Produção e Enredo de The WONDERfools
Em uma época cheia de universos cinematográficos de super-heróis quase mitológicos, a série sul-coreana Os SUPERtontos (The WONDERfools) escolhe apostar em personagens desajeitados e completamente despreparados para lidar com poderes extraordinários que ganharam da noite para o dia, com uma explicação pra lá de nojenta envolvendo esgoto. O resultado é uma mistura peculiar de comédia, ação, ficção científica e uma pitada de drama.
Ambientada em 1999, em vez de se tornarem heróis exemplares, os personagens continuam sendo pessoas comuns, inseguras e cheias de problemas e a trama se utiliza disso para construir situações absurdas e para explorar temas como pertencimento, amizade, fracasso e amadurecimento.

A protagonista Eun Chae-ni é interpretada por Park Eun-bin (excelente em Extraordinary Attorney Woo). Chae-ni é uma jovem impulsiva com um sério problema cardíaco que lhe renderá pouco tempo de vida, até que acaba envolvida em acontecimentos que mudam seu destino. Ao seu lado está Cha Eun-woo, interpretando Lee Woon-jeong (presente em True Beauty), um funcionário público que se vê envolvido em um caso de desaparecimento misterioso e a desova de um corpo. O elenco principal também inclui Kim Hae-sook, Choi Dae-hoon, Im Sung-jae e Son Hyeon-ju.
A direção fica a cargo de Yoo In-sik, responsável por sucessos como Extraordinary Attorney Woo e Dr. Romantic.
Recepção da crítica
Um dos aspectos mais elogiados pela crítica internacional é a capacidade da série de evitar a fórmula tradicional dos super-heróis. Veículos especializados destacaram o caos da narrativa, o ritmo dinâmico e a química entre os protagonistas.
No Rotten Tomatoes, a produção alcançou aprovação de 100% entre os críticos registrados e cerca de 96% entre os espectadores nas primeiras semanas após o lançamento.

Apesar do entusiasmo, alguns críticos observaram que o humor é exagerado, mas ainda assim, reconheceram o esforço da série em construir uma identidade própria dentro de um gênero que está se repetindo bastante.
Um Paralelo Nada Engraçado
Um detalhe que me chamou atenção no fato de a série se passar nos anos 90 é que o tema envolvendo laboratórios, crianças sequestradas e abusos não deixa de me remeter a um terrível caso ocorrido na Coreia do Sul entre os anos 70 e 80: o Brother’s Home.
Entre as décadas de 1970 e 1980, milhares de crianças, adolescentes, pessoas com deficiência, moradores de rua e até cidadãos comuns foram levados à força para instituições conhecidas como centros de “reeducação” ou instalações para “vagabundos”. A maior e mais infame delas foi a Brother's Home, localizada na cidade de Busan.
Oficialmente, a Brother's Home era apresentada como uma instituição de assistência social destinada a acolher pessoas consideradas abandonadas ou sem recursos. Na prática, investigações posteriores revelaram que o local servia como confinamento em massa apoiado pelo Estado. Policiais e agentes públicos realizavam operações nas ruas e levavam pessoas consideradas “indesejáveis” para essas instalações, e muitas nem eram moradores de rua. Crianças desacompanhadas, adolescentes voltando para casa do colégio, pessoas pobres, vendedores ambulantes e até indivíduos que simplesmente estavam caminhando sozinhos podiam ser classificados como “vagabundos” e desaparecer.

Em preparação para grandes eventos internacionais, como os Jogos Asiáticos de 1986 e as Olimpíadas de Seul de 1988, o governo intensificou campanhas para remover das ruas qualquer pessoa considerada um problema para a imagem do país.
Dentro da Brother's Home, sobreviventes relataram um cotidiano de violência extrema. Investigações concluíram que os internos eram submetidos a trabalhos forçados, espancamentos, tortura física, violência sexual e punições coletivas. Muitos eram forçados a trabalhar em fábricas administradas pela própria instituição, gerando lucro enquanto permaneciam presos sem qualquer processo judicial. Crianças conviviam com adultos em condições degradantes, frequentemente sofrendo abusos por funcionários e outros internos.
O número de mortos permanece um dos aspectos mais chocantes do caso, durante anos se acreditou que mais de 500 pessoas haviam morrido na instituição. Após novas investigações, foram confirmadas ao menos 657 mortes entre 1975 e 1988. Há relatos de corpos enterrados secretamente, cremados sem autorização das famílias e até enviados para instituições médicas. Muitos desaparecimentos jamais foram esclarecidos.

