Sobre The Beauty
Lançada em 2026, The Beauty é mais uma das criações de Ryan Murphy, criador de American Horror Story, e conhecido por expor obsessões sociais por meio de narrativas provocativas. Desta vez, o tema central é a própria ideia de perfeição física, o que acontece quando ela deixa de ser desejo e se torna uma epidemia.
Ao lado de Matthew Hodgson, Ryan Murphy se usa de muitas cenas de body horror, somente aqui se tem algum tipo de horror nessa obra, na qual o horror não é a premissa. Vale dizer que a série é baseada na graphic novel homônima de Jeremy Haun e Jason A. Hurley.

Sinopse
No elenco principal estão os atores Evan Peters (conhecido de Murphy desde a primeira temporada de AHS), Rebecca Hall, Anthony Ramos, Jeremy Pope e Ashton Kutcher.
The Beauty parte de uma ideia simples: uma doença sexualmente transmissível começa a se espalhar pelo mundo, transformando os infectados em versões fisicamente perfeitas de si mesmos. O problema é que essa beleza possui um efeito colateral inevitável: a morte.
Acompanhamos então os agentes do FBI que investigam uma série de mortes inexplicáveis (e bastante gore) ligadas ao fenômeno, revelando uma conspiração que envolve indústria tecnológica, poder econômico e interesses corporativos. A história se desloca entre Paris, Veneza, Roma e Nova York, misturando investigação policial, ficção científica e horror corporal para discutir temas como o culto à estética, pressão social e a mercantilização do corpo humano.

A série vem para mostrar até onde as pessoas estariam dispostas a ir em busca da perfeição, refletir ansiedades relacionadas à aparência e a procura por soluções rápidas para resolver problemas que muitos acreditam se tratar apenas de “falta de beleza”.
Recepção da Crítica
Entre o público, a resposta foi mais variada, já a recepção crítica foi bastante positiva. No Rotten Tomatoes, a série alcançou cerca de 74% de aprovação entre críticos, apontando que funciona melhor quando abraça seu tom exagerado. Porém, sua crítica social foi considerada superficial por alguns.
Bela Mercadoria e a nossa realidade
A verdade é que a série não necessariamente inventa um futuro distópico, mas exagera em algo que já existe: a convergência entre indústria estética, mercado farmacêutico e uma cultura visual que transforma aparência em valor social, econômico e emocional.
É observável que, últimas duas décadas, o setor de procedimentos estéticos se tornou uma das indústrias de crescimento mais acelerado do mundo. Esse crescimento não envolve apenas cirurgias, mas também preenchimentos, toxina botulínica, tratamentos dermatológicos, suplementos e medicamentos voltados para emagrecimento e rejuvenescimento.

Estudos provam a relação crescente entre insatisfação corporal e exposição constante a padrões estéticos irreais e, claro, o uso intensivo de redes sociais está associado ao aumento da ansiedade relacionada à aparência e à maior consideração por procedimentos estéticos. Ou seja, quanto mais o indivíduo se compara a versões aperfeiçoadas de outras pessoas, ou de si mesmo através de filtros, mais se sente inadequado.
Surgiu assim o termo “dismorfia do filtro”, quando pacientes procuram procedimentos para se aproximar da própria imagem digital alterada, criada por aplicativos que suavizam a pele, afinam traços e eliminam sinais naturais do envelhecimento.
Então, The Beauty apenas transformou isso em metáfora: a beleza ideal existe, mas é artificial e insustentável.

