Sobre a Arte de Sarah
A Arte de Sarah (The Art of Sarah) é uma série sul-coreana de mistério e thriller policial, lançada globalmente na Netflix em 13 de fevereiro de 2026. Escrita por Chu Song-yeon e dirigida por Kim Jin-min, a obra traz elementos de suspense, crítica social e uma profunda reflexão sobre identidade e status social.
A protagonista é Sarah Kim, interpretada por Shin Hye-sun (que sempre entrega muito em suas atuações), uma figura envolta em mistério que, à primeira vista, ascendeu à elite através da marca de luxo Boudoir.

Mas a narrativa começa realmente quando se descobre um corpo nos esgotos de Seul, inicialmente identificado como Sarah Kim por uma tatuagem e pela posse de uma bolsa de luxo. O detetive Park Mu-gyeong (Lee Jun-hyuk) investiga o que parece ser um assassinato, mas, à medida que examina evidências e incongruências na vida da suposta Sarah, percebe que muito do que se sabe sobre ela é mentira, inclusive sua verdadeira identidade.
Ao longo da série, a história dispõe de investigação e flashbacks que revelam como essa mulher reinventou sua própria vida para habitar entre a elite, inalcançável para muitos.
Crítica

A crítica teve opiniões variadas, que vão de elogios à narrativa envolvente e à atuação de Shin Hye-sun até críticas a certas conveniências de roteiro para manter o mistério. Apesar disso, a produção alcançou altas posições nos rankings de visualização da Netflix em múltiplos países.
Busca por Pertencimento
É de conhecimento quase geral que o mercado global de bens de luxo, que inclui moda, relógios, joias e, especialmente, artigos como bolsas de grife, continua sendo um grande setor econômico e culturalmente simbólico.

Dentro desse universo, o mercado de bolsas de luxo, por exemplo, tem previsão de crescimento substancial nos próximos anos, e esse segmento em particular se destaca tanto pelo valor econômico quanto pelo seu papel como objeto de desejo.
Dentro da sociologia e da psicologia, o consumo de artigos de luxo é visto como um modo de exibir status social, uma forma de pertencimento. O consumidor exibe seus bens de luxo como um símbolo de identidade, de que pertence a um grupo social valorizado, assim como também serve para importar a imagem que o indivíduo quer projetar na sociedade.
E, em A Arte de Sarah, esse comportamento ecoa perfeitamente com a protagonista, que não busca apenas riqueza material, mas a validação social que jamais teve, o poder que isso lhe dá em forma que ela traduz como liberdade para ser quem “usaria aquele tipo de artigo”. Sarah deseja ser reconhecida e aceita em círculos elitistas e, após ser tão humilhada e desgraçada pela vida, ela fará qualquer coisa para ascender, até mesmo renunciar à sua identidade.

Desse modo, a série dramatiza a forma como o luxo, representado aqui pelas polêmicas bolsas de Boudoir, pode se tornar um tipo de legitimidade, muitas vezes eclipsando a autenticidade e a verdade individual. Afinal, se uma cópia é perfeita, será que ela realmente é uma falsificação?
E essa frase serve tanto para o produto quanto para aquilo que Sarah projeta socialmente.
Aqui, a obra nem ao menos disfarça sua crítica contundente: uma reflexão sobre como objetos podem moldar identidades e aspirações. Em A Arte de Sarah, representando o desejo de se sentir parte de algo e ver esse desejo como um sonho a se realizar, um motivo para continuar existindo.
O desenrolar da trama
Apesar da excelente crítica e do desempenho dos atores, confesso que a série não me prendeu. Na verdade, me senti atraída apenas nos primeiros episódios, quando acreditei que a protagonista estava morta logo de início.
Porém, com o desenrolar da trama, percebi que não me interessava por Sarah, por sua história, seus desejos e como ela elaborou um plano tão absurdo e manipulador para chegar ao topo, ainda que vendendo luxo imaginário. O motivo é que, apesar da excelente atuação de Shin Hye-sun, sua Sarah, apesar de sonhos, me pareceu carecer de carisma e de coração. Por alguns momentos, ela se assemelhava mais a um robô com uma missão, desprovida de qualquer sentimento, e isso me desconectou completamente dela, sendo impossível sentir qualquer empatia, apesar de seu passado.

Se a ideia do diretor era fazer com que víssemos Sarah como uma casca oca, onde apenas seu sonho importava sobre seu aspecto humano... bom, ele conseguiu. Sarah pode mostrar muita artimanha na série para enredar e enrolar suas vítimas e alvos, mas, para o espectador, ela pode não se mostrar nada mais do que uma golpista sem caráter.
Os demais personagens da trama também não despertam qualquer interesse, incluindo o detetive que se resume a um homem que quer, de todos os modos, resolver aquele crime. Ainda que essa seja a obrigação dele como profissional, não convence por que ele está tão empenhado assim. Fica parecendo (e sei que é de propósito) que todo esse empenho é mais pessoal, porque, afinal, ele quer desesperadamente saber quem realmente é Sarah Kim.
O problema aqui é que, talvez, ele deseje mais isso do que o próprio público.

O que vale a pena
Terminei a série, que ainda bem é curta, apenas 8 capítulos, com somente a sensação de que a crítica da obra fez bem seu papel ao expor tão cruamente como o desejo do TER para se sentir SER leva alguns ao extremo.
Ainda que não vejamos pessoas se matando por aí por uma bolsa de luxo, quantas pessoas não conhecemos que se endividam em meses apenas para ter um celular caríssimo de último modelo? Ou um carro zero?

Aqui no Brasil, até mesmo vimos uma figura pública dizer que “o capitalismo gera o assalto e, por isso, ela era a favor de tal crime, porque o indivíduo via o que não podia ter para ostentar, e isso gerava nele o desejo de roubar”.
E, se você não consegue ver como essa frase se relaciona a A Arte de Sarah, certamente não vai achar nem mesmo a crítica proposta na série interessante.

Vale a pena assistir A Arte de Sarah?
Se você curte muito esse gênero, dê uma chance, porque vai ao menos se divertir vendo como Sarah faz todo mundo de trouxa por causa de umas bolsas que, particularmente, achei cafonas.
Agora, se quer um thriller mais envolvente e com assuntos mais interessantes, passe para o próximo item do catálogo.
Nota 3.5/5
E você, tem algum artigo de luxo que gostaria muito de possuir ou prefere o simples funcional ao status?












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