Sobre a 3ª temporada de Euphoria
Todo mundo pediu, 5 anos atrás e veio aí, atrasadíssima, mas veio, a terceira temporada de Euphoria! Criada, dirigida e escrita por Sam Levinson, a temporada já chegou desde o trailer anunciando que seria uma coisa nova, um tanto diferente do que vimos nas duas primeiras temporadas.
O que a gente não esperava de fato era que veríamos mesmo uma série completamente diferente das primeiras duas temporadas, cujos personagens mantiveram apenas o nome e um pedaço da personalidade.
A terceira e última temporada da série não só foi extremamente criticada ao longo das 8 semanas de lançamento, como também movimentou polêmicas fortes, furos de roteiro, estereótipos desnecessários e muitos outros problemas.
Aqui propomos uma lista onde podemos explorar os acertos e erros da terceira temporada da série.
Esse artigo contém spoilers da terceira temporada.

Acertos
1. Nostalgia
Uma coisa que não podemos negar é que essa temporada conseguiu mexer com a nostalgia dos fãs da série. Mesmo voltando muito tempo depois e mexendo em 90% do material consistente que tinha sido construído, tocar nesse lugar é um mérito que nem toda série nessa altura conseguiria.
2. Bishop
Entre os personagens novos na trama, um que não tem muitas falas mas rouba a cena sempre que está presente é Bishop. Sua personalidade, comportamento e maneira de falar são bem únicos de alguém que chama atenção quando está em cena. O personagem quase não tem uma trama própria, orbitando as tramas dos outros, mas com uma maestria que dá vontade de ver mais dele.

Erros
1. Time Skip
Pensando no sucesso da primeira e segunda temporada de Euphoria, foi uma decisão muito arriscada fazer um salto temporal de 5 anos. Exatamente o tempo que o Levinson levou para esquecer o que a própria série era.
Esse período sem dúvidas é muito valioso, teria muito diálogo com as primeiras temporadas, mas o criador optou por tomar um caminho diferente e ir para um lugar onde definitivamente a série não se preparou para ir.
2. Vidas dos personagens
A consequência de fazer um salto temporal não planejado é que a vida dos personagens precisa ser completamente outra do que era naquele ensino médio. O exercício de imaginar o que cada um se tornou em 5 anos seria prazeroso a princípio, se a resposta não fosse sempre a mesma: virou o que o episódio precisava naquele domingo.
Os recortes escolhidos só denotam a incapacidade de sustentar um seguimento da trama, abrindo necessidade de mover os personagens para novos centros e universos de conflito a fim de sustentar uma temporada.

3. Temáticas abordadas
No processo de construir conflito para os personagens, a série opta por abordar temáticas que julga serem atuais, mas que são tão estereotipadas quanto se fossem abordadas 10 anos atrás. A escolha de trazer assuntos espinhosos para a trama poderia ser acertada, se a abordagem e desenvolvimento fizessem bom uso disso.
Não é o caso. A série joga moral, religião e ética no liquidificador e serve um smoothie de clichê com a confiança de quem inventou a bebida.
4. Finais de episódio
Os finais de episódio dessa temporada tiveram uma sutil tentativa de trabalhar com arcos mais fortes, visando manter o público entre os episódios. Contudo, a tentativa é um fracasso absoluto quando não consegue construir nenhuma tensão com cenas forçadas que visivelmente só estão ali para engatilhar um fim de episódio e num sopro será resolvida ou esquecida no seguinte, pois aquilo não é relevante dramaticamente é só um tropo narrativo que praticamente me implora para continuar vendo.

5. Monopolização do texto pelo autor
Sam Levinson começou o processo de escrita e fez a redação final de todos os episódios da série. Esse tipo de coisa é normal na indústria, mas aqui, com apenas mais dois roteiristas colaboradores, parou de ser parte do ofício e flertou com a monopolização do texto. Isso gerou escândalos onde muitos fãs da série acusaram o autor de usar seu poder para realizar fetiches depravados em relação à nudez e sexualidade das atrizes da série.
6. Personagens novos
A introdução de novos personagens numa série é um movimento muito natural, mas é revoltante quando uma temporada se baseia praticamente exclusivamente nas tramas que esses novos personagens trazem. Em certa altura, a série nem se dá ao trabalho de desenvolver mais nada, apenas usa seus novos fantoches para suas funções dentro da trama e depois joga fora como uma criança que enjoa do brinquedo.

7. Jules
De todas as personagens injustiçadas nessa temporada, Jules merece o prêmio. Além do tempo de tela baixíssimo ao longos dos episódios, a personagem que era reconhecidamente uma das melhores representações trans modernas da TV é reduzida única e exclusivamente a ser uma prostituta de luxo, que tem como hobby a arte, que também é exclusivamente sobre ser trans. C
hega a ser violento o que narrativamente fazem com Jules nessa temporada, uma grande construção jogada fora a troco de nada. Ou melhor, a troco de reforçar estereótipos velhos e batidos.
8. Tráfico humano
A série flerta no final da temporada em falar de algo muito sério: Tráfico Humano. Possivelmente Alamo e Laurie têm um esquema desse tipo em conjunto. Rue acha possíveis provas e quase descobre tudo, mas não chega a confirmar. A série termina sem resolver a questão, sem confirmar e sem dar a devida importância ao assunto. A temática fica esquecida no canto da temporada como aquele legume que murcha no fundo da geladeira.