O encontro reflete na nossa realidade, onde medicamentos associados à perda rápida de peso ou ao retardamento do envelhecimento passaram a ocupar as prateleiras das necessidades estéticas. Aliás, são frequentemente apresentados como soluções médicas para problemas que têm origem social e psicológica.
As redes sociais funcionam como amplificadoras desse ciclo doentio, enquanto os algoritmos priorizam imagens que se encaixam em padrões estéticos, reforçando a repetição desses modelos e deixando de lado o que não é interpretado como belo. O resultado é: a insegurança gera consumo, o consumo reforça o padrão, e o padrão gera nova insegurança.
The Beauty se utiliza muito bem desse tema, a ficção aqui interpreta que a beleza é contagiosa porque ninguém quer ficar sem, enquanto que no mundo real, o contágio é cultural e está na promessa de aceitação, de ser desejado e visto.

A crítica, tanto na obra quanto nas análises sociológicas, não fala contra a existência ou a busca por procedimentos estéticos em si, mas contra o sistema que prospera sobre insatisfação permanente, problemas psicológicos e complexos que só podem ser resolvidos com tratamentos terapêuticos.
Afinal, um mercado que depende da insegurança precisa que todos estejam insatisfeitos o tempo todo para que ele prospere. E The Beauty transforma esse aspecto em horror: a perfeição não cura a insegurança, apenas a torna mais lucrativa.
Um Belo Paralelo
Uma das referências perceptíveis em The Beauty é o clássico cult dos anos 1990, Death Becomes Her (A Morte lhe cai bem, 1992). A relação não aparece como homenagem diretamente, mas conectando as duas obras pela mesma obsessão: a promessa da juventude eterna e o horror como recompensa.

No filme original, duas mulheres que ingerem uma poção capaz de preservar a juventude indefinidamente descobrem que a imortalidade transforma o corpo em algo quebradiço e grotesco.
Desse modo, o longa se tornou uma sátira ácida sobre envelhecimento, vaidade e a crueldade da indústria estética.
The Beauty, porém, em vez de se utilizar de uma poção mágica, cria um vírus que transforma os infectados, mas por um tempo limitado, já que a transformação leva inevitavelmente à morte, e o easter egg mais evidente está em uma escala simbólica do elenco, com a presença de Isabella Rossellini, uma ponte consciente entre as duas obras.
No filme de 1992, Rossellini interpretava a mulher misteriosa que oferecia juventude eterna às protagonistas; na série, sua participação é muitas vezes interpretada como metalinguagem sobre a indústria que celebra a beleza enquanto descarta quem envelhece.

A Morte lhe cai bem tratava a obsessão estética como comédia grotesca, revelando corpos que continuavam vivos mesmo quando já estavam literalmente em cacos. Já The Beauty radicaliza: o corpo não apenas se deteriora, ele explode. Literalmente. O que reflete um mundo onde os perigos na busca pela perfeição estética têm levado a centenas de mortes anualmente.
Resumindo: o filme zombava da incapacidade cultural de aceitar o envelhecimento; a série fere mais fundo, propondo que talvez hoje o problema não seja mais apenas o medo de envelhecer, mas aceitar até a própria destruição imediata em troca de permanecer desejável dentro dos padrões sociais.

Vale a pena assistir The Beauty?
Apenas assista, e se você já conhece o trabalho de Murphy e parece ser de seu estilo, que está lá na fotografia, na crítica, nos figurinos, certamente vai gostar.
Nessa época em que estamos cada vez mais reféns de nos tornarmos produtos, afinal, hoje não basta apenas vender algo, temos que nos colocar como vitrine para nos fazer validar como profissionais, e esse é um tema que se faz necessário.

Não à toa, filmes como A Substância fizeram tanto barulho, mas não ganharam o Oscar, dado que a indústria que ele critica é a indústria que distribui prêmios.
A primeira temporada ainda não terminou, mas espero que continue positiva como se mostra até o episódio 5, ao qual tive acesso.
Você já conhecia a série? Gosta do assunto? Teria coragem de testar uma nova injeção que te deixasse nos padrões de beleza atual, te dando todas as vantagens que um corpo/rosto bonito dá, mas colocando a vida em risco?
Nota: 4/5













— Comentários 0
, Reações 1
Seja o primeiro a comentar