por estilo, transformando o que deveria ser um entretenimento inteligente em algo pretensioso e sem a essência do livro.

A mudança no tom de espionagem ficou pesada. No livro, existe uma leveza, quase uma aventura juvenil de "clube de mistérios", mas na série tudo se torna um suspense político que se leva a sério demais em alguns momentos e de menos em outros. Essa indecisão me cansou, especialmente no segundo episódio, que vira uma barriga narrativa onde nada parece andar.
Transformar uma conclusão de mistério clássico em um gancho para um "universo compartilhado" de espionagem me soou muito forçado. Senti falta daquele prazer de ver as peças se encaixarem de forma orgânica, sem a necessidade de criar uma franquia.
Para mim, no fim das contas, a série é linda de ver, mas vazia de alma para quem realmente gosta da atmosfera da Rainha do Crime.
Recepção da crítica e do público
A recepção tem sido bem morna, apesar de a produção configurar o Top 10 da Netflix em sua primeira semana de estreia.
Rotten Tomatoes: 69% de aprovação dos críticos e 50% de aprovação do público.
IMDb: 6,2/10 de 8,8 mil avaliações.
Vale a pena assistir Os Sete Relógios de Agatha Christie?

Se você é do time que preza pela fidelidade e busca aquele mistério típico das obras da autora, a resposta curta é: prepare-se para se decepcionar.
Mesmo que a produção da Netflix seja visualmente boa e conte com um elenco de peso (com destaque Mia McKenna-Bruce, Helena Bonham Carter e Martin Freeman), ela sofre de uma crise de identidade que pode incomodar os fãs dos clássicos de Christie.
A minissérie é nota 6/10, e acaba se aproximando mais do estilo de Enola Holmes ou Bridgerton do que de um mistério tradicional de detetive. Para quem busca a fidelidade e o aconchego de uma adaptação clássica, essa versão de 2026 passa longe do alvo.
Até a próxima!












— Comentários 0
, Reações 1
Seja o primeiro a comentar