9. Nazistas saindo impunes
Conhecer mais o grupo da traficante Laurie aprofunda sua participação na trama, mas trazer um personagem que é abertamente nazista e tem orgulho disso talvez pese demais aí. Sobretudo quando no último episódio esse personagem converte uma amiga de Rue ao Nazismo e ambos fogem juntos, ficando livres de qualquer punição.
10. Dívida de Nate
Nate Jacobs é o vilão da primeira temporada de Euphoria. Além disso protagoniza grande antagonismo ao longo das duas primeiras temporadas. Nate cometeu muitos erros, fez muitas coisas terríveis e tinha muitas maneiras de pensar como usar isso contra esse personagem para lhe punir. Anos de crime, agressão e manipulação, e o que derruba o Nate é um boleto. O roteiro tinha um vilão e preferiu cobrar dele uma dívida.

11. Morte de Nate Jacobs
Nate foi um dos personagens mais odiados de Euphoria ao longo das primeiras temporadas. Sua morte e a maneira como acontece são frustrantes porque, no final das contas, soa quase como uma absoluta desconexão com seus erros do passado. Nate não sabe ou não tem noção de que está sendo punido por isso. Matar o Nate foi o roteiro sendo gentil justamente com quem menos merecia gentileza. Final de vilão tem que doer, não dar alívio.
12. Casamento Nate e Cassie
Esse é um dos momentos mais importantes da temporada e o casamento em si não gera nenhum conflito entre os personagens. Faltou briga de comida, faltou faísca entre nossos protagonistas. O evento só não é uma perda de tempo total pois é nele que detona para Cassie que Nate é um falido que deve dinheiro para um criminoso. Mas, honestamente, isso poderia vir a qualquer momento, talvez até em conjunto com outros conflitos sociais.

13. Escatologia
A temporada é abertamente mais violenta, sexual e gráfica do que as outras, contudo existe algo que é de fato exclusivamente mais incômodo nessa temporada: a escatologia. Nunca precisei saber tanto sobre o aparelho digestivo de um personagem fictício. Os primeiros episódios são menos HBO e mais exame laboratorial em alta definição.
14. Abuso
Ainda em coisas desnecessárias de se ver, a temporada é abertamente mais misógina do que as outras, construindo cenas absolutamente constrangedoras a troco de nada. Um exemplo disso é o caso da cena onde um grupo de homens coletivamente abusa de uma das trabalhadoras da boate de Alamo. Isso traz zero consequências, zero mensagens. Apenas mais uma de muitas cenas onde mulheres são objeto de violência para homens assistirem e sentirem prazer com isso.

15. Lexi
Lexi não é tão injustiçada como Jules, mas chega perto disso. A personagem teve seu desenvolvimento de relevância na segunda temporada da série e esperávamos poder ver um pouco mais dela nessa terceira temporada. Para surpresa de zero pessoas, sua trama quase não tem conflito nenhum e é esquecida e jogada em segundo plano sempre que possível em detrimento de qualquer outra coisa. Ela termina a temporada como começa, zero desenvolvimento de personagem.
16. Mudança de estética
Euphoria tinha uma marca registrada ao longo de suas duas temporadas que eram tão autênticas que de longe você poderia ver uma imagem e saber: isso aqui é Petra Collins! Digo, isso aqui é Euphoria!! Esse senso estético da série foi completamente jogado fora em troca de novas paletas. Trocaram o brilho que dava para reconhecer de longe por uma paleta cinza que parece um pedido de desculpas visual.

17. Relação Rue e Jules
Entre todas as coisas que brilhavam nas primeiras temporadas da série, Rue e Jules eram um casal tão especial que era doloroso pensar que não terminaram a segunda temporada juntas. A relação das duas na terceira temporada flerta em ser algo maduro, mais sério e num novo lugar de interesse, mas o flerte acaba rápido e tudo vai abaixo sem mais nem menos.
18. Decisões de direção (fetiches)
A direção da série escolhe gravar certas cenas de sexo, nudez, drogas e outros assuntos mais pesados de maneiras muito controversas. É sempre possível contornar de muitas maneiras as filmagens de cenas pesadas e escolher bem quando e como vamos fazer isso. Aqui a direção opta sempre por glamorizar e mostrar tudo ao máximo possível, sendo extremamente incômodo de assistir.

19. Morte Rue
Rue morrer no final dessa temporada é uma das decisões mais revoltantes da série inteira. A personagem fez de tudo para se salvar, esteve finalmente limpa de drogas por muito tempo e quando tudo parece que finalmente tá indo para o lugar que deveria, a jovem é morta por um único comprimido envenenado.
20. Vingança Ali
Ali é um personagem que praticamente não apareceu ao longo dessa temporada. Fez participação em poucos episódios e encerra tomando uma grande proporção na resolução do conflito final. É triste ver que a morte de Rue desencadeia nos outros personagens, mas pegar o único personagem que existia para quebrar o ciclo de violência e usá-lo para alimentá-lo: ou é ironia genial, ou é o roteiro esquecendo a própria tese. Aposto na segunda.

Conclusões
Euphoria se encerra com um amargo na boca. Aquele daquela relação que mudou tanto que você já nem reconhece mais com quem você tá falando.
The Boys e Stranger Things já podem descansar em paz, pois temos aqui o novo PIOR final da história das séries.
E você? O que achou da terceira temporada de Euphoria? Pretende assistir ao nada esperado, muito menos previsível, spin-off da Maddy e da Cassie?
Conta para gente nos comentários!
Até a próxima!












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