5 Séries de Comédia diferentonas
Existe uma maneira segura de fazer comédia. Você contrata seis amigos brancos, coloca eles num apartamento improvavelmente caro em Nova York, programa risada em lata na pós-produção e espera o aplauso da plateia que veio direto do tour da Universal. Funciona. Funcionou por décadas. Continua funcionando, aliás, porque os streamings continuam renovando coisas que parecem ter sido escritas por um algoritmo que ouviu falar de humor uma vez. Num podcast.
E existe a outra. A comédia que decidiu, em algum momento entre 2021 e agora, que não quer mais te abraçar. Que prefere te constranger, te confundir, te fazer rir de uma piada que termina três minutos depois do ponto em que qualquer humano normal teria cortado. Que troca a estrutura sitcom pelo documentário falso, o mockumentary pelo ensaio visual, o ensaio visual pela animação melancólica, e a animação melancólica por um aeroporto inteiro construído dentro de um galpão em Los Angeles. Sim, isso aconteceu de verdade. Já chegamos lá.
A lista a seguir não é sobre o que ganhou Emmy, virou meme global ou foi indicado pela sua tia no grupo da família. É sobre as cinco séries dos últimos cinco anos que mais maltrataram, com afeto, o conceito de comédia. Nenhuma delas é Fleabag, antes que você pergunte. Fleabag virou referência de TCC. Estamos um andar acima.

The Rehearsal (2022 - ): construindo coisas gigantes para fazer uma piada
Nathan Fielder convenceu a HBO a deixar ele ensaiar a vida real. Não é uma frase de marketing, é a premissa. Pessoas reais procuram Fielder para ensaiar momentos difíceis, uma conversa com a esposa, uma confissão, um pedido de desculpas, e ele constrói réplicas em escala real do bar, da casa, do parque onde a conversa vai acontecer. Contrata atores. Treina eles. Ensaia a versão difícil do diálogo até ela ficar fácil. O resultado nunca é o esperado, e essa é a piada, se é que dá para chamar de piada.
O Richard Brody chamou de olhar cruel e arrogante. A Variety chamou de bonkers cringefest. Os dois estão certos. O que torna The Rehearsal a série que abre essa lista é que ela não é, tecnicamente, comédia, drama, documentário ou ficção, e fingir que ela precisa ser alguma dessas coisas é não ter entendido a piada. Fielder construiu um gênero novo e mora sozinho lá dentro.

The Chair Company (2025 - ): Tim Robinson descobre conspiração através de uma cadeira quebrada
Se Nathan Fielder é o polo sádico do que a crítica americana já apelidou de Fielderverse, Tim Robinson é o explosivo.
A premissa é simples e perfeita, e até mesmo já falamos dela aqui no site. Ron Trosper, pai de família mediano, sofre uma humilhação no trabalho envolvendo uma cadeira defeituosa. A HBO pediu que críticos não revelassem qual é a humilhação, e a obsessão coletiva com esse segredo virou parte do charme. A partir daí, Ron desce numa toca de coelho contra a fabricante da cadeira, a tal Tecca, e a série vira algo que ninguém esperava: um Mulholland Drive de varejo, paranoia david-lynchiana ambientada no setor de móveis de escritório.
Estreou com 100% no Rotten Tomatoes em 53 críticas. Maior estreia de comédia da HBO em mais de cinco anos. A Slate chamou de magnum opus do Robinson. A Variety, sempre prudente, avisou que polariza. Polariza porque Robinson construiu uma carreira inteira em cima de homens absurdamente incapazes de processar humilhação, e aqui ele finalmente sai do sketch e descobre o que acontece quando o constrangimento dura oito horas. Resposta: você termina convencido de que a cadeira realmente queria te destruir. E talvez quisesse mesmo.