Uma das revelações mais perturbadoras surgiu quando investigações da Associated Press descobriram conexões entre a instituição e sistemas internacionais de adoção. Algumas crianças internadas foram registradas falsamente como órfãs e enviadas para adoção em países estrangeiros. Décadas depois, muitos desses adotados descobriram que possuíam famílias biológicas vivas na Coreia do Sul.
O escândalo começou a se tornar público em 1987, quando um promotor iniciou uma investigação sobre a instituição. Apesar das evidências de abusos, grande parte da responsabilidade estatal foi abafada durante anos, somente décadas depois sobreviventes conseguiram pressionar o governo por reconhecimento oficial. Em 2022, a Comissão da Verdade e Reconciliação concluiu formalmente que as violações ocorridas na Brother's Home constituíram graves crimes de direitos humanos cometidos com apoio ou omissão do Estado sul-coreano.
Hoje, o caso é frequentemente descrito por historiadores e veículos internacionais como um dos maiores escândalos da história moderna da Coreia do Sul. Para muitos sobreviventes, porém, a busca continua com diversos ex-internos ainda tentando localizar familiares desaparecidos, descobrir a verdadeira identidade de crianças enviadas para adoção internacional e obter reparações pela violência sofrida.

Então, o fato da série se passar nos anos 90 não tem como passar batido para quem conhece esse triste capítulo da Coreia do Sul, sendo que as crianças prisioneiras da Brother’s Home seriam adultos nos anos em que Supertontos se passa.
Se esse detalhe foi pensado de forma proposital por parte dos criadores, não podemos dizer, mas é praticamente impossível não fazer a conexão quando se conhece a história e os abusos dessas instituições.
Prós e contas de The WONDERfools
Apesar de ser uma série de comédia, confesso que ri bastante em momentos pontuais, mas não de forma constante.
Como a obra também acena para o drama, muitas vezes a graça se perdeu quando conflitada com o passado de abusos sofridos pelos protagonistas e pelos antagonistas.
Por outro lado, o drama aqui também não se destaca tanto, justamente para manter esse ar de super-heróis desengonçados. Sendo assim, não achei a série especialmente engraçada, mas também não consegui me emocionar. Entendo a proposta da desconstrução de heróis ultra poderosos e bem resolvidos, porém, há de se convir que nem mesmo esse tema é tão inédito assim.

Atuações
A atuação de Park Eun-bin dispensa maiores elogios, ela já se mostrou excelente em dramas como O Príncipe de Porcelana e comédia romântica como Diva a Deriva e ao lado dos personagens de apoio, os dois melhores amigos da protagonista, rende momentos de leveza e alguns sorrisos.
Infelizmente não posso dizer o mesmo sobre Lee Woon-jung, que apesar de ser considerado um dos rostos mais bonitos dos idols coreanos, não consigo deixar de achar sua atuação pouco expressiva. Sua mania de "apertar os olhos" é o máximo que consegue para entregar um pouco mais de reação quando necessário. Por seu personagem ser tão importante e dono de um plot twist interessante da trama, seria interessante uma atuação mais convincente. No fim, ele entrega apenas o rosto bonito, mas sem muito impacto, o que certamente compromete a imersão do espectador.

Sobre os antagonistas, há um esforço em entregar um background que justifique suas ações. No entanto, ainda me pareceu pouco profundo, comprometendo nossa empatia completa. Entendemos, e no entanto, não conseguimos criar qualquer laço com eles a ponto de sentir suas dores e perdas.
O vilão principal não possui qualquer carisma e sua motivação é simplesmente fazer qualquer coisa em prol da ciência. Um clichê batido que não chama atenção e que, mesmo sendo uma obra de comédia, um melhor desenvolvimento daria mais peso à série.
Também senti que a produção dedicou tempo demais para que os personagens descobrissem como seus poderes se manifestam, e isso prejudicou o ritmo em alguns episódios. Entendemos que eles não são o primor de inteligência, mas até para a ignorância existe um limite, principalmente quando ela desacelera a narrativa e compromete o enredo.

Vale a Pipoca assistir a The WONDERfools?
Até vale, é divertidinho e rende umas risadas aqui e ali. Tem também a "lição" sobre amizade, confiança, afeto... mas não é algo que se aprofunda, já que a série fica nessa balança entre comédia e drama.

Se está a fim de maratonar algo para desligar seu cérebro e ver mais um grupo de super-heróis desajustados, é uma opção! No fim das contas, talvez o mais relevante da série seja mostrar super-heróis improváveis na Coreia do Sul dos anos 90.
Nota: 3,6 de 5












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