Sobre The Chronology of Water
Marcando a estreia de Kristen Stewart na direção de um longa-metragem, The Chronology of Water estreou em uma das mais importantes sessões de Cannes: Un Certain Regard. Adaptado do romance homônimo de Lidia Yuknavitch, o filme conta a vida de uma jovem que cresce em meio a um terrível trauma.
Kristen faz sua chegada à direção começar em grande estilo. Cheia de linguagens propositivas e temas espinhosos, a diretora apostou em ousadia para construir um longa que tem muitos méritos, mas muitos defeitos também.
Alerta de gatilho a partir daqui: O filme trata de questões de abuso sexual.

O Enredo
O filme conta a história de Lídia, uma jovem que cresce num lar abusivo onde o pai abusa sexualmente dela, abusava da irmã, e a mãe, mesmo sabendo disso, não faz nada sobre o assunto. A jovem cria estratégias para lidar com o abusador, mas só consegue se desvencilhar quando entra numa faculdade e se muda da casa dos pais. O trauma nunca é deixado de lado nessa trama. A escalada de situações que seguem a vida de Lídia deixa constantemente claro como o que aconteceu com ela jamais vai ser esquecido. Lídia finalmente só consegue começar a lidar e expurgar esses sentimentos quando encontra refúgio na escrita.
A trama do filme é bem indigesta. Ao longo do primeiro ato do filme, precisamos lidar com diversas sequências inquietantes, violentas e perturbadoras. A diretora encontra soluções inteligentes em meio a esse processo para lidar com o peso disso, mas abordemos melhor isso lá na frente.
Voltando ao enredo: O que se sucede depois do primeiro ato é a cronologia da vida de uma mulher que vai carregar esse trauma para sempre, o caminho de sua libertação e o processo de expurgo do trauma. Infelizmente não há nada de belo a se observar aqui, cada momento parece ser desenhado para atuar como uma nova flechada no peito do público, que, a certa altura, já não tem mais onde tomar flecha.

O que Incomoda
A questão mais incômoda do filme parece muitas vezes ser proposital, mas não deixa de soar fraca quando abrimos uma análise mais profunda do drama. O caso é que o trauma parece estar presente em todas as cenas do filme. Não existe trégua ou descanso para digerir nada. Tudo é extrema e profundamente carregado de trauma. E é perfeitamente compreensível que o filme aposte em abordar isso mas sua fraqueza vem nesse excesso.
O filme parece tão focado em fazer um retrato realista e respeitoso (isso ele é bastante), mas acaba esquecendo de lidar factualmente com essa questão. O abusador em algum momento do filme parece ser praticamente perdoado e não há punição ou resolução nenhuma sobre o assunto.
É compreensível que o motor da trama seja o trauma gerado, mas é absolutamente frustrante que todos os crimes cometidos, que vemos em cena acontecer, sejam deixados de lado, completamente esquecidos pelo roteiro a troco de criar mais um pouco de sensação de inquietude.

Pontos positivos de The Chronology of Water
Em contrapartida a tantas questões, a direção do filme é inteligente, sensível e muito habilidosa. É possível ver que Kristen não é uma aventureira, sua direção já chega demonstrando maturidade, cuidado e um olhar autoral que é visivelmente estampado nas imagens.
Mesmo em momentos mais tensos, como cenas de abuso, a diretora demonstra muita sensibilidade e, acertadamente, opta por não enquadrar o abuso. O que tá acontecendo fica subentendido, carregado de metáforas sonoras e visuais e simbólicas que se fazem entender para o público sem ter que mostrar as vias do ato.
O desenho de fotografia do filme é lindo. A composição dos quadros, contrastes, cores, enquadramentos, tudo parece representar muito bem uma estética afiadamente conduzida pela direção. A água é um elemento que se faz presente, tanto literalmente quanto figurativamente. Isso contamina toda a estética do filme e constrói uma unidade acertada. A proposta sonora do filme também é ousada e acompanha esse mesmo desenho.

Finalizando
É possível se propor a entender a anatomia de uma ferida e seu processo de cicatrização, mas quando esse estudo vem por meio de ficar enfiando o dedo na ferida até ela inflamar e ir embora sem fazer um curativo, talvez o que esteja se fazendo seja mais destrutivo do que analítico.
Kristen Stewart entrega uma composição estética e temática linda. Uma delicadeza e cuidado absurdo na construção de cada elemento e signo visual do filme. Enquanto obra visual o filme pode ser considerado um deleite. Mas, pondo em vista sua narrativa, o que fica no final é mais do que a sensação de sufoco que o filme propõe, fica uma sensação de vazio. "Por que eu vi isso?" é o que você se pergunta ao final de The Chronology of Water. E diante de um tema tão sensível, é difícil de engolir.
Nota: 1,5 de 5
E você? O que achou do filme?
Até a próxima!











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