How To with John Wilson (2020-2023): o anti-Fielder que filma Nova York e quebra sua autoestima
Nathan Fielder produz How To with John Wilson, e essa informação sozinha já explica metade da série. Se Fielder é o polo cruel da escola, John Wilson é o terno. Ele anda por Nova York com a câmera nas mãos, narra em segunda pessoa hesitante sobre coisas aparentemente bobas, como achar um banheiro público ou rastrear um pacote, e termina cada episódio em um lugar emocional que a maioria dos dramas premiados não chegou nem perto.
100% no Rotten Tomatoes nas três temporadas. A Rolling Stone, no review do finale, escreveu que o fato de a HBO ter produzido três temporadas disso parece um milagre. Concordamos. How To with John Wilson é o que acontece quando você cruza Frederick Wiseman, Werner Herzog e Errol Morris, coloca todo mundo de chinelo, e diz para eles filmarem o homem que escolhe corretamente a casca de melancia no mercado coreano. O resultado é a coisa mais terna que a televisão americana produziu na década. E o canal cancelou. Naturalmente.

Los Espookys (2018-2022): a comédia em espanhol que a HBO não soube o que fazer com
Um pequeno aviso: tecnicamente Los Espookys estreou em 2018, mas a segunda temporada saiu em 2022 e foi cancelada injustamente em seguida, então ela conta.
A premissa é genial. Renaldo, jovem mexicano apaixonado por horror, monta com os amigos uma empresa de horror sob demanda num país latino-americano fictício. Eles encenam aparições para uma freira que precisa fingir um milagre, para um político que quer parecer corajoso enfrentando um fantasma, para uma herdeira que precisa convencer o pai morto de algo. Toda a série é em espanhol, exceto pela tia americana que liga do estacionamento, e nenhum personagem acha estranho que existam fantasmas, aliens ou monstros marinhos circulando por ali. Realismo mágico, mas com piada.
Julio Torres, o criador, escreve como se estivesse desenhando o roteiro com lápis de cor escolhido pela cor, não pela função. Ana Fabrega, sua co-roteirista, atua como uma sociopata gentilíssima. Bernardo Velasco interpreta o protagonista com uma fofura que faz dó. A segunda temporada teve cem por cento no Rotten Tomatoes e a HBO cancelou mesmo assim. Veja Los Espookys agora, antes que removam do catálogo por economia.

I Think You Should Leave with Tim Robinson (2019-2023): meia hora dele equivale a duas temporadas inteiras de qualquer outra coisa
Três temporadas, dezoito episódios totais, cerca de quinze minutos cada. Faz as contas: a série inteira de Tim Robinson cabe em pouco mais de dois episódios de Ted Lasso. A Rolling Stone calculou esse número com certo prazer cruel, e a gente reproduz aqui sem cerimônia.
A premissa é sketch comedy, mas chamar de sketch comedy é como chamar de drama o que acontece num funeral. Cada esquete começa em um lugar plausível, uma reunião de trabalho, uma festa de aniversário, um test drive, e termina em um lugar onde nenhum humano deveria estar emocionalmente.
A estrutura SNL é deliberadamente sabotada. Os esquetes não terminam onde deveriam, escalam quando deveriam aliviar, e usam a ferramenta mais elementar e mais subutilizada da comédia: o homem adulto que não admite estar errado e prefere destruir a sociedade ao redor a recuar. Robinson construiu uma carreira em cima disso, e em 2023 entregou a terceira temporada com Driving Crooner e Dan Flashes, dois esquetes que merecem placa.

E você, qual dessas cinco te assustou primeiro?
A lista termina e a pergunta começa. Você é team Fielder, que sofre por conceito, ou team Robinson, que sofre por explosão? Você consegue passar do terceiro episódio de The Rehearsal sem precisar pausar para processar? Você assistiu Los Espookys quando ainda dava tempo, ou descobriu agora num post nostálgico e ficou com raiva da HBO?
E existe alguma que faltou? Conta nos comentários qual deveria ter entrado no lugar de qual.
Até a próxima!